Estudantes

O tempo perguntou ao tempo “Que histeria é esta?” /premium

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Sinto falta de uma greve dos quadros de ardósia, por exemplo. Um justo protesto por estarem a ser substituídos por desenxabidos quadros brancos de plástico, para mais ligados a um computador

Na passada sexta-feira milhares de estudantes saíram à rua para protestar contra as alterações climáticas. Já não se via uma manifestação de estudantes assim desde os anos 90 com os protestos contra as propinas no ensino superior. Mas esta nova manifestação foi necessariamente diferente. Desta vez os alunos não puderam mostrar os rabos, não fosse libertar-se inadvertidamente mais algum metano para a atmosfera. O que agravaria a situação, já de si catastrófica, do clima no nosso planeta à beira do inevitável apocalipse. A propósito. Tem estado um tempo bastante ameno. Mas não nos fiemos nisso! Isto é a malandra da Terra a fingir que está tudo muito bem para depois nos apanhar desprevenidos e mandar-nos com uma alteração climática que até andamos de roda.

A verdade é que esta era a greve que faltava. Já estamos fartos das greves dos professores. Já não surpreendem as greves dos funcionários não docentes. Finalmente foi a vez de também os alunos fazerem greve. Ainda assim creio que ao nível de greves relacionadas com o sistema de ensino há espaço para mais e melhor. Sinto falta de uma greve dos quadros de ardósia, por exemplo. Um justo protesto por estarem a ser substituídos por desenxabidos quadros brancos de plástico que, para terem uma pequena ideia da magnitude desta injustiça, por vezes até estão ligados a um computador. Nestas manifestações dos alunos uma das frases mais ouvidas foi “Estamos a faltar às aulas para te dar uma aula”. E não é que os miúdos têm jeito para ensinar? Toda a gente percebeu perfeitamente que, faltando eles à escola, a partir de agora os professores já nem precisam de fazer greve para terem fins-de-semana prolongados.

Pois é, não foram só os jovens a vibrar com este protesto. Luís Monteiro, deputado do Bloco de Esquerda, escreveu no Twitter: “A maior manifestação de estudantes da década numa imagem brutal. Não há gerações condenadas, mas para nos salvarmos da barbárie capitalista, precisamos de defender o Clima”. Confesso que, por vezes, também dou comigo a sonhar salvar-me da “barbárie capitalista”. Imaginem. Uma sociedade sem empresas capitalistas que providenciassem acesso à internet. Uma sociedade sem empresas capitalistas que produzissem smartphones. Enfim, uma sociedade sem uma empresa capitalista como o Twitter. Aí sim viveríamos em paz, sem termos de aturar as excitaçõezinhas adolescentes de deputados que apreciam imenso a “luta”.

A propósito de “luta”, Jerónimo de Sousa continua à bulha com o conceito de democracia. Numa entrevista que deu esta semana, o líder do PCP disse que para poder responder se a Coreia do Norte é ou não uma democracia “Primeiro tínhamos de discutir o que é a democracia”. Por acaso não tínhamos. Bastava ir ao dicionário ver a definição. E não quero estragar a surpresa, mas não vem lá que democracia é um sistema totalitário comunista liderado por fortíssimos chalupas da mesma família. Não fosse isto ter sucedido exactamente na semana em que entrou para o governo português, que é apoiado pelos comunistas, a mulher de um ministro desse mesmo governo em que toda a gente é já praticamente da mesma família e a hesitação de Jerónimo de Sousa seria indiscutivelmente grotesca.

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