Dois exemplos de como é possível gerar mudança na sociedade se dermos tempo ao tempo. E se soubermos responder a uma das grandes questões, porventura a maior de todas, que se resume numa simples palavra: como?

Saber como fazer é decisivo. O tempo e o modo são críticos e fazem toda a diferença à partida e à chegada. Da implementação ao impacto final, passando pela avaliação das medidas e projetos, à medida em que eles evoluem, toda a possibilidade de eficácia passa pela incessante interrogação contida no ‘como?’ e pelo tempo que se dá para que as coisas mudem.

Cuidar melhor dos outros, ser progressista, cultivar a abertura à diversidade e aceitar ideias divergentes, encontrando o tom certo para o debate, mas também para a ação, é difícil. Tremendamente difícil para todos, sem exceção.

Nesta lógica, começo pelo exemplo do grande desafio que uma charity privada inglesa lançou há uma década no Reino Unido. A organização tem o eloquente nome The Challenge, e é líder absoluta da integração social. Partiu precisamente da certeza de que toda e qualquer mudança social é exigente e precisa de tempo, e nasceu do facto de as pessoas não se misturarem facilmente porque tendem a agregar-se em função da educação que tiveram, dos rendimentos que auferem, da sua religião, da sua etnia, das suas crenças políticas ou outras, bem como da sua condição social e da suas circunstâncias pessoais. Conscientes de tudo isto, lançaram o desafio de juntar pessoas.

Como? Implementando programas que permitissem a diferentes jovens passarem tempo juntos, construindo projetos comuns, conhecendo-se e dando-se a conhecer de forma a ultrapassarem preconceitos. Tudo sem imperativos, apenas criando situações e condições para ajudar a perceber que a diferença de opiniões e opções não tem que ser lida como uma ameaça.

Nos últimos 10 anos, os programas The Challenge desenvolveram-se e foram de tal maneira produtivos e eficazes que o projeto escalou e já envolveu meio milhão de jovens entre os 15 e os 17 anos. Tudo o que é passível de afastar o outro só porque pensa ou age de forma diferente passou a ser a substância dos programas juvenis desta organização. Isto, sem impor nada a ninguém, apenas propondo um tempo juntos, proporcionando atividades que os aproximam e os fazem perceber que não há razão para terem medo uns dos outros.

A estratégia passa por tirar os jovens das suas zonas de conforto, e também das suas áreas de residência, para lhes proporcionar uma experiência de cerca de dois meses de convívio, com atividades outdoor e indoor, treino de soft skills, criação e gestão de projetos comuns que possam vir a ser implementados nas suas comunidades. Cada programa aceita entre 60 e 120 jovens, que funcionam em grupos de 12. Alguns escolhem participar nos dois meses de férias, mas outros preferem frequentar o programa ao longo do semestre académico.

No mesmo grupo de 12 há sempre jovens de diferentes raças e credos, com opções sexuais distintas, backgrounds assimétricos, com agilidade, mas também com mobilidade reduzida, uns saudáveis e outros com problemas de saúde, enfim todos diferentes e todos iguais. Nestes grupos misturam-se adolescentes de Chelsea e alunos de Eton, com estudantes de escolas públicas, jovens muçulmanos de White Chapel, asiáticos e afrodescendentes e, ainda, rapazes ou raparigas (de todas as classes sociais) referenciados como estando no limiar da delinquência. A ideia é tirar estes jovens do lugar onde vivem, aproveitar as diferenças de cada um para criar união entre todos. E perderem, para sempre, o medo da diferença.

De certa forma, os programas The Challenge replicam a opção urbanística de não construir bairros sociais para não criar guetos, permitindo que em muitos bairros haja, isso sim, habitações sociais. O princípio dos bairros e dos programas de jovens é o mesmo: criar relações de boa vizinhança, independentemente dos rendimentos, da origem e da classe social. Quando as pessoas se cruzam, se conhecem ou passam tempo juntas deixam de ter medo umas das outras e ficam naturalmente mais abertas à diversidade.

Os programas são voluntários e acessíveis a todos. O máximo que alguém pode pagar são 50 libras e só se manifestamente tiver posses. Como a falta de integração social custa 6 mil milhões de libras ao Reino Unido e gera problemas muito graves de saúde mental, isolamento, desemprego, miséria e exclusão social (há emigrantes que vivem em Inglaterra há mais de 15 anos, mas as mães de família não falam inglês), todo o investimento que se faz nos programas The Challenge é também um investimento na saúde pública e no futuro das gerações. Têm um orçamento de muitos milhões para os próximos 6 anos.

