Agora que, lentamente, iniciamos o desconfinamento, deixo-vos uma reflexão muito pessoal…

Estivemos fechados, isolados nas nossas casas, longe de muitos dos que amamos, privados das nossas rotinas, dos nossos espaços, durante 47 dias. Agora que, finalmente, podemos voltar a reaproximarmo-nos (ainda que a medo, eu sei), não nos esqueçamos do que vivemos e do que esta pandemia nos veio ensinar.

Alguma coisa mudou irreversivelmente em nós. Estaremos perante um novo paradigma da nossa existência? Espero, profundamente, que sim.

Vou-me abster de interpretações políticas e especulativas acerca da pandemia, focando-me apenas naquilo que é a minha função: analisar o indivíduo na sua relação consigo e com os outros.

Durante todo este tempo – de angústia, sofrimento e compaixão, de profunda reflexão, introspeção e evolução – voltei a acreditar na humanidade, apesar das exceções (e permitam-me continuar a achar que foram exceções) das demonstrações de desumanidade. Afastamo-nos, desde o dia 1, uns dos outros, não apenas pelo medo de sermos contagiados mas também para não contagiarmos ninguém – porque todos nós éramos (somos ainda) potenciais portadores deste vírus coroa. Era absolutamente notório que o medo de sermos contaminados era igual ao medo de podermos contaminar o outro. Como disse José Tolentino Mendonça (na entrevista “A humanidade que se segue” – episódio 20 da série “o país que se segue”), “o que esta crise mostrou foi a paixão que os seres humanos têm pela vida. Colocámos a vida em primeiro lugar. E isso é um mérito enorme!”. E senti uma profunda admiração pelo povo português. Somos latinos, mas somos ordeiros. Somos latinos, mas não somos “livres” – ninguém é, na verdade – mas nós compreendemos isso. Somos latinos, mas não vivemos o carpe diem. Não o sabemos fazer, como sabem os nossos vizinhos espanhóis e italianos. Temos o peso do fado. Somos latinos, mas pouco

gritamos, pouco dançamos, pouco reclamamos. Até agora, penso que temos sido um povo caracterizado pelo “desânimo aprendido” (para os interessados, ler Helplessness de Seligman, 1975). Mas isso não nos impediu de lutarmos pelas nossas vidas e pelas vidas de todos, neste momento crítico que o mundo atravessou (e atravessa ainda). Talvez tenhamos compreendido (melhor do que os outros latinos) que a nossa luta era, agora, a nossa obediência, a nossa tolerância à frustração, a nossa paciência (já não mais aqui desânimo). O covid terá vindo resgatar os portugueses do desânimo aprendido? Teremos reaprendido a lutar?

Esta pandemia veio mudar, irreversivelmente (espero), a nossa relação connosco próprios e com os outros. E queria aqui refletir sobre alguns aspetos que me parecem absolutamente essenciais. Primeiro, esta pandemia veio alertar-nos para a inadequação dos nossos estilos de vida. Falo aqui da questão ecológica – não estrita, mas, nas palavras do Papa Francisco, da “ecologia integral”. “O grito da terra é o grito da pessoa humana”. Sendo eu uma assumida estudiosa das religiões, encontrei uma interessante interpretação para esta pandemia na religião yorùbá que vai ao encontro das palavras do Papa Francisco. De acordo com esta religião, 2020 seria um ano regido pela justiça: xangô viria, em força, com o seu machado para impor justiça e equilibrar a terra.

E não é que veio mesmo um terramoto mundial? Não consigo imaginar nada tão poderoso, no sentido de poder parar o mundo inteiro da forma mais violenta que consigo imaginar: este vírus privou-nos do contacto, da pele, privou-nos de muitos dos que amamos. Foi um violento ataque aos afetos. E, como sempre me dizia o meu estimado professor doutor Joaquim Luís Coimbra (por quem a minha admiração é interminável e sempre renovada a cada 10 segundos de conversa): não há nada mais profundo do que a nossa epiderme.

Uma paciente contava-me, numa consulta por videochamada, como se agarrava desesperadamente aos cães que andavam a ser passeados na rua. É que, vivendo sozinha, sendo a profissão dela totalmente dependente do corpo (dança) e estando absolutamente privada de qualquer contacto físico há tanto tempo, os cães que os outros seres humanos (em quem ela não podia tocar e tinha de manter a distância de segurança) passeavam foram o último reduto de um contacto de pele…da sensação de tocar noutro ser vivo com afetos… Esta consulta teve um profundo impacto em mim. Citando, uma vez mais, tolentino de mendonça, “a solidão queima-nos”. “a solidão é uma força de morte”.

E esta solidão veio também vestida de uma outra forma… Talvez mais grave porque trouxe possivelmente consequências que vão demorar muito a reverter. As crianças foram privadas dos contactos com outras crianças, com familiares e, acima de tudo, com os avós – que, como diz eduardo sá, “são a reserva natural da bondade humana”. Dificilmente consigo imaginar maior violência do que esta. E, assim, a pandemia tornou o mais puro abraço de amor numa arma potencialmente letal. Muito possivelmente, teremos um longo caminho de cura a percorrer com as crianças “filhas do covid” (usando as palavras de Eduardo Sá) – de cura, não só das feridas da saudade, mas essencialmente de cura do medo – que, como sabemos, é dos maiores inimigos do desenvolvimento psicológico saudável. Dos inúmeros pacientes que acompanhei durante todo este tempo de isolamento social, através de videochamada, dos inúmeros comentários que os nossos seguidores nos foram deixando, nos nossos apelos à reflexão pessoal, se alguma coisa foi absolutamente transversal foi o questionamento sobre o sentido da vida. As pessoas passaram a importar-se mais com as grandes perguntas da nossa existência – o que me indicava que estávamos no bom caminho: da evolução, da humanização. Talvez por isso me preocupei tanto com os bombardeamentos das “quarentenas produtivas” e dos “posts motivacionais”, com as suas mensagens ocultas (e absolutamente ignoradas pelos autores que teriam, certamente, boas intenções) de individualização. Se há coisa que esta pandemia nos devia ter ensinado era precisamente a de que o caminho da

individualização da sociedade hipermoderna não nos traz felicidade nenhuma e nos leva à ruína espiritual e simbólica.

A epidemia foi, efetivamente, avassaladora ao nível dos afetos. Mas, como dizem todas as teorias das catástrofes, há sempre latente uma força positiva, um desejo de renascer. É, pois, preciso reencontrarmo-nos connosco e com os outros. Sarar as feridas do coração e seguir em frente, rompendo com o passado, em direção a um mundo de afetos. Relembro que “a psicoterapia é, em essência, a cura pelo amor” – como diz o meu grande amigo e mestre António Coimbra de Matos. E é, por isso, que o nosso papel terá de ser, agora mais do que nunca, de uma incontornável importância neste resgate dos afetos.

Entre num novo paradigma da sua existência. Exija, a si próprio, ser melhor. Não no sentido exterior, fútil, competitivo, típico das sociedades do hiperconsumo; mas no sentido interior. Seja a melhor pessoa que consegue ser – e lembre-se que nós estamos aqui para o ajudar nessa missão!

Seja grato. Seja humilde. Seja responsável. Seja feliz. Hoje. Todos os dias. Até que a sua passagem por esta vida termine. No final da nossa jornada, na hora de partirmos, o que levamos são os que amamos, o amor que construímos, a verdade que somos.