Futuro da Grécia

O Syriza quer mesmo manter a Grécia no Euro?

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Não devemos ser ingénuos para acreditar que este comportamento revela inexperiência ou irresponsabilidade. A falta de vontade para negociar resulta de uma estratégia política.

O fracasso da reunião de hoje do Euro grupo torna óbvio que o governo grego não está a levar a sério a necessidade de negociar com os seus parceiros europeus. Entre decisões unilaterais, proclamações vagas e provocações, vai adiando o início de uma negociação séria. Por exemplo, os seus representantes não levaram um único papel com propostas nem com números ou contas em relação ao que pretendem para as reuniões do Euro grupo (de hoje e de quarta feira passada). Ninguém sabe quais são os 70% do programa com que concordam, ou os 30% com que discordam.  

Não devemos ser ingénuos para acreditar que este comportamento revela inexperiência ou irresponsabilidade. A falta de vontade para negociar resulta de uma estratégia política, embora não seja fácil entender as intenções do governo grego. Há duas interpretações possíveis.

A primeira aponta para a vontade do governo grego de transformar o problema da Grécia num problema europeu. Eis o raciocínio. Seria um risco demasiado elevado deixar a Grécia sair do Euro. A Europa não correrá esse risco. Quando se chegarmos ao precipício, a Europa recuará e aceitará as nossas condições. Muitos no Syriza pensam assim, e de certo modo seria o desfecho ideal. Não nos podemos esquecer que estamos perante uma coligação de revolucionários. E revolucionários cuja ambição não se limita às fronteiras gregas. O primeiro passo da revolução foi a vitória nas eleições do passado mês de Janeiro. O segundo seria transformar a política da zona Euro. O Syriza seria assim a vanguarda da revolução socialista contra a ortodoxia financeira da zona Euro.

Se a revolução falhar, o governo grego será derrotado. Ou seja, aceitará a continuação do actual programa até ao Verão e discutirá um terceiro programa de ajuda externa. A derrota significará igualmente um recuo em relação às promessas eleitorais. Neste caso, o governo grego teria que saber explicar o seu recuo e, mais difícil, manter a unidade no interior do Syriza e da coligação. A derrota seria justificada essencialmente pela vontade da maioria da população grega em manter o Euro (cerca de 80%). Mas culpar a Europa (e sobretudo a Alemanha) pelo recuo poderia não ser suficiente. Desconfio que Tsipras, para evitar eleições antecipadas, convocaria um referendo para legitimar o seu recuo. Resta saber se teria condições políticas para o fazer, como por exemplo o apoio do seu partido.

Aqui, chegamos à segunda interpretação. A saída do Euro poderá ser o principal objectivo do Syriza. Sabemos que há correntes no interior do partido que são contra o Euro. Também sabemos que Tsipras e o partido eram contra a participação no Euro em 2010/2011. Mudaram de posição quando perceberam que com a maioria dos gregos a favor do Euro, nunca seriam eleitos se fossem contra. A defesa do Euro foi uma conversão eleitoralista por parte do Syriza.

Quando os revolucionários gregos perceberem que a “revolução” falhou (e já não faltará muito), a sua principal preocupação será manter o poder na Grécia. Tsipras terá então que tomar a decisão mais difícil da sua vida política. Qual será a melhor estratégia para ficar no poder? Deixar cair as promessas das eleições e ficar no Euro? Ou sair do Euro e continuar no governo como um herói que lutou contra o poder alemão?

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