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Como se reconhece um fascista? A pergunta pesa e, para lhe dar resposta, há que começar pela base: o que define um fascista? Ora, aqui há dois caminhos possíveis. Por um lado, pode entender-se “fascista” através da sua definição literal – alguém que defende um Estado autoritário e repressor das liberdades individuais, que persiga minorias sociais, que abale o Estado de Direito, que suprima os freios e contrapesos das instituições republicanas, que sufoque o pluralismo, que oprima através da violência. Ou, por outro lado, pode optar-se pelo uso popular e entender-se “fascista” como um termo retórico para insultar qualquer indivíduo ou ideia que, independentemente do motivo, nos desagrade. Isto é, como uma muleta de debate que, com o objectivo de desqualificar o adversário (geralmente de direita), descobre nele uma associação (por muito indirecta que seja) ao fascismo – sendo irrelevante a sua plausibilidade. Ora, se o primeiro caminho é o lógico e correcto, o segundo é aquele que se vê ser percorrido a galope no debate público, onde se desvenda um “fascista” em cada canto dos jornais. E se a definição que conta é mesmo a segunda, então o processo de reconhecimento fica simplificado: “fascista” é aquele de quem não se gosta.

A manha não tem nada de novo – foi, em 1953, essa falácia argumentativa que Leo Strauss baptizou de reductio ad hitlerum. Mas a coisa perdura. E os exemplos abundam. Através desse truque retórico primário, recentemente encontrou-se em Passos Coelho um racista xenófobo, quando este atacou um pacote legislativo que, sublinhe-se, o próprio Serviço de Estrangeiros e Fronteiras criticou. Ou, ainda há dias, foi esta grosseria intelectual que, pela mão de António Guerreiro (AG) em artigo no Público, “demonstrou” que Henrique Raposo era (lá está) “fascista”. Porquê? Porque numa crónica sobre caça publicada no Expresso, HR evidenciou uma “afecção fascista do pensamento viril” e “um culto da morte” que, assegura AG, tem raiz no “mesmo dispositivo que serviu para exterminar os judeus”. O raciocínio odioso, que generalizado converteria um anónimo caçador num Mussolini em potência, dispensa comentários.

Ora, o ponto para reflexão não está em Passos Coelho ou em Henrique Raposo, nem nas suas (desnecessárias) defesas perante acusações que, violando regras elementares da lógica, se desmoronam sozinhas. O ponto é que o debate público está inviável. Não se discute, desqualifica-se a posição contrária. Não se olha aos factos, inventam-se associações degradantes. Não se procuram evidências, seguem-se emoções. Não se respeitam os adversários, convertidos em inimigos a abater sem escrúpulos. Não se pensa, insulta-se. Não se cede, impõe-se a força da maioria. E, portanto, geram-se trincheiras em vez de pontes e cisões em vez de consensos. Sim, dito assim parece assunto transitório e sem importância. Mas um regime democrático, que por definição vive de compromissos, não passa por isto sem feridas profundas.

Há que repetir, repetir e repetir: um debate público alheado dos factos representa um perigo para uma democracia liberal. Existem por aí dezenas de artigos a relembrá-lo quando o alvo é a América de Trump. Mas, quando o assunto é Portugal, a preocupação desaparece. A atitude é fatal. É que identificar “xenofobia” em Passos Coelho ou “fascismo” em Henrique Raposo serve precisamente os mesmos objectivos que os “factos alternativos” da administração Trump – sobrepor a emoção às evidências, intoxicar o debate público, inviabilizar a discussão, bloquear o esclarecimento e denegrir os adversários. A propósito deste estado de coisas, António Caño, director do El País, em entrevista no Público, fez o diagnóstico: “a razão está em retrocesso, e a defesa dos factos mediante o uso da razão está a ser ameaçada; para quem fez carreira a acreditar na defesa dos argumentos racionais, é um problema muito sério”. O alerta não poderia ser mais certeiro. Haja quem o ouça.

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