Finalmente, vimos António José Seguro. Durante três anos, “anulou-se”, conteve-se, submeteu-se. Agora, ei-lo a criticar Sócrates, a atacar Soares, a dizer o que teve de calar, a provar do que é capaz, como a pirraça das directas daqui a quatro meses. Onde é que esteve este António José Seguro durante três anos? Onde é que estava este António José Seguro em Julho do ano passado, quando o Presidente da República lhe foi entregar o governo e ele mandou dizer que não estava em casa?

E subitamente, deixámos de ver António Costa. O seu baile de debutante no Porto deixou meio mundo perplexo. As mesmas ideias de Seguro. Os mesmos elogios que Seguro fazia a Sócrates, os mesmos ataques que Seguro fazia à direita. Estará Costa a concorrer para ser, não o sucessor de Seguro, mas a segunda encarnação de Seguro? Onde está o António Costa que, segundo consta, se “dá” com a direita? Onde está o António Costa com pontos de vista próprios que aparecia às quintas-feiras nos canais de notícias?

Tudo isto sugere que o problema do PS não é António José Seguro. O problema do PS é outro, e podemos, para simplificar, dar-lhe um nome: José Sócrates. Basta reparar nisto: da apresentação do programa de António Costa, as primeiras páginas dos jornais só retiveram um pormenor: o elogio a Sócrates. Isso quer dizer alguma coisa.

O PS precisa de duas coisas para vencer eleições decisivamente e governar o país, sozinho ou coligado. A primeira é realismo. A liderança socialista não pode continuar a fingir que o país estava radioso em 2011 e que todas as aflições nacionais derivam unicamente do neo-liberalismo deste governo ou do egoísmo alemão. O mundo mudou e o PS precisa de mudar para continuar a ser relevante.

A segunda coisa de que o PS precisa é de se reconciliar com a direita. O PCP nunca lhe dará um voto e o BE já não tem votos para lhe dar. Pelo contrário, desde 1975, as direitas estiveram sempre disponíveis para votar no PS ou governar com o PS. Se o PS quiser dirigir uma maioria europeísta, só pode contar com as direitas, ou por transferência de voto, ou por aliança partidária.

O Partido Democrata italiano propôs um programa reformista, formou uma maioria aberta à direita, e esmagou a concorrência nas eleições europeias. O socratismo, neste momento, simboliza a impossibilidade de tudo isso em Portugal. Basta espreitar a missa negra que Sócrates reza todos os domingos à noite na RTP. Segundo Sócrates, a perfeição reinou em Portugal entre 2005 e 2011. Por ele, é inútil reexaminar políticas, trazer mais gente. O que o PS precisa é apenas de vingar a queda de 2011, derrubando o Presidente da República e o Governo, e de restaurar o passado.

Dir-me-ão: mas o socratismo tem assim tanta importância? Aparentemente, tem a importância suficiente para Seguro se ter “anulado” durante três anos e Costa estar a anular-se agora. Porque Sócrates, enquanto problema, não é apenas o homem e as suas clientelas. É tudo o que ele, por ressentimento, se dispôs a representar: o sectarismo, a negação da realidade, a indisponibilidade para evoluir. Todos os partidos têm esses pendores desagradáveis, sobretudo quando tocados pela arrogância do poder. O socratismo é apenas a forma aguda que a doença tomou no PS.

Um PS incapaz de se distanciar de Sócrates, isto é, do pior de si próprio, está destinado a repelir as pessoas sensatas e a mobilizar a direita. Quero admitir que António Costa percebe tudo isto. Mas é inquietante que não se sinta à vontade para resolver o problema desde já.