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Terrorismo

O Sheik Munir, o Islão e o atentado de Manchester

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O Sheik Munir, logo após o atentado de Manchester, exigiu, sem se referir sequer às vítimas, reciprocidade no respeito. E as alusões aos crimes reais foram substituídas pela abstracta menção ao medo.

O Sheik David Munir, Imã da Mesquita Central de Lisboa, concedeu um depoimento à Rádio Renascença esta terça-feira, no dia seguinte ao atentado de Manchester em que Salman Abedi se fez explodir à saída de um concerto pop, matando 22 pessoas, entre as quais crianças e adolescentes, e ferindo 64, várias delas em estado gravíssimo. Raras vezes um depoimento deste tipo me provocou um sentimento de irrealidade e de desconforto como as palavras do Sheik Munir. Não que o Sheik Munir tivesse feito qualquer apologia do atentado, muito longe disso. Pura e simplesmente, havia ali uma distância em relação à coisa e uma generalidade e abstracção dos propósitos que gelava a espinha.

Vejamos o que disse o Sheik Munir, seguindo-o passo a passo. Em primeiro lugar, que a religião dele o obriga a respeitar os outros, tal como os outros devem aprender a respeitar os muçulmanos. É claro, inteiramente de acordo. Mas a introdução da exigência de reciprocidade no dia seguinte a este último atentado é, no mínimo, desajeitada. É como se não houvesse razão para qualquer mal-estar particular e o contexto fosse absolutamente normal.

Este mesmo aspecto é sublinhado por uma referência ao Papa Francisco. O Papa Francisco tem feito muito pelo respeito pelos muçulmanos, e é por isso um exemplo para muitos líderes religiosos e políticos. Mais uma vez, a exigência do respeito pelos muçulmanos. A quente, o olhar está já muito longe das vítimas, não se demora nelas um só segundo, e centrado nas exigências da comunidade própria.

Este auto-centramento completa-se, como seria de esperar, por uma crítica aos não-muçulmanos. Houve sempre pessoas que viram o Islão de uma forma negativa, como uma religião do terror. A exigência da reciprocidade desdobra-se assim, logo no dia consecutivo ao atentado, na crítica aos preconceitos alheios. Sem, repito, sequer umas palavrinhas prévias onde se exprima qualquer piedade para com as vítimas.

Neste momento, o Sheik Munir, reflectindo sobre as origens do tal preconceito, concede que alguns muçulmanos contribuíram para que isso acontecesse. Eis uma saudável e prometedora admissão da realidade, se bem que não exija uma clarividência por aí além. É verdade que certos muçulmanos costumam com grande regularidade suscitar certas ideias muito críticas em relação ao Islão. Mas a admissão da realidade é imediatamente, para o Sheik Munir, compensada por um vôo para a abstracção e para a pureza teológica: o Islão condena tudo isso. O Islão do Sheik Munir condena, o que significa que se encontra imunizado não apenas em relação a preconceitos injustos, mas também a qualquer crítica não-preconceituosa. Nada tem a ver com aquilo que em seu nome é feito.

Já nos encontramos, depois do último decreto de pureza teológica islâmica, fora de qualquer âmbito religioso, e por isso não custa reconhecer que os líderes europeus (suponho que os líderes islâmicos europeus) têm que condenar os atentados terroristas de uma forma mais visível. Porque não o fizeram antes com a “visibilidade” que o Sheik Munir agora exige? O mínimo que se pode dizer é que oportunidades não lhes faltaram. Mas enfim, depois da estranheza dos sucessivos propósitos anteriores, a declaração, com muita boa-vontade, até dá alguma esperança. Mas a esperança dura pouco. Porque a tal condenação “visível” visa, antes de tudo o mais, fazer com que as pessoas não tenham “medo do medo”. Não vale verdadeiramente a pena perder tempo a esmiuçar o significado desse tal “medo do medo”, porque a intenção que preside à sua menção é clara: voar em direcção ao abstracto e ao genérico, de modo a evitar qualquer referência ao concreto. A condenação não aparece como a condenação do massacre, da morte e do esquartejamento de inocentes adolescentes. É uma condenação abstracta de um sentimento abstracto. Mais uma vez, as vítimas não estão ali.

Chegando a este plano de generalidade, é imperioso reconhecer que o terrorista não tem religião nem pátria. Não tem religião? De acordo com o Sheik Munir, e em função da imunização teológica antes referida, não. O que é ele então? A resposta é de uma assombrosa simplicidade: é um louco. De uma certa maneira, porque não? Mas qual a natureza singular dessa loucura, quais os seus motivos essenciais, quais as razões porque adopta manifestar-se assim? Silêncio. Tudo é feito para manter a discussão na mais extrema generalidade que impeça qualquer atenção ao concreto e ao particular.

Generosamente, o Sheik Munir concede que a situação é também da sua responsabilidade, para logo lembrar que todos temos um papel. Todos, sem distinção, e supõe-se que em idêntico grau. Depois de tudo o que veio antes, já nada surpreende. Como não surpreende a candura da interrogação: como é que eu posso contribuir? A questão supõe uma desarmante inocência. Ainda não tinha pensado no caso? Ou a resposta é de uma tal complexidade que a perplexidade é infindável? A questão é no entanto necessária porque, mais uma vez, ninguém gosta de viver no medo. É importante que as pessoas se sintam seguras nas mesquitas, nas igrejas, nas sinagogas e nos seus lugares de lazer e hoje em dia não há essa segurança. Isso preocupa o Sheik Munir. Note-se mais uma vez que o abstracto “viver no medo” substitui qualquer referência às vítimas.

Depois de ouvir este depoimento, confesso que saí dele igualmente preocupado com o Sheik Munir. Imagino, e quero imaginar, que a muito reduzida comunidade muçulmana portuguesa (cerca de 50.000 pessoas, creio) seja tão pacífica quanto possível. Mas nos tempos em que vivemos o que se pede antes de tudo aos líderes religiosos dessas comunidades são condenações concretas dos crimes que em nome do Islão são perpetrados, o que implica o exercício, eventualmente penoso mas necessário, de assumir a partilha de uma religião comum com aqueles que são fautores desses crimes. Para, é claro, depois se demarcarem da interpretação corânica dos criminosos. Só assim a tal reciprocidade no respeito que o Sheik Munir reivindica pode ser vivida de forma limpa e plena.

Ora, o depoimento do Sheik Munir vai num sentido que é o exacto oposto disto. A quente, logo a seguir ao atentado de Manchester, começa, sem qualquer referência às vítimas, por exigir reciprocidade no respeito. Critica os preconceitos contra os muçulmanos. Decreta, contra toda a evidência, a completa inocência do Islão, quer dizer: a completa ausência de relações entre o Islão e as motivações dos terroristas. As referências aos crimes reais são substituídas pela abstracta menção ao medo. Os assassinos são acusados de uma loucura difusa sem nenhum traço particular que a identifique. A comunidade islâmica não tem qualquer obrigação maior do que o resto dos cidadãos de condenação firme, inequívoca e muito concreta da barbárie que em seu nome é levada a cabo. Pudera: a ouvir o depoimento do Sheik Munir, os terroristas podiam perfeitamente ser marcianos. Quem fica tranquilo a ouvir isto?

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