Naquela região da esquerda que vai dos pântanos socráticos aos baldios do BE, houve duas atitudes perante a dívida pública. A primeira durou até ao fim do consulado de Sócrates. Falar da dívida, enquanto a dita subia de 63% do PIB em 2006 para 108% em 2011, suscitava então por esses lados a maior complacência. Lembram-se? Um país não era uma família que tivesse de se preocupar com dívidas, as dívidas não eram para pagar, os EUA e o Japão passavam muito bem com as suas montanhas de dívida, etc. E quando os juros da dívida pioraram, a culpa foi só dos “especuladores”. Mencionar a dívida, mostrar a mínima inquietação com o seu custo, bastava para incriminar qualquer cidadão como “neo-liberal”.

Entretanto, Sócrates caiu e o BE desfez-se – e nas actuais manobras de socráticos e esquerdistas para reconquistarem influência, ei-los muito preocupados com a dívida, acusando os seus adversários de não reconhecerem o problema e de nada fazerem para o resolver.

É o mundo de pernas para o ar. Porque é a esquerda socrático-trotskista que continua a não reconhecer o problema da dívida e que não quer fazer nada para o resolver. Para as facções socrático-trotskistas, a dívida só importa como pretexto de especulação política. Durante três anos, agitaram-se a pretexto da “depressão”, do “desemprego”, e da iminência do “segundo resgate”. Desmontados pela “saída limpa”, descobriram a “reestruturação” da dívida como ponto de encontro das famílias descontentes com o governo. Foi a época do “Manifesto dos 74”. Mas a natureza, nesta gente, é mais forte do que qualquer cálculo: Louçã não conseguiu resistir à oportunidade de, a propósito da “reestruturação”, comprometer uma parte do socratismo no projecto de um novo 11 de Março. É para isto que lhes serve a dívida.

A dívida portuguesa é um problema tremendo. Não só pelo seu custo directo em juros, mas porque dívidas desta dimensão estiveram quase sempre associadas, no passado, a bancarrotas, inflações e outro tipo de violências fiscais: por isso, a sua mera existência mina a confiança, afasta o investimento, dissuade a poupança.

Ora bem, a questão é esta: perante a dívida, o que é “fazer alguma coisa”? Não é certamente usar a dívida para especulações políticas. Também não é embarcar num qualquer impulso unilateral que nos poupe a pagar juros, mas depois nos impeça de aceder aos mercados de capitais e afaste o investimento. Nós não temos os petróleos e as matérias primas com que a Argentina vai compensando o carrossel das suas falências. Reduzir Portugal a uma Coreia do Norte financeira não é solucionar o problema da dívida: é apenas substituir um problema por outro problema ainda maior.

“Fazer alguma coisa” só pode ser atacar as causas da dívida nos défices públicos e convencer credores, investidores e aforradores que estão perante um Estado honrado e responsável, à procura de equilíbrio. É com este tipo de Estado que os credores poderão estar disponíveis para negociar e aceitar termos de serviço da dívida mais suportáveis, como já fizeram o BCE e a Comissão Europeia na sequência do nosso esforço de ajustamento. É também com este tipo de Estado que os nossos parceiros da União Europeia talvez admitam um dia enfrentar a dificuldade em conjunto. Esperar o contrário, confiar em arrogâncias de caloteiro para obter facilidades sem condições, é uma ilusão.

A diferença é, portanto, esta: há os que querem fazer alguma coisa para resolver o problema da dívida, e há os que não querem fazer nada, a não ser aproveitar o novo alarme com a dívida para ver quem manda à esquerda.