Por paradoxal que pareça, existem algos traços comuns entre Donald Trump, Jair Bolsonaro, Vladimir Putin e Jerónimo de Sousa. São poucos, mas muito significativos: a obsessão na consecução de objectivos políticos e a desvalorização da vida humana.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não esconde o desprezo pela vida humana ao desprezar as opiniões de médicos e cientistas na luta contra a pandemia de Covid-19, ao insistir em formas de combate ao vírus que já mostraram falhar noutros países.

Aqui, ao lado de Trump, podemos colocar o Presidente brasileiro Jair Bolsonaro, outro dirigente para quem a vida vale muito pouco e também “alérgico” à opinião de médicos e cientistas. Aliás, eles assemelham-se também na incapacidade ou na falta de ouvir a sociedade civil. No caso dos Estados Unidos, as declarações do dirigente da Casa Branca face aos motins que ocorrem no país têm sido, no mínimo, desastrosas, em nada contribuindo para o apaziguamento social.

Será difícil encontrar na história moderna desses dois países dirigentes tão narcisistas e incompetentes. Por isso, é preciso reforçar a imunidade da democracia contra “vírus” dessa espécie.

Do outro lado temos Vladimir Putin, aparentemente mais sofisticado, mas, no fundo, outro demagogo e mentiroso descarado. Em 2015, ele jurou em frente das câmaras de televisão que não iria rever a Constituição da Rússia para abrir caminho à sua participação nas eleições presidenciais de 2024. Em 2020, tivemos a oportunidade de ver que ele mentiu (e esta não foi a única vez!) e que nem sequer teve pejo de organizar uma “votação nacional” decente.

Muitas das decisões dos dirigentes russos, e principalmente de Vladimir Putin, são explicadas com a “especificidade”, com o caminho “próprio” e “soberano” da Rússia, mas, no caso da “votação nacional” sobre as emendas à Constituição, que irão também dar ainda maiores poderes ao Presidente, essa explicação é mais do que estúpida, é criminosa.

Ainda o país está mergulhado em altos números de infectados com Covid-19 e Putin já se apressa a marcar a votação nacional para o dia 1 de Julho. Seria muito mais sensato vencer a batalha contra a pandemia e, depois, “colher os louros” no escrutínio, mas não, pois ele não confia no apoio dos seus cidadãos. Os níveis da sua popularidade caiem a olhos vistos, pois os russos viram que a fanfarronice do Kremlin face à pandemia não passou mesmo de fanfarronice.

Vladimir Putin quer ter o poder legitimado para continuar a defender a elite oligárquica e securitária que dirige a Rússia e, no Outono, já poderá ser perigoso deixar os eleitores tomarem decisões.

Além disso, como se poderá realizar uma consulta popular em tempo de pandemia? Pelos vistos, o Kremlin não consultou a Organização Mundial de Saúde e, se o fez, espero que a direcção desse organismo das Nações Unidas não tenha tido a mesma atitude dócil que demonstrou com a China no início da pandemia.

Claro que na Rússia tudo é possível, mas não é porque esse país tenha um “caminho próprio” (cada povo tem o seu próprio caminho). Isso deve-se ao facto de Putin querer consagrar-se czar Vladimir II (e de todas as Rússias de preferência) e estar disposto a sacrificar a saúde dos seus cidadãos no altar da eternização no poder. António de Oliveira Salazar e Francisco Franco, estejam ou estiverem, deverão sentir-se preocupados com o seu recorde de ditadores.

E será possível discutir em consciência as dezenas de emendas à Constituição quando diariamente há milhares de novos infectados e mais de uma centena de mortos no país? (Sublinho que cito números oficiais, que poderão estar muito longe da verdade.) Mesmo numa situação normal é difícil acreditar na democraticidade nos escrutínios putinistas…

E como corolário da falta de vergonha dos organizadores desta farsa, a Comissão Eleitoral Central da Rússia, a pretexto da “defesa da população” e para “prevenir ajuntamentos” em tempos de pandemia!, estende a votação por uma semana, organiza “votação electrónica” em Moscovo e São Petersburgo e não exige que se assinale nos cadernos eleitorais os nomes dos votantes! Estas e outras inovações abrem caminho a mais uma falsificação dos resultados. No Kremlin apenas se discute com que percentagem deverão ser apoiadas as emendas à Constituição: 60 ou 80% dos participantes?

Claro que à beira do “grande líder” russo, um dos exemplos a seguir segundo o Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa é um pigmeu político, mas a telenovela em torno da “Festa do Avante” mostra que os seus desígnios são grandiosos. Se a Câmara do Seixal se empenhasse tanto no desaparecimento de bairros clandestinos como o PCP se aplica na “Festa do Avante”, o Bairro da Jamaica já poderia ter as condições de vida humanas.

Querem lá os comunistas saber da saúde e da vida dos cidadãos! Imaginem que agora já apoiam a política de Mao Zedung, ditador sanguinário chinês que tirou muitas pessoas da fome mandando-as para o outro mundo.

“Ora, o Rei nunca lhes mandou conhecer a fundo o fabuloso desenvolvimento do gigante asiático desde a revolução de 1949: os milhões retirados da fome, da pobreza e do obscurantismo, o fulgurante aumento da esperança de vida, a transformação de um país atrasado e dependente numa das maiores potências da actualidade. Que importa que a China não tenha agredido nenhum outro país? Que o seu poderio militar seja muitíssimo inferior ao norte-americano e cresça mais lentamente? Que esteja cercada por bases e porta-aviões dos EUA? A República Popular da China é o alvo a abater e o rigor não é um critério. Só importa fazer o que o Rei manda” – escreve Gustavo Guerreiro, membro dirigente do PCP, no “Avante”.

A vontade de beijar os pés aos actuais dirigentes comunistas chineses é tal que este teórico se esqueceu de que a China atacou a União Soviética e o Vietname, duas referências no imaginário comunista.

Por este andar, na próxima “Festa do Avante” já se poderá adquirir o “Livro Vermelho” do “grande timoneiro”.

Mas aqui também é preocupante ver o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro António Costa não terem coragem para dizer que não há excepções para ninguém.

A lei deve ser igual para todos e, se estão realmente preocupados com a ascensão do pequeno “führer” André Ventura, não lhe deem mais um argumento para ganhar apoiantes.