As eleições Presidenciais só nos vão fazer gastar tempo e dinheiro. Dois bens escassos num País que está mergulhado numa pandemia de efeitos devastadores que uma vez mais nos interpela na relação de asséptica hipocrisia que mantemos com a natureza e o espaço rural.

Há muito que ouço este definitivo argumento da inevitabilidade de um democrata ser republicano. O incontornável sufrágio directo e universal na escolha do Chefe de Estado. Mas será mesmo assim? Será que a nossa escolha é livre e não condicionada por sistema nenhum. Será que a democracia precisa para se qualificar que o Chefe de Estado seja recorrentemente eleito pelos cidadãos.

Pois na verdade a maioria das coisas que caracterizam a nossa identidade como pessoas – Pátria, Raça, Língua, Família, não são escolhidas por nós. Mas não deixam de estar no centro da nossa idiossincrasia. E mesmo no sistema político não podemos escolher aquilo que aparentemente não devia escapar à nossa directa decisão – a da escolha de cargos que sendo menos arbitrais e referenciais, sugerem uma escolha de especial aptidão técnica, operacional e de liderança, ou meramente de proximidade. Assim acontece com o primeiro ministro, que o diga Pedro Passos Coelho, com o presidente da Assembleia da Republica, com todos os ministros, com os presidentes dos diferentes Tribunais, com as chefias da Administração publica, até regional, etc, etc.

Sim, tudo isso será verdade, mas não tira que a República tem a superioridade de colocar na decisão do Povo a mais alta Chefia da Nação, dirão! Muito bem, esmiucemos como diria Ricardo Araujo Pereira.

Quem é que escolhemos? De entre todos? qualquer um? Não estou a falar da imposição dos 35 anos. Estou a falar de que o sistema político está refém de um sistema partidário em profunda crise de valores. E um mero pensamento holístico desta realidade leva-nos a perceber que podemos escolher ser entre 2 dos nossos 10 milhões de concidadãos. Os dois que por acção ou omissão forem indicados pelos 2 maiores partidos. Para não dizer que não há escolha nenhuma quando estes dois partidos decidem entre si apoiar, por acção ou omissão, o mesmo candidato.

Esta eleição não tem disputa porque o PS decidiu acolher Marcelo, como com ar bonacheirão o próprio Primeiro Ministro anunciou aos portugueses nos célebres mimos da Auto-Europa.

E não tendo disputa não tem escolha. Ponto final.

Vaticinei há já muitos anos, depois da eleição do General Ramalho Eanes, que o Presidente da República teria que ter sempre duas condicionantes de partida – ter mais de 35 anos e ter sido presidente ou secretário geral (é a mesma figura em “direitês” ou “esquerdês”) do PSD ou do PS. Assim tem sido inexoravelmente. Os portugueses escolhem entre os dois, ou no candidato único, quando for o caso de as “comadres” se entenderem.

E vaticinei uma outra coisa que, para este desiderato, tem muitíssima relevância: qualquer Presidente da República teria maiorias reforçadas nas suas recandidaturas. E que a essas maiorias corresponderia quase sempre um aumento significativo da abstenção.

Isto quer dizer que, na prática, os portugueses se estão a borrifar para esta eleição e os que não estão, vão votar segura e maioritariamente na continuidade. Porque percebem que a figura do Presidente é uma figura, referencial, próxima, de exigente representação externa e de desejada coesão interna. Pergunto se alguém acha, com honestidade, que qualquer dos Presidentes eleitos na 3ª República não seria permanentemente reeleito se não houvesse limitação de mandatos?

Espero ter conseguido explicar que o sufrágio para ´ em República é uma falácia porque entregamos a decisão de indicação do Presidente à combinação, ou à falta dela, que os dois maiores partidos fizerem entre si.

Mas é também um desperdício, porque todos os portugueses querem ficar com o Presidente que lá está. Então escolham um (aclamem-no!) e deixem que ele represente o País em vez de representar o Partido que o escolheu e que inevitavelmente liderou.

Eu, como já perceberam, não vou votar. E sei que Marcelo, depois de todo o tempo perdido nestas eleições, será o seu vencedor reforçado.

Não devíamos perder tanto tempo a dividir os portugueses e a escolher o que já está escolhido!