Disse e sublinho que meio milhão de jovens já participou neste programa, em 10 anos. Um em cada 6 inscreveu-se voluntariamente, o que é de facto uma percentagem expressiva. O The Challenge nasceu da iniciativa privada, mas tornou-se de tal forma relevante que escalou por todo o país, numa estratégia de formação cívica que favorece o entendimento e contraria a tendência para cavar fossos intransponíveis que fazem com que as pessoas não se entendam.

O segundo exemplo está contido num episódio recente de “People Fixing the World”, da BBC World Service. “Pessoas que consertam o mundo”. No podcast de 17 de Junho, assinado por Hannah McNeish, Portugal é dado como exemplo de boas práticas relativamente à despenalização do consumo individual de drogas, que aconteceu há vinte anos, mas se começou a desenhar nos anos 90, quando muitos portugueses de todas as idades e classes sociais eram viciados em heroína.

Hannah McNeish ouviu vários portugueses que estiveram ligados à mudança da lei, que permitiu que os consumidores deixassem de ir presos, mas também foi ao encontro de médicos, enfermeiros e especialistas no acompanhamento de adictos, bem como de polícias e outras autoridades que se articulam no terreno para conter o tráfico e o consumo de drogas.

O ponto de partida para a recente investigação de Hannah McNeish foram as estatísticas de mortes por overdose. Só nos EUA morrem 130 pessoas por dia, vítimas de abuso de drogas, situação que levou Trump a declarar estado de emergência e a convocar novas medidas de saúde pública. No Canadá, no Reino Unido, na Suécia e na Noruega também a escalada de mortes por overdose é brutal e, neste sentido, a jornalista foi em busca das melhores práticas, com resultados comprovados partindo da interrogação: “Podem algumas soluções de outros países, tomadas há décadas, oferecer melhores estratégias para os dias de hoje?”.

Portugal e os portugueses precisaram de 20 anos para mudar radicalmente as políticas e as mentalidades neste campo, mas aparentemente fomos capazes de o fazer de forma consistente. Acredito que está muito, muitíssimo por fazer, mas é importante saber que o essencial já está feito. Nos anos 80 Portugal enfrentava uma crise de consumo de heroína que tocava todas as classes sociais e, nessa altura, quase não havia famílias em Portugal que não tivessem sido tocadas pelo consumo e adição de drogas (amigos, amigos dos amigos, familiares próximos ou distantes).

Toda esta crise de consumos exponenciais potenciou a multiplicação de casos de Hepatite B e de pessoas infetadas com HIV. Tínhamos, nessa altura, uma das taxas mais elevadas da Europa de novos casos de HIV. Perante isto, a solução encontrada passou por descriminalizar o uso pessoal de todas as drogas. Foi um enorme risco e gerou uma tremenda polémica, mas pegou e pagou. Em 1999 tínhamos mais de 300 pessoas a morrer de overdose por ano, agora temos menos de 30. Os consumidores estão mais referenciados e existe mais e melhor acesso a tratamentos e apoio.

Em 2001 a nova lei foi aprovada e as pessoas que transportam droga para consumo pessoal deixaram de ser condenadas e presas. Como é sabido, não se tratou de uma legalização de venda de drogas, no sentido em que ainda não se pode ir a uma loja comprar livremente heroína ou canábis, mas apenas da despenalização do consumo. Continua a ser ilegal consumir e vender droga nas ruas. Os dealers continuam a ser tratados como criminosos e postos na prisão, mas muitos consumidores individuais deixaram de ser levados para a esquadra da polícia e são referenciados em serviços próprios onde lhes são servidos programas de tratamento e acompanhamento.

No Porto, onde o bairro do Aleixo foi recentemente desmantelado, nas zonas conhecidas pelo uso de crack e cocaína, já há adictos que deixaram de ver os polícias como ameaças e, embora ainda haja muitos confrontos e queixas, no geral a atitude mudou e muito.

Os consumidores foram durante décadas olhados como verdadeiros demónios na sociedade (sabemos que a droga é diabólica!), mas hoje em dia a consciência da realidade mudou e o olhar também. Os consumidores passaram a ser vistos como doentes e não como criminosos. Mas será que estamos todos na mesma página relativamente a esta questão? A interrogação é de Hannah McNeish. Claro que não e muitos consumidores ainda têm problemas com a polícia e vice-versa, mas, como diz Yourcenar, o tempo é um grande escultor.