Há muitos anos Herman José e Nicolau Breyner tinham um mano-a-mano cujo muito oportuno humor e a corrosiva verve bebiam na melhor tradição do teatro de revista. Era tão popular que o país se apoderou do Sr. Feliz e do Sr. Contente, e as duas personagens andavam de boca em boca. Quase quarenta anos depois, irromperam em Portugal um senhor tão contente e um cavalheiro tão feliz que me lembrei do Nicolau e do Herman. Hélas, não tenho engenho e arte para caricaturar, já que tais personagens não pedem senão isso mesmo: uma demolidora caricatura. Pode ser que alguém se lembre, eu ofereço o guião.

Falo de Bagão Félix e de Silva Peneda, pois raramente se viu alguém tão feliz e alguém tão contente.

Para começar, com eles próprios, o que torna o caso intrigante. Esfuziam de felicidade com as suas próprias prestações na media, sem lhes ocorrer que o país assiste a elas – quando assiste – entre o pasmo e a pena. Afogam-se de contentamento com as coisas que dizem, ideias que têm, iniciativas que promovem. Não se trata – como apressadamente a má-fé vigente já estará a acusar-me – de “eles terem o direito de pensar o que querem”. Trata-se de não terem o direito de lesar o país, confundindo, enganando, iludindo irresponsavelmente quem os ouve, através das “certezas” que apregoam e das esperanças que vendem

Bagão Félix tem a felicidade iluminada pela banalidade grave com que se imola a bem da salvação da pátria. Mas o mais assustador é que o seu sorriso, supostamente beatífico, traduz que sim, ele saberia como salvá-la.

Silva Peneda é pior, porque lhe subiu ainda mais à cabeça não se percebe bem o quê. Sempre cheio de si, acha-se “indispensável” (a quê?) e exibe-se como tal. Um mistério, cuja raiz inteiramente ignoro mas do qual não quero ser vítima. Peneda rebenta dele próprio. Emite pareceres salvíficos, publica comunicados, e quando reúne conselhos e conselheiros, geralmente da quarta idade, limita-se a promover os interesses instalados dos quais depende. Exagera tanto as cores negras com que há três anos pinta o país que, estando na política como julga que está, devia lembrar-se de Talleyrand: “tudo o que é exagerado torna-se insignificante”.

Têm, um e outro, um activo ressentimento e, como se sabe e os manuais políticos ensinam, o ressentimento é facilmente instrumentalizável. É o caso. É preciso assinar um documento com Louçã? Bagão exulta com a perspectiva de mais uns minutos de publicidade e falsa moral e corre para o que for preciso, garantindo o que for preciso, assinando o que for preciso. É urgente fazer constar (Santo Deus!) que Junker “preferia” Peneda a Moedas? Silva Peneda, instrumentalizando Manuela Ferreira Leite (pessoa de quem gosto e que respeito), pede-lhe que publicite que ele, Peneda, esteve quase a ser Comissário, não fora a maldade do governo. Manuela executa, Peneda respira fundo: já pode afirmar que “sendo a Dra. Manuela Ferreira Leite uma pessoa bem informada”, a sua não ida para Bruxelas era mesmo censura governamental. Esqueceu-se de acrescentar que a  Dra. Manuela fora exclusivamente (mal)informada por ele próprio. Se há história – desinteressante, de resto – que eu conheça de trás para diante, é esta, mas o que interessa sublinhar é que todos os dias, sempre que pode, Silva Peneda se quer “vingar” (ainda?) da decisão do Governo ao optar por Moedas. É certo que não ignoro a amizade entre Peneda e Junker… mas so what? As escolhas são do foro dos Executivos, e porque haveria este Governo de se deixar seduzir por alguém de outra época, outro “país” e sem especiais pergaminhos que o recomendem?

O Sr. Feliz e o Sr. Contente estão já à porta do Largo do Rato. Na soleira do palácio, acham ambos que lhes vão dar bolo a comer, sem se darem conta, nem um nem outro, que, comendo ou não o bolo, eles serão os “figurões” que convêm ao PS para mostrar a sua democrática “abrangência”, que é aliás generosa: vai da extrema-esquerda ao CDS… Mas tudo tão velho e datado. Que susto.

Para mostrar serviço, o Sr. Contente e o Sr. Feliz irão, dentro de dias, fazer um número “patriótico”, explicando publicamente, perante uma plateia certamente composta por parte das nossas desgraçadas elites, como se reestrutura a dívida. Os socialistas agradecem enquanto, por seu turno, Peneda e Bagão se sentem mais perto do palco, da decisão, do poder. Da glória que chegará enfim, sendo certo que o ego de ambos ajuda à ilusão. Eu devia ter desconfiado que tudo isto poderia não passar de uma farsa quando ouvi Augusto Santos Silva (insistindo, é certo, que falava em nome pessoal, mas…) citar-me, há dias, os nomes de ambos numa entrevista aqui no Observador. Afirmava o ex-poderoso ministro que o PS, em caso de vitória eleitoral, poderia, “por exemplo”, virar-se para a corrente democrata-cristã (?) do CDS, personificada, segundo ele, “por exemplo, em Bagão Feliz”. E o mesmo PS poderia também inclinar-se para a ala social democrata do PSD, representada, “por exemplo”, por Silva Peneda.

