A pandemia não mudou, como não é suposto mudar, o mundo. Mas há transformações que ficaram mais evidentes, e outras que começam agora a tomar forma. No meio desta convulsão, a definição interna da Europa e o seu lugar no mundo estão em transformação. E há quem esteja a desenhar o caminho. É isso que se nota e discute em Bruxelas, mas também noutras capitais europeias. Em Portugal, menos.

Ao contrário de outras ocasiões, aqui não houve nada de intencional. Ninguém começou uma guerra ou um movimento ideológico. É também por isso que o efeito transformador destes tempos é ainda muito indefinido e pode ir em múltiplas direcções. Tentar adivinhar o futuro não é aconselhável (2020 é a maior prova ainda viva), mas pode ler-se a realidade, o que está em mudança e tentar perceber o que aí pode vir.

A nível europeu, a primeira grande transformação a que certamente assistiremos é institucional ou funcional, se se preferir.

Qual o papel da União Europeia na resposta a esta crise (não tanto durante, mas sobretudo depois)? Quando terminarem as negociações entre Estados Membros, o plano europeu de recuperação económica vai acontecer. Vai haver dinheiro de todos para a retoma económica europeia, o que vai implicar uma coordenação de políticas orçamentais. Ou, pelo menos, de políticas públicas, na medida em que os fundos europeus serão dirigidos a prioridades definidas e reformas específicas. Nunca há dinheiro sem condições ou consequências.

Com mais ou menos subsídios, mutualização e recurso a fundos próprios que são impostos europeus, a pressão para algum grau de federalização da economia não vai desaparecer. E se de alguma forma se federaliza orçamentos, acabar-se-á, adiante, a discutir fiscalidade e algum instrumento institucional que coordene ou harmonize estas dimensões. Os orçamentos e as grandes opções serão nacionais, mas cada vez mais num contexto de prioridades e regras europeias. Quem quer uma coisa, vai ter de aceitar a outra. E vice-versa, se formos mais para norte.

No plano económico, teremos certamente uma discussão sobre o modelo a seguir.

Por um lado, o papel do Estado na economia vai ser diferente nos próximos (primeiros?) tempos. O essencial dos fundos de que se fala vai passar pelas entidades públicas. Acresce que, para evitar grandes massas de desemprego, os governos vão pôr dinheiro em empresas privadas, a troco de regras ou mesmo de participação no capital. Assim como haverá um instrumento financeiro europeu para reforçar o capital de empresas carenciadas, mas consideradas viáveis. São grandes transformações. E há países onde essa relação agrava mais do que noutros a dependência privada dos fundos públicos. E a tendência interna para mais socialismo ou apenas menos liberalismo nas economias que são coisas diferentes.

Por outro lado, muito do que se planeia terá impacto na chamada economia do futuro, mas não responde à crise social imediata. Para essa, vai reclamar-se prestações públicas acrescidas, recorrendo a empréstimos (não são subsídios) europeus e não só. A História ensina que em ocasiões semelhantes, o crescimento das prestações sociais e do papel do Estado tende a manter-se, pelo menos no médio prazo. Além disso, o plano de recuperação europeia pretende ser um acelerador da transição verde e digital e de reforço da soberania tecnológica e industrial (ou dos campeões europeus, conforme se use a terminologia de Paris ou de Berlim).

Um dos sinais desta resposta e do seu impacte a médio prazo é já óbvio. Além dos que querem exibir os efeitos favoráveis no ambiente deste lockdown para mostrar que o recurso a medidas de urgência, a redução da mobilidade e da actividade industrial é possível e tem resultados (como se isso não tivesse acontecido com um custo económico insuportável), do outro lado, mas empurrando no mesmo sentido, muitas indústrias europeias vão querer beneficiar do financiamento de um tal plano para custear a sua transição. (Se vamos financiar a Volkswagen, mais vale que seja para que faça carros elétricos melhores que os da Tesla, dir-se-á. E a Volkswagen não dirá que não, para me manter no exemplo.)

No plano geopolítico, há dois elementos que se destacam: a China e os Estados Unidos.

Estamos ainda longe de saber se no final desta crise a China tem uma melhor ou pior reputação, se dividiu ou não a Europa, se cresceu em influência no mundo (no nosso e no da cooperação para o desenvolvimento), mas vamos certamente ter alterações. Para já, a convicção é que a China criou mais resistências do que fez amigos. Mas ainda falta saber quem vai descobrir e, detalhe crucial, partilhar a vacina (se for essa a resposta). Seja como for, depois de uma diplomacia suave que quis ser vista como generosa, o regime chinês exibiu uma face bem mais dura. Puniu países que levantaram dúvidas, apertou o cerco a Hong-Kong e procurou comprar amigos na Europa e à sua volta. Sobre o sentido da resposta europeia, da Alemanha vêm sinais contraditórios.

Quanto aos Estados Unidos, nunca tinha acontecido, nos últimos cem anos, uma crise global em que os EUA não tivessem qualquer relevância. Pelo menos nesta fase (veremos o que acontece, com a vacina), a América isolacionista ficou isolada. Não contou nem foi tida em conta. Foi cedo de mais para testar se é ou não uma potência do Pacífico, mas já foi tarde de mais para ser um actor influente na Europa. E depois, tudo o que se seguiu e a que temos assistido nos últimos dias. Um país perdido no caos, dividido entre facções radicais, apontado a dedo em vez de ser exemplo. Nunca a ideia de América esteve tão tristemente desvalorizada.

Já era evidente que fazia falta um novo transatlantismo, mas agora a questão começa a ser sobre quem inspira e lidera o Mundo Livre. Não será esta América, mas ainda não há mais ninguém.

Por último, uma das dimensões que parece poder ser de incluir nesta conversa é a questão da liberdade. Da monitorização dos cidadãos em democracias como a sul coreana, aos abusos em regimes como o chinês, passando pela disponibilidade de muitos no Ocidente para abdicar de liberdade e privacidade em troca de segurança, a ideia de liberdade pode estar a mudar. Ou mesmo em risco. Ao mesmo tempo, justifica-se discutir questões como o abuso de poderes e a rampa deslizante iliberal em democracias já de si frágeis, na Europa.

Nada disto acontece por efeito inelutável da pandemia. Acontece porque face à realidade há forças a puxar na direcção que mais lhes convém. E porque determinadas opções têm consequências, desejadas ou não.

Aquilo que Portugal precisa de fazer é entrar nesta discussão. Na política, nas associações empresariais, na academia. O nosso tecido empresarial é o que é, maioritariamente feito de pequenas e médias empresas que à escala europeia têm ainda menos dimensão. Mas não é irrelevante. Ou não precisa de ser.

Temos, como todos os restantes 26 Estados Membros, interesses próprios no que seja o futuro. E não somos menos europeus por sermos tão portugueses quanto todos os outros são alemães, finlandeses, espanhóis ou irlandeses. A diferença, que convinha não repetir, é que temos tido o hábito de nos portarmos como bons alunos que esperam receber em troca boas notas, em vez de sermos europeus exigentes. E, para começar, participativos.