Podíamos imaginar a seguinte conversa entre o PM português e o novo Presidente brasileiro, quando se encontraram a semana passada. Com aquele ‘sorriso colgate’ para conquistar o seu interlocutor, Costa pergunta a Temer: “Meu caro Michel, conte-me lá como chegou a Presidente sem ser eleito?” Com o seu formalismo de professor de Direito, Temer responderia imediatamente, corrigindo Costa: “Fui eleito vice-Presidente, por isso essa conversa de que não tenho legitimidade democrática é uma bobagem.” Deixando as cerimónias de lado, Costa diria: “Meu caro Michel, deixe-se de formalismos. O senhor foi eleito vice-Presidente e é agora Presidente. Isso é um feito político. É necessário talento para ser eleito para um palácio e a meio do mandato mudar-se para o outro palácio. É o género de talento que admiro e, sem querer parecer convencido, julgo que partilho esse talento consigo.” (Aqui Costa pensaria mesmo ‘O meu talento ainda é maior, porque cheguei a PM perdendo as eleições’). Sem parar, Costa continuaria: “Sabe que eu também não fui eleito PM mas sou PM. Formalmente, somos todos eleitos deputados, mas politicamente, e isso é que conta, toda a gente sabe que as eleições também servem para se escolher o PM.”

Com a sua habitual prudência, Temer afirmaria: “Meu prezado Costa, conte-me então a sua experiência. Depois, conto-lhe a minha.” “Olhe”, começaria Costa, “eu estava convencido que ganharia as eleições com uma larga vantagem. Após quatro anos de austeridade, com cortes de salários e de pensões, mais aumento de impostos, seria impossível não vencer. Por isso, abandonei o lugar cómodo que tinha na Câmara de Lisboa, e avancei para a liderança do PS. O meu antecessor era um antigo líder da JS, fraquinho e sem carisma. Não venci as eleições por três razões. Reconheço que não fiz uma campanha boa. Mas sobretudo o meu adversário fartou-se de mentir. Ele, que tinha a economia a crescer 1.5%, prometeu aos portugueses um crescimento na ordem dos 2.5%. Um descaramento fazer uma promessa destas. Eu paguei um preço elevado por não fazer promessas desse tipo. Os portugueses acreditaram e votaram nele. Além disso, o último governo socialista, tenho que reconhecer, deixou más recordações aos portugueses. Aquele Sócrates foi um desastre. Era muito amigo do Lula, lembra-se?”

E Costa continuaria: “A noite das eleições foi um pesadelo. Os meus camaradas estavam destruídos, mas eu ando nisto há muitos anos e percebi imediatamente a situação política. Perdi as eleições mas a direita perdeu a maioria parlamentar. Tinha a certeza que os partidos da extrema-esquerda, o PCP e o BE, se juntariam a mim para impedir a direita de continuar no poder. Sabe, meu caro Michel, toda a esquerda em Portugal detesta o Passos Coelho. Mais quatro anos no poder e o tipo destruía os sindicatos e acabava com o poder da função pública. Veja lá que ele até deixou cair um dos maiores bancos privados portugueses, o Espirito Santo. O tipo é doido e ainda diz que defende a iniciativa privada. O PS é que entende bem os grandes grupos económicos. Ainda tive que fingir que negociava um acordo com os partidos de direita, sobretudo para acalmar o Presidente da República da altura. A partir daí foi tudo fácil. Eu queria ser PM e o PCP e o BE não queriam o Passos Coelho a PM. Por isso, construímos uma maioria parlamentar, derrubámos o governo minoritário de direita e tornei-me PM, tal como tinha prometido ao meu partido. Eu percebi um ponto essencial: na política portuguesa, quem conseguir construir uma maioria parlamentar faz o governo.”

Já relaxado, e fascinado com o relato de Costa, Temer também contou a sua experiência: “Estava ouvindo o meu prezado amigo e pensava nas semelhanças entre o Brasil e Portugal. Embora o Brasil tenha um sistema presidencial, no final o que conta são as maiorias no Congresso, tal como em Portugal. É sempre possível encontrar uma justificação legal para iniciar o impeachment. O PT tentou várias vezes quando o Henrique Cardoso foi Presidente e depois o PSDB também tentou quando o Lula foi Presidente. Nunca conseguiram porque o Cardoso e o Lula eram muito hábeis e souberam preservar as suas maiorias no Congresso. A Dilma nunca percebeu o ponto fundamental da política brasileira: o lugar de Presidente está seguro enquanto for apoiado por uma maioria no Congresso. Se a perder, o seu lugar está em risco. A Dilma não ligava nenhuma aos congressistas, nem aos do seu partido. Até se queixavam a mim. Prezado Costa, você devia ouvir o que o Lula diz em privado da falta de talento politico da Dilma.”

Temer continuaria a contar a sua experiência a um atento Costa. “Quando a Dilma perdeu a sua maioria, e quando se encontrou uma justificação para se iniciar o processo de impeachment, comecei a construir a minha maioria. Comecei com uma vantagem, o meu partido é o maior no Congresso, [‘Prezado Costa, o seu partido também é o maior no parlamento português não é?’ ‘Não, não é’, responderia Costa]. Depois foi fácil convencer o PSDB, que detesta o PT, o Lula e a Dilma. Com o PSDB e o PMDB juntos, conseguimos conquistar igualmente os restantes partidos da oposição. Prezado Costa, o meu amigo uniu a esquerda contra o Passos. Eu uni a direita contra o Lula e a Dilma. Como diz o meu amigo, o que conta são as maiorias parlamentares, no nosso caso no Congresso.”

Temer ainda faria uma pergunta que estava na sua cabeça desde o início da conversa: “Do que conheço da política portuguesa, o PCP e esse novo partido aí, como é mesmo, o BE, não são muito radicais?” Costa responderia com satisfação: “Em Portugal, sobretudo na direita, ainda há muita gente que os vê como partidos radicais. Até no meu partido ainda há alguns que pensam assim. Recorda-se que o nosso querido Mário Soares sempre recusou juntar-se aos comunistas. Mas ninguém no PS os conhece como eu. Eles sempre quiseram o poder e eu dei-lhes poder. Perante o poder, a ideologia é secundária. Meu caro Temer, o senhor é um homem de poder, sabe bem o que eu quero dizer.“

“Claro que sei”, diria Temer, “o senhor tem toda a razão. Vi como o PT mudou quando chegou ao poder. Muitos deles também eram revolucionários. Viveram em Cuba, estudaram em Paris. Mas, depois de chegarem ao poder, esqueceram a revolução e a ideologia. Lula tornou-se no melhor amigo dos capitalistas brasileiros. Prezado Costa, o que conta é o poder. O poder e a capacidade para fazer acordos com todos. Eu e o senhor sabemos isso.” Com um sorriso largo, Costa acenou com a cabeça e deram um grande e apertado abraço.