Rui Rio

O que Rio pode realmente aprender com Sá Carneiro

Autor
  • Miguel Pinheiro
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Sá Carneiro tentou várias vezes fazer acordos de regime com o PS: em 1976, em 1977, em 1978 e em 1979. Ao perceber que o PS nunca aceitaria negociar, virou-se para o CDS e ganhou com maioria absoluta.

Rui Rio idolatra tanto Sá Carneiro, gosta tanto de citar Sá Carneiro e insiste tanto na absoluta necessidade de seguir Sá Carneiro, que talvez fosse útil que, eventualmente, Rui Rio aprendesse alguma coisa com Sá Carneiro.

Inicialmente, Sá Carneiro acreditou que só uma aliança do PSD com o PS permitiria reformar o regime e tirar o país do impasse. Com fé e confiança, propôs a Mário Soares que os dois partidos fizessem um acordo logo em Setembro de 1976; e novamente em Janeiro de 1977; e outra vez em Maio; e ainda no Verão.

Foi a primeira tentativa de fazer acordos de regime com o PS e foi o primeiro falhanço.

Na época, Sá Carneiro usou uma frase que repete quase letra por letra o que Rui Rio afirmou este fim de semana no Congresso do PSD. Ora comparem.

Sá Carneiro: “Entendemos que é necessário e urgente um acordo entre partidos que formem uma maioria democrática, a fim de que se estabeleça um consenso estável acerca da resolução dos grandes problemas nacionais, e continuamos dispostos a dar para tanto o nosso contributo”.

Rui Rio: “Outros estrangulamentos não são passíveis de serem resolvidos sem a colaboração de todos, porque são questões de ordem estrutural que só com entendimentos alargados o País conseguirá ultrapassar. Para a resolução desses, devemos estar todos disponíveis em nome do interesse nacional”.

Perante a resistência inicial dos socialistas, Sá Carneiro introduziu um ponto de pressão novo (que, aliás, este fim de semana foi também ressuscitado pelo vice de Rio, Nuno Morais Sarmento, no congresso do PSD): para conseguir fazer reformas era preciso um entendimento entre os dois maiores partidos mas, além disso, para ter a certeza de que os socialistas não tinham espaço de fuga, era também indispensável o “patrocínio” do Presidente da República.

A conversa que se ouvia de Belém na altura (vejam lá se isto vos faz lembrar alguma coisa) era a da necessidade de procurar “alternativas” políticas com “sólidas bases sociais de apoio”, que ajudassem a entrar na “via corajosa das reformas profundas”.

Sentindo que tinha o incentivo presidencial, Sá Carneiro convidou novamente o PS para falar. E, tal como agora promete fazer Rui Rio, juntou-lhe o CDS. O objetivo era, outra vez, chegar a um entendimento global para as grandes reformas estruturais.

O líder do CDS aceitou logo, mas o secretário-geral do PS deixou Sá Carneiro à espera. Ao fim de alguns dias, Mário Soares, que era também primeiro-ministro, convidou o líder do PSD a ir a São Bento. Ao longo de 50 minutos de conversa, Soares explicou-lhe, de forma professoral, que o PS não ia aceitar nada porque não pretendia ficar “prisioneiro” de um compromisso como esse.

Foi a segunda tentativa de fazer acordos de regime com o PS e foi o segundo falhanço.

Em 1979, com uma cisão em curso no PSD, Sá Carneiro voltou a insistir com Mário Soares. O líder dos social-democratas já sabia como as coisas iam acabar e estava apenas a tentar provar ao seu partido que aquele caminho era inviável, mas, mesmo assim, esforçou-se. Desta vez, juntou a negociação ao charme. Primeiro, convidou o líder do PS para um almoço no Tavares, um dos melhores restaurantes de Lisboa, e para um jantar em sua casa, com Maria de Jesus Barroso e Snu Abecassis. Depois, para garantir a estabilidade política que facilitaria as reformas estruturais, propôs que o PSD apoiasse Mário Soares numa candidatura a Presidente da República e que o PS apoiasse Sá Carneiro numa candidatura a primeiro-ministro.

Foi a terceira tentativa de fazer acordos de regime com o PS e foi o terceiro falhanço.

Sá Carneiro esgotara todas as opções: tinha tentado um acordo informal com o PS, tinha tentado um acordo patrocinado pelo Presidente da República, e tinha tentado um acordo formal com distribuição de lugares para os líderes dos dois partidos. Nada resultara: o PS recusava qualquer negociação isolada com o PSD a não ser num ou dois temas razoavelmente inócuos (como é hoje em dia o da descentralização, que implica uma distribuição de poder, ou o da aplicação dos fundos comunitários, que implica uma distribuição de dinheiro).

Os socialistas foram absolutamente claros: o seu grande plano era transformar o PS no centro eterno da vida política. As regras eram simples: o PS podia governar alternadamente com o apoio do PCP, do PSD e do CDS; mas o CDS, o PSD e o PCP não poderiam nunca, jamais, em tempo algum, ir para o Governo sem o PS. Os socialistas pretendiam convencer os portugueses de que eram o garante supremo da democracia — quem se atrevesse a tirá-los do poder estaria a optar pelo comunismo, se estivesse à esquerda, ou pelo fascismo, se estivesse à direita.

Quando ouviu a terceira nega de Soares, Sá Carneiro desistiu de tentar obrigar o PS a mudar. Não valia a pena. Por isso, ao abandonar a conversa com o líder socialista, deixou-lhe um aviso sério: “Então, terei de me virar para o CDS”. E virou: em poucos meses, fundou a Aliança Democrática e venceu as eleições com maioria absoluta, criando assim finalmente as condições políticas para fazer as reformas pelas quais suspirava há anos.

Rui Rio tem na cabeça o Sá Carneiro de 1976; mas aquele que ficou na História foi o Sá Carneiro de 1979.

P.S.: Esta terça-feira à noite, Elina Fraga foi à SIC Notícias socorrer-se da boa e velha tese da “cabala” para tentar sair do buraco onde se enfiou. Com indignação retórica, perguntou quem teria feito telefonemas aos jornalistas no Congresso do PSD a informar sobre a auditoria à sua gestão da Ordem dos Advogados, com o objectivo de minar a sua merecida consagração. No que diz respeito ao Observador, posso esclarecê-la, até porque estava lá: não houve telefonemas nenhuns. Qualquer jornalista bem informado conhece de cor as suas polémicas. Imagino que fosse mais útil de outra forma, mas neste caso não foi necessária qualquer vil conspiração.

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