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1 Ainda me recordo do que o PS dizia sobre as maiorias absolutas de Cavaco Silva. Para os socialistas especialistas no marketing e nas ‘narrativas’ criadoras de alegados factos políticos, os governos do PSD de 1987 a 1995 tinham um poder supostamente absoluto e alegadamente anti-democrático. Para as lideranças de Vítor Constâncio, Jorge Sampaio ou António Guterres não interessava os números recorde de crescimento económico e a verdadeira transformação social que o país vivia — o essencial era o domínio do Estado pelo aparelho social-democrata, a excessiva concentração do investimento público na política de betão e as sucessivas inaugurações de obras públicas em vésperas de eleições, além da propaganda ao Executivo que se via nos media públicos, nomeadamente na RTP.

“A democracia corre perigo!” — gritavam em uníssono os socialistas, apoiados pelo seu líder histórico Mário Soares que era então Presidente da República.

2Ironia das ironias: o Governo de António Costa está a fazer exatamente o mesmo que o PS criticava no cavaquismo. Se antes os socialistas diziam que largas dezenas de milhares de milhões de fundos europeus não eram propriedade do Governo do PSD para que este oferecesse aos seus fiéis, hoje António Costa repete a receita na campanha das autárquicas de forma completamente despudorada. O primeiro-ministro insinua mesmo nas suas intervenções públicas que as autarquias lideradas pelo PS serão beneficiadas na distribuição dos fundos da bazuca por serem as mais bem preparadas e colocadas para utilizar o dinheiro dos fundos europeus.

Pior: os candidatos autárquicos do PS vão à boleia de Costa e dizem claramente que só eles têm acesso aos números dos ministros e dos secretários de Estado, logo só eles têm acesso direto ao Terreiro do Paço. A socialista Luísa Salgueiro, presidente da Câmara de Matosinhos, sugeriu mesmo ao “secretário-geral [do PS] que diga ao primeiro-ministro que se prepare” porque Matosinhos “já tem a gaveta cheia de projetos” para se candidatar ao PRR.

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É tudo tão à descarada que faz pensar sobre o que realmente acontece nos bastidores. É legítimo perguntar: “Se eles falam assim em público, imagine-se o que não farão em privado?”.

3Se antes o PS defendia que o Estado não podia ser capturado pelo partido com maioria absoluta no Parlamento, hoje promove descaradamente tal promiscuidade por via do próprio António Costa. Exemplos? O primeiro-ministro vai a Coimbra prometer a construção de uma maternidade, segue para a Guarda para anunciar uma expansão do hospital, lidera mais comícios para anunciar mais estradas para Famalicão, Mirandela, Viana do Castelo e Celorico de Basto e antecipa um sistema de metro ligeiro para Loures e expansão do metropolitano em Lisboa.

Tudo isto financiado com os fundos do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), claro. Um programa europeu que aparenta estar mesmo ao serviço dos interesses eleitorais do PS.

Além da partidarização indecorosa do PRR, os socialistas apostam nas habituais doses de eleitoralismo. Não só Costa já prometeu de baixa do IRS (nunca concretizando como irá proceder a tal alteração), como a calendarização do levantamento das restrições pandémicas (como o “dia da libertação”) ou do anúncio do fim dos relatórios da Direção-Geral de Saúde sobre as infeções e as mortes provocadas pelo novo coronavírus coincidiu na mouche com a campanha eleitoral.

E, como não podia deixar de ser, tinha ainda que surgir um caso com a utilização de meios do Estado (como é o seu parque automóvel) ao serviço da campanha eleitoral do PS. Aconteceu com a ministra Marta Temido que utilizou o carro do Governo para ir a uma ação de campanha de Tiago Barbosa Ribeiro — o perigoso homem do aparelho socialista no Porto que é candidato a liderar a autarquia.

4 Como se tudo isto não bastasse, António Costa decidiu fazer um ataque violentíssimo este domingo à Galp, uma das maiores empresas portuguesas, e à sua decisão de encerrar a refinaria de Matosinhos em dezembro de 2020 e sem assegurar todos os postos de trabalho na transição energética. “Era difícil imaginar tanto disparate, tantas asneiras, insensibilidade, solidariedade como aquela que a Galp deu prova aqui em Matosinhos”, disse o primeiro-ministro.

O ataque à Galp, junta-se a muitos outros semelhantes feitos nos últimos seis anos à Altice ou à EDP, só para citar alguns. E agrava claramente a visão estatizante que António Costa tem sobre a economia. Além de constatar, uma vez mais que Costa tem um grande gosto em intervir diretamente no mercado, custe o que custar.

Contudo, a realidade de uma economia capitalista avançada como é a portuguesa é outra. Para começar, António Costa não se pode esquecer que é primeiro-ministro, sendo inaceitável que vista a pele de secretário-geral do PS para atacar num comício partidário (e logo em período eleitoral) uma sociedade cotada no mercado de capitais nacional e que costuma recorrer aos mercados internacionais para se financiar. Qualquer crítica — e logo do chefe de Governo — pode ter influência direta na flutuação da cotação de títulos como o da Galp.

Dito de outra forma: Costa voltou a demonstrar (uma vez mais) que não tem sentido de Estado. Porque os seus interesses políticos pessoais (e eleitorais) estão sempre acima da razão que defende os interesses da comunidade.

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A tragédia de tudo isto é que, uma vez mais, parece que não evoluímos absolutamente nada. Como em muitas áreas, parece que estamos no mesmo ponto em que estávamos no final dos anos 80 e durante os anos 90. Mas com duas grandes diferenças:

  • Costa não precisa sequer de ter maioria absoluta para executar o que antes o PS considerava ser um poder absoluto. Basta-lhe ter a famosa geometria variável de apoios parlamentares com o PCP e o Bloco de Esquerda, de um lado, e o PSD de Rui Rio, do outro lado. O que leva a outra pergunta legítima: se o PS é assim em minoria, o que seria se os socialistas tivessem maioria absoluta?
  • Pior: passaram-se cerca de 30 anos. Supostamente deveria ter ocorrido (mas não ocorreu) uma clara evolução da nossa democracia. A verdade, contudo, é que a transformação do PS de António Costa no verdadeiro ‘dono disto tudo’ é mais grave do aquilo que aconteceu no cavaquismo. Precisamente porque estamos em 2021 — 35 anos depois de termos aderido à CEE, com quase 50 anos democracia e, mais interessante do que tudo, quando o Governo é liderado pelos socialistas, os progressistas alegadamente sempre bem intencionados, que só pensam no povo (e não no capital) e que costumam ser levados ao colo pela comunicação social.

Há ainda outra tragédia a constatar e que passa por um Governo que não tem uma ideia para o país, a não ser a mera gestão do presente político e da distribuição de benesses pelas corporações e pelos seus apoiantes financiadas através do PRR.

Tudo isto é feito sem atacar de frente nenhum dos problemas estruturais do país, sem aumentar a sua competitividade e, logo, sem potenciar o crescimento estrutural e sustentado dos salários dos portugueses.

Na visão estratégica deste Governo, o crescimento o país não se faz pelas empresas e pelo setor privado — que, em qualquer economia avançada, são as responsáveis pela criação da riqueza estrutural. Pelo contrário, a ideia de progresso e de desenvolvimento do Governo de António Costa assenta só numa ideia: Estado, Estado, Estado e mais Estado. O que facilita, e muito!, a utilização de programas como o PRR para fins eleitorais.

Texto alterado às 9h53m