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Existem poucos objetos do mundo não natural capazes de voar a velocidade supersónica, ou seja, acima a velocidade do som. Excluindo ouriços azuis antropomórficos (o Sonic) e objetos espaciais, militares ou balísticos, restava-nos até à data o Concorde, a lebre dos aviões de passageiros neste conto revisitado. Exclui-se também aqui o concorrente soviético Tupolev Tu-144, ou Concordski, na sua designação ocidental.

Muitos tiveram o privilégio de testemunhar algumas corridas do Concorde até à sua reforma antecipada. As aterragens transformavam-se, nalguns locais, em fenómenos semelhantes à recepção de uma equipa de futebol no aeroporto depois de ter ganho um campeonato. Na verdade, este avião era maioritariamente usado por celebridades, jet setters e para almoços de amigas entre madames londrinas. Seja qual for a razão, muitos sonhavam poder um dia voar neste avião com vista para a curvatura da terra.

Infelizmente, a corrida acabou cedo para o Concorde. Foram apenas doze os aviões (British Airways com sete e a Air France com cinco) que, por 27 anos, encurtaram as distâncias do mundo. Depois daquele dia 24 de outubro de 2003, voar de Londres a Nova York deixou de poder ser feito em três horas e meia: modelo supersónico da Airbus reformou-se por pressão do governo britânico e francês em virtude dos custos de combustível, impacto ambiental e limitação de rotas devido a regulações de ruído sobre a terra. Mesmo voando exclusivamente sobre o oceano, o alcance do combustível permitia apenas ligações transatlânticas, tipicamente menos lucrativas que as transpacíficas. Estas razões, aliadas a outros fatores relativos a custos de operação, manutenção e reforma da aeronave, tornaram o prestigioso Concorde num modelo de negócio não lucrativo, pouco competitivo e insustentável.

O conto das viagens supersónicas teve uma reviravolta quando foi apresentada a promissora (e demorada) tartaruga concorrente Boom Supersonic. Apesar da escolha de nome arriscada para uma empresa de fabrico de aviões de passageiros, a Boom foi a única até à data capaz de conseguir investimento suficiente para desenvolver um novo avião supersónico. Muitos projetos semelhantes desistiram da corrida ou recuaram para ideias menos ambiciosas. Não obstante, este verão a companhia aérea americana United Airlines procedeu à compra de 15 aviões à Boom, sendo que esta promete uma versão de 88 lugares até 2029. O investimento foi feito em pagamentos não reembolsáveis, o que comprova a confiança da United na start-up americana e, acima de tudo, no futuro do voo supersónico e na possibilidade de lhe associar um modelo economica e ambientalmente sustentável.

Em 2003 talvez o mundo não estivesse preparado para grandes velocidades. Efetivamente, as novas empresas têm o benefício de poder aprender com os erros do passado. Por exemplo, a Boom promete custos de combustível e manutenção suficientemente baixos para que as companhias aéreas possam cobrar preços semelhantes à classe executiva de um voo comercial normal. Hoje o investimento nesta segunda geração de voos parece finalmente viável depois da longa espera que se seguiu ao fracasso do Concorde na corrida pelo voo supersónico de passageiros. No fundo, é sempre relevante revisitar a moral do conto da lebre e da tartaruga e relembrar que, no fim de contas, devagar se vai longe.

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