Hoje permiti-me chorar. Se ainda não o fez, devia fazê-lo. Pense nos dias que perdeu e que ainda vai perder, dos compromissos que adiou, tudo aquilo que anulou e o que não vai celebrar. Escolha uma música triste e para ser ainda mais doloroso, projete um vídeo com crianças que choram a separação, com médicos e enfermeiros que desesperam, velhos no fio ténue da vida, veja tudo e desarme. É o melhor que lhe posso desejar. Faça todas as questões, preencha-se de desalento, fique mal. De uma vez só. Verbalize todas as angústias e chore tudo, porque vamos precisar de si mais forte, depois desta avalanche.

Lamente a Páscoa que este vírus lhe tirou, o calor e as gargalhadas com os seus. Não valorize as gavetas que arrumou, a casa limpa e os filmes que finalmente viu. Nada disso deve servir-lhe de consolo e desengane-se desta rotina acomodada. Zangue-se a sério. Se há quem padeça, está proibido de encontrar o lado bom desta batalha, seja positivo mas não condescendente. Fortaleça-se na medida certa do ódio e arme-se primorosamente para ganhar esta guerra. A primeira que faz sentido. Pela vida.

Tenha a certeza de que nunca fomos tão responsáveis pelos outros, estando sozinhos. Nunca em tempo algum vivemos dias tão escuros mesmo com a luz clara, uma primavera amena e macia, que parece não ter fim. E é certo que vai estar fechado quando brotarem as primeiras flores e tão cedo não haverá fins de tarde pintados ao sol. Dá-lhe raiva? Pode senti-la. Se acha que o amor fortalece é porque ainda não conhece o que a força de vontade pode fazer pelo mundo.

Quando perceber que conhece alguém que o vírus consumiu, esmague-o com palavrões, sem filtros, seja vulgar. Não tenha piedade, exalte-se e deixe todo o mal nestes dias. Ponha de fora as suas garras de mãe, de pai, de filho, de irmão, de amigo, de vizinho… endureça o seu coração para os defender desta maleita. Faça-lhe frente, com os que ama na retaguarda.

Depois de descer ao fundo, recolha os estilhaços de si, cubra as feridas e siga caminho. Abra uma janela ampla e luminosa, olhe o futuro e faça planos. Um gelado sob o céu estrelado, o cheiro a mar no cabelo molhado, dançar à toa, correr. O prazer que só a simplicidade é capaz de dar e que lhe tem fugido na ganância dos dias. Faça planos.

O que vai fazer quando esta guerra acabar? Não espere tirar grandes lições nem alcançar enormes feitos. O mundo estará lá com todas as suas imperfeições, desigualdades, pessoas ambíguas, os mesmos julgamentos, tudo o que conhece tão bem e ainda com mais restrições, outras verdades e prioridades. Diferente? Sim, muito provavelmente. Um casulo mais profundo e fechado ao toque, cada vez mais digitalmente afetuoso. Tão perto, veloz e visual na mesma medida de solitário e receoso.

Não se obrigue a mudar, a ser melhor pessoa, a ter mais paciência, a “fazer o que ainda não foi feito”. Estabeleça um pacto com o que tem pela frente e com honestidade faça escolhas para si e para os seus. Entretanto, proteja-se para os dias bons que vão chegar.