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A utilização de títulos é muito importante em Portugal.

Na Grã-Bretanha, existem muitos títulos. Há Lords e Ladies, Dames, Dukes e Sirs, e não devemos esquecer Majesties e Highnesses. No entanto, acontece que não há muitas pessoas com títulos desse género. Existem, por outro lado, os títulos profissionais: por exemplo, “Reverend” para os padres anglicanos, “Doctor” para os médicos (até chegarem a “consultants”, quando se tornam Mr. ou Mrs. de novo), ou “Professor” para os catedráticos nas universidades. Fora das forças armadas e da magistratura, não há outros títulos profissionais. Existem, claro, pessoas que levam os títulos demasiado a sério, mas há ainda mais que lhes ligam nenhuma.

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Até o uso de Mr. ou Mrs. (ou Miss ou Ms.) se reduziu muito nestes últimos cinquenta anos. São formas utilizados de uma maneira parecida à de Sr. e Srª. em Portugal, para mostrar um certo respeito, falta de reconhecimento, ou para manter uma distância saudável de pessoas que não suportamos. Estas formas de tratamento são muitas vezes esquecidas logo que se estabelece uma razoável familiaridade entre as pessoas, até no emprego. Não me lembro de alguma vez ter chamado Mr. ou Mrs. a um chefe.  

O título Dr. é utilizado para anunciar publicamente que essa pessoa dá jeito no caso de nos encontrarmos doentes, e não para suscitar adulação ou respeito (as pessoas com doutoramentos podem intitular-se Dr., mas muitas não usam o título, talvez para evitarem ser chamadas num avião quando outro passageiro sofre um ataque cardíaco.)

Na Grã-Bretanha, os veterinários não são Drs., e os arquitectos não têm título, nem os engenheiros. Estes profissionais usam letras a seguir aos seus nomes, para utilizarem em sítios oficiais, para explicarem que são qualificados e registos com as instituições respectivas, mas não há veterinário que espere de um agricultor humilde que lhe diga: “Bom dia, Mr. Harris, BVetMed MRCVS, pode dar uma vista de olhos à minha vaca, se faz favor?” Os professores não têm título profissional, nem os outros diplomados, com a excepção dos de medicina.

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Em Portugal, também há muitos títulos… e muitas e muitas pessoas que os usam.

Há tantos doutores que não há nada de especial em ser doutor. Doutores de medicina SÃO especiais, e estarei sempre disposta a chamar-lhes o que quiserem, sempre que a minha vida estiver nas suas mãos.

Se o leitor é arquitecto, irrita-se se o pedreiro não lhe chamar Sr. Arquitecto em sinal de respeito, mesmo sabendo que pelas suas costas ele lhe chama idiota? E o leitor chama-lhe o quê a ele? Sr. Pedreiro? Não, chama-lhe o Zé (ou talvez “Sôr” Zé). Se você é engenheiro, sente-se respeitado porque uma pessoa utiliza o seu título correcto, mesmo que eles se riam da sua insistência em ser chamado Sr. Engenheiro?

É tudo porque quer ser respeitado publicamente, não é? Mais: quer ser considerado melhor do que os outros e tratado melhor do que os outros, só porque tem uma licenciatura ou mestrado desta ou daquela espécie?

Clamar por respeito é pouco digno e absurdo, porque o respeito devia-se ganhar (para além de ser simplesmente merecido quando se é um ser humano decente) através do que uma pessoa realmente faz bem. Não? Parece que há pessoas que consideram os títulos académicos mais importantes do que o trabalho, do que curar, do que construir, do que ensinar, do que desenhar, do que a coisa que realmente nos define e justifica o respeito dos outros — o trabalho duro e honesto.

Aos meus olhos estrangeiros e patetas, todos estes títulos revelam falta de auto-estima. Quase ninguém parece capaz de quebrar a tradição, e de dizer “por amor de deus, chame-me Zé, não Sr. Dr. Prof. Eng.”. E assim, o sistema dos títulos excessivos continua, de tal modo que dá ideia de que o respeito público depende de um mero título universitário. É uma grande pena, porque Portugal realmente tem muitas, mas muitas pessoas que merecem respeito e justificam orgulho, sem precisarem de ser doutores.

(Traduzido pela autora a partir do original inglês)

 

Oh, Professor!

 

Titles are such a big thing in Portugal.

In Britain, there are plenty of titles. There are the Lords and Ladies, Dames, Dukes and Sirs, not forgetting Majesties and Highnesses, but there really aren’t that many people who have them. There are the professional titles, Rev. for vicars, Dr. for medical doctors (unless they have reached the rank of consultant, then they are called Mr. or Mrs. again), and Prof. for high ranking tenured university lecturers. Outside of the armed forces and the judiciary, that’s pretty much it for professions. Apart from Mr. and Mrs., Miss and Ms., titles are used very sparingly. There really aren’t that many titled people. Some people take titles far too seriously. Some people just got over it.

Even the use of Mr. or Mrs. (or Miss or Ms.) has waned significantly in the last half century. They are used in a similar way to Sr. and Sra. in Portugal, to show a certain amount of respect, non-acquaintance, and to maintain a healthy distance from people you really cannot stand. They are very often dropped once any kind of working relationship has been built. I can’t remember a single job I ever had where I called my boss Mr. or Mrs.

The title Dr. is used to announce publicly that this is a useful member of society to have around when you find yourself sick, not to garner adulation and respect. (People who have doctorates can also call themselves Dr., but many of them don’t bother with the title especially if they don’t want to be mistaken for a medical doctor on an aeroplane when someone has had a heart attack.)

In Britain, veterinary surgeons are not Drs. and architects are without title, as are engineers. All these professions have letters after their name, and use them to denote in officialdom that they are qualified and are registered by an institute, but no vet would expect to hear a humble farmer say “Oh, hello, Mr. Harris, BVetMed MRCVS, would you look at my cow, please?”. Teachers have no professional title, nor does anyone else with a non-medical degree.

In Portugal, there are also plenty of titles… and an awful lot of people who use them.

There are so many doctors, they’re kind of not special any more. Doctors, medical ones, ARE special, and I’ll always be happy to call a medical doctor whatever he or she wants me to call them; my life is in his or her hands.

If you are an architect, do you bristle if the brickie doesn’t call you Sr. Arquitecto as a sign of respect, even though you know he goes round the corner and calls you an idiot? And do you call him Sr. Brickie? No, you call him “Bob”. If you are an engineer, do you feel respected when someone calls you Sr. Engenheiro even though they laugh behind your back at your absolute insistence on being called Sr. Engenheiro?

It is what it’s all about, isn’t it, being publicly respected, deemed better and treated better because you have a certain degree or profession?

This clamouring for respect is so undignified, so silly, when all someone should really be respected for, beyond being a fellow human being (and that should be enough), is being good at what they do. No? To some people, titles seem more important than the actual work that they are supposedly doing, more important than the healing, than the building, than the teaching, than the designing, the thing that really defines and deserves the respect of others, the hard work.

To my silly foreign eyes, all this titling signals a lack of self esteem. Not many people go against the grain and say “for god’s sake, just call me Bob, not Sr. Dr. Professor Engenheiro” and so the system persists, in which people demand the lip service of respect via a silly title. It is a huge pity, because Portugal really does have so many people to be damned proud of, without having to give them a title.