Importa antes de mais dissipar a polarização simplista que justificou a decisão tomada pela Assembleia da República. Primeiro, ou se celebra o 25 de Abril nos trâmites tradicionais, ou não se celebra de todo – como se somente este rito ortodoxo específico pudesse assinalar a data, e qualquer variante fosse blasfémia, mesmo que no hemiciclo e tão simplesmente com menos convidados. Segundo, derivação radical e igualmente falaciosa deste ponto de partida, quem apoia a celebração, pretensamente a única possível, é a favor dos valores de Abril, e quem se insurge é fascista antidemocrático investido em apagar a data da história nacional – como se a celebração maior da democracia portuguesa se pudesse fundar no extremismo excludente.

O debate tornou-se, então, numa instanciação do permanente receio ideológico contra forças reaccionárias, legítimo mas, aqui, despropositado, como uma resposta a uma pergunta que ninguém colocou. Toma-se por contestação ao facto de celebrar o 25 de Abril aquilo que é apenas o desacordo quanto ao modo de o fazer, que na verdade pressupõe já o facto como dado adquirido. A reacção de 2020 não é, portanto, ideológica nem contra a mudança histórica do 25 de Abril de 1974, mas uma objecção prática ao desfasamento desconcertante com a realidade do 25 de Abril de 2020.

Há pelo menos seis questões a apontar:

  1. Irrazoabilidade: concebe-se a organização de um grande evento comemorativo em pleno estado de emergência, juntando no meio de uma pandemia 130 pessoas de vários pontos do País numa altura em que as deslocações são limitadas e ajuntamentos superiores a 5 por norma interditos?
  2. Precedente problemático: aplicou-se até agora uma regra universal e, como tal, por todos aceite, que nenhuma função não-essencial pode reunir mais que um certo número de participantes no mesmo espaço. A partir do momento que se abre uma excepção, justificada não pela sua essencialidade mas pela sua “importância”, torna-se legítimo interrogar: não serão outros eventos importantes também? E poderão então agregar até 130 pessoas? E se forem menos? Não é a Páscoa importante para um Católico? O casamento importante para um casal? A última despedida de um ente amado importante para família?
  3. Políticos e o resto: a quem governa e legisla é, justamente, atribuída excepção a certas normas para cumprir a tarefa extrema, de risco, mas essencial de manter o País em funcionamento, tal como, por exemplo, um médico. Mas nem os médicos se reúnem hoje presencialmente em grandes conferências para discutir a pandemia que combatem. Para além do estritamente necessário e inevitável, não deve a pandemia, traduzida em forma de lei obrigando o cidadão comum a isolar-se em casa, abranger também o deputado? É incontornável a ironia de uma celebração do 25 de Abril possível apenas pelo abuso de um poder conferido pelo povo mas que lhe é negado – uma clivagem vincadamente reforçada pelas reacções surdas e soberbas à contestação popular.
  4. Gestão da pandemia: Angela Merkel explicava recentemente ao povo Alemão o impacto dramático para o sistema nacional de saúde de uma pequena variação na taxa de contágio, i.e. entre 10 pessoas contaminarem outras 11, ou 13. Num equilíbrio tão frágil, que mensagem chega aos Portugueses num contexto de pandemia? Afinal, se mais de uma centena se pode reunir, qual é o problema se qualquer um, até agora isolado em casa, convidar três ou quatro amigos para jantar?
  5. Inépcia para inovar: 0 mundo viu-se subitamente forçado a adaptar vidas profissionais e pessoais às circunstâncias, principalmente através da conjugação de novas normais sociais e meios tecnológicos. E porém quer um quer o outro se mantiveram fundamentalmente intactos quando o órgão legislativo do País, desprovido de engenho, criatividade, rasgo, ou mesmo mero conhecimento do que já se faz bem, respondeu ao momento repetindo o mesmo modelo de sempre. Que esperar do Parlamento nas questões realmente complexas como a crise que se avizinha? Legislarão para 2020 antecipando o futuro, ou legislarão para um século (ultra)passado?
  6. Oportunidade perdida: perante uma cerimónia que pouco ou nada apela aos Portugueses mais jovens, não seria este um momento para reinventar como manter a consciência da importância da Revolução presente para além da memória de quem a viveu?

Destas seis questões nenhuma sugere nem implica que a data passe esquecida, e muito menos se opõe àquilo que se celebra. Poder-se-á, todavia, dizer o mesmo sobre a sua realização como foi determinada? Esta cerimónia, que desafia a razão e a realidade, quebra o consenso nacional de um País unido numa mesma causa, discrimina entre político e cidadão comum perante leis que devem abranger a todos, joga à roleta russa com a saúde dos concidadãos, anacroniza a Revolução ancorando-a em ’74 e aliena as gerações que dela nasceram. De que vale o simbolismo da cerimónia se a sua realização se faz contraproducentemente à revelia dos valores que celebra?