De modo que eis agora os dois propondo-se debater a nossa dívida sob a égide da Câmara Luso-Belga-Luxemburguesa (?), que tão prestimosamente os acolherá. Que eles achem que sabem como “restruturar a dívida”, é com eles. Que deem verosimilhança à certeza da sua restruturação, desenhando um quadro onde avulta uma possibilidade que o país não tem, já é comigo: não gosto que me mintam. Confundir intencionalmente o palco das decisões com a animação dos bastidores; fazer crer que há muita coisa já em curso quando o que há não passa de inorgânicas conversas privadas entre actores políticos, alguns ainda nem sequer legitimados eleitoralmente — parece-me pouco sério e pouco sólido. Não vale a pena repetir que será adequado que alguma coisa venha a ocorrer no caso da dívida. Nem sublinhar que é natural que a médio prazo (um médio prazo longuíssimo, em todo o caso) possa haver alterações quanto ao modo de lidar com a questão. Seja como vier a ser, não é isto que eles dizem hoje, prometendo indevidamente mundos e fundos para amanhã.

E, finalmente, acresce que qualquer debate sobre dívida, austeridade, troika, terá forçosamente de se iniciar pelos anos pré-troika. Sem isso, nunca se aterrará com boa visibilidade na análise dos anos de chumbo que se seguiram. Será interessante ver como se orienta a viagem do professor doutor Bagão Felix (é assim que está no convite) e do economista que quer ser “special adviser” de Juncker (o homem não desiste).

Em resumo: o Sr. Contentíssimo e o Sr. Felicíssimo, para além do nosso descontentamento e da nossa infelicidade, são a nossa vergonha. (Vou ficar com dois amigos “prá vida”. Ossos do ofício.)

2. Tenho por vezes dificuldade em fazer-me entender – sobretudo à esquerda, que confunde algumas coisas essenciais – quando falo de Portugal e dos deveres que ele nos impõe. Impõe naturalmente, como quem respira ou fecha uma torneira depois de a usar. Impõe automaticamente. Gostando-se ou não dos seus protagonistas políticos, havendo ou não identificação com quem nos representa ao mais alto nível, tendo ou não tendo neles votado, não é disso que se trata. Às vezes – e nem sequer são muitas vezes –, o país tem de passar a frente de gostos e desgostos.

Na partida do português Durão Barroso da Comissão Europeia, ao fim de uma década intensíssima, o facto de se tratar de um compatriota que se despedia não contou, nem pesou. Outros valores mais altos se levantavam: o que era preciso era dizer mal, só mal, muito mal. E, claro, ficar sentado, quando estrangeiros se levantavam para o aplauso de circunstância da despedida. Imperioso naquela hora era consumar, portuguesmente, ressentidamente, pequenas e médias vingançazinhas acumuladas. E grandes invejas, claro está. (Das quais Francisco Assis, honra lhe seja, ficou incólume, ao ter ousado destoar e levantar-se da cadeira.)

Do desempenho de José Manuel Durão Barroso se encarregarão o tempo e a História. Mas eu posso dar-me ao luxo de um balanço bem mais modesto: o balanço entre o respeito que o país nos deve merecer e as boas maneiras que isso pressupõe. No caso em apreço não houve nem uma coisa, nem outra.

3. “Ameaça”, disse ele. Estranhei o substantivo, pareceu-me deslocado. Não era porém a minha opinião de “perguntadora” que contava, mas a de Augusto Santos Silva, meu convidado na (muito) interessante conversa que aqui tive com ele e acima foi mencionada. Mas já é do meu foro poder espantar-me hoje, nesta coluna de opinião, com a escolha da palavra. Santos Silva referia-se à anunciada disponibilidade de Passos Coelho para continuar na liderança do PSD, mesmo em caso de derrota nas próximas legislativas. Ou seja, uma declaração de intenção política, de alguém no pleno uso dos seus direitos civis e políticos, é extraordinariamente travestida de “ameaça”. Passos terá de sair da frente, levando com ele os anos da governação sobre os quais o PS quer absolutamente oficializar a sui generis leitura que tem, mas não sem que antes o mesmo Passos se esqueça de abrir a porta ao sucessor designado no Largo do Rato, o actual “chou-chou” dos socialistas. Rio, de seu nome e graça.

Mas quando Paulo Portas, há uns anos, se mostrou disponível para com o CDS dar uma ajuda governamental ao PS “desde que sem José Sócrates na liderança do Executivo” (lembram-se?), os socialistas perderam a cabeça. E clamaram dezenas de vezes contra as inaceitáveis “ingerências” na vida interna do PS.

É sempre, sempre, a mesma coisa: dois pesos e duas medidas. De um lado, uma vil “ ingerência”; do outro, uma inconcebível, quem sabe mesmo se anti-democrática, “ameaça”.

Pensando bem, não me espanto assim tanto.