Apesar de ser um assunto que recebe cada vez menos atenção em Portugal, a crise dos refugiados não chegou a um fim. É verdade que se assistiu a uma redução do número de pessoas a tentar a sua sorte na fuga para o continente europeu. No entanto, ainda há milhares de pessoas a viver em campos de refugiados, sem as condições mais básicas, com as suas vidas pendentes, à espera pela aprovação do pedido de asilo.

Para nós, que estamos cá em Portugal, os problemas são o tempo que perdemos no trânsito de manhã, o nosso clube de futebol que não ganha há duas ou três jornadas ou o preço da gasolina que continua a subir. Ainda bem que vivemos no nosso ‘cantinho do céu’, como gostamos de lhe chamar. Mas o que seria de nós se, de hoje para amanhã, o único sítio que conhecemos como lar ficasse destruído e não tivéssemos opção senão largar tudo e fugir? Claro que o mundo tinha obrigação de nos ajudar. Afinal de contas, somos europeus. Somos gente de confiança. Não há cá terroristas. Aqui é só corruptos e esses não fazem mal a ninguém. Bendita hipocrisia que nos permite dormir descansados, a saber que nada fazemos, nem queremos ou tentamos fazer, pelas milhares de famílias que (sobre)vivem em condições miseráveis, em campos de refugiados no nosso continente. Ninguém quer correr riscos e ajudar um terrorista, porque com os muçulmanos nunca se sabe. Mais vale não arriscar.

A âncora da incerteza

Em conversa com os residentes do campo de refugiados de Kara Tepe, em Lesvos, ouvem-se histórias de guerra, perseguição, tortura e violência. Famílias que fugiram dos seus países, em busca de segurança e de uma vida melhor, com relatos e histórias de vida inimagináveis para o comum ocidental. Falamos de pessoas que, de carro ou a pé, chegaram à Turquia para colocar as suas vidas à mercê do Mar Egeu. É uma viagem realizada quase sempre durante a noite para fugir aos olhos da guarda costeira turca, muitas vezes sem colete salva-vidas e com bebés e crianças a bordo. Esta jornada representa para muitos uma oportunidade única, com o investimento das poupanças de uma vida.

Um jovem iraquiano alerta para o perigo desta deslocação: “Confiamos a nossa vida em pessoas que não conhecemos e que não nos explicam nada. É muito assustador. Temos de entrar em carros com desconhecidos que não falam a mesma língua, passar dias na floresta… Já para não falar do perigo que é a viagem no mar”.

Moria: A nova Guantánamo

Chegando à ilha de Lesvos, são levados para o centro de detenção de Moria, onde aguardam a resposta ao pedido de asilo. Com capacidade para 3000 pessoas, a antiga base militar está sobrelotada. Consequentemente, muitos vivem em tendas na periferia do campo.

Em Moria, não há condições básicas: esperam horas em filas por água e comida que não chega para todos; as más condições de higiene contribuem para a propagação de doenças e infeções; no inverno, o frio não permite um banho sem uma ida ao hospital. Por vezes, estas condições desumanas, juntamente com a espera incerta pela aprovação do pedido de asilo geram frustração, o que resulta em violência. Apesar da presença policial, os residentes não sentem proteção ou segurança.

Quem lá viveu diz que é tortura psicológica, descreve Moria como o inferno e compara-a à prisão da Baía de Guantánamo. Surgem constantemente relatos de comportamentos autolesivos e tentativas de suicídio. Há quem acredite que estas condições se mantêm para que as pessoas queiram regressar aos seus países e se reduza o fluxo de refugiados.

O que gostavam de dizer aos portugueses?

As principais mensagens para Portugal são de agradecimento aos voluntários e pedidos de acolhimento. Entre estes, as palavras de um casal e os seus cinco filhos para o Presidente da República: “Ajudem-nos, deixem-nos ir para Portugal. Somos uma família de sete, não arranjamos problemas. Só queremos poder viver em Portugal, num país seguro e com oportunidades. Só precisamos de chegar até Portugal, porque temos lá amigos que nos ajudam a arranjar casa e trabalho”. Por sua vez, um jovem iraquiano dirige-se à Europa: “Na II Guerra Mundial, muitos europeus fugiram para os países árabes. Agora, está a acontecer a mesma coisa, mas ao contrário. Nós ajudámos a Europa e a Europa agradeceu. Agora, nós precisamos de ajuda”. Terminando num tom mais positivo, as palavras de um jovem sírio: “Digam ‘olá’ por mim ao Iker Casillas”, o seu grande ídolo no mundo do futebol.