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Amor

O último tabu: que não se adie o amor! /premium

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Ao contrário do que parece, primeiro não nasce a paixão; e, só depois, o amor. A paixão não é a porta de entrada do amor. A paixão é o lugar mais longínquo a que se chega com o amor!

“Ama-te a ti próprio” é uma “versão auto-ajuda” muito em voga em relação ao amor. E, se isso nos diz alguma coisa, talvez queira dizer que o amor, para muitos, já teve melhores dias. Porque acaba por dar a entender que outra pessoa na nossa vida não será uma condição indispensável para o amor. E, por outras palavras, que – sim! – é possível ser-se feliz sozinho.

O amor não é um sentimento! Mas, muito mais, uma consensualidade de sentimentos. Entre duas pessoas! Singulares, naquilo que sentem. Diferentes, no jeito como sentem. Distintas, no modo como expressam em palavras e em gestos o que sentem. E díspares, nas consequências que retiram daquilo que sentem. Ao amor nunca se chega na primeira pessoa (por mais que ele seja um “eu e tu” ao mesmo tempo)! E a sua dimensão assombrosa resulta de dois mundos (feitos de histórias, de episódios, de pessoas, de convicções e de sonhos diferentes) serem capazes, de forma recíproca, de chegar ao desprendimento, à humildade, à fé, à autenticidade, à transparência, à integridade e à espontaneidade. Que os leva, sem nunca se perderem do seu pensamento nem renunciarem à sua autonomia, a reconhecerem-se como bons um para o outro. E a expandirem-se um no outro! Descobrindo-se naquilo que têm de melhor; através do contraditório de tudo o que, pela diferença, “o outro” lhes traz de interpelante à sua integridade. A que só se chega quando somos quem somos sempre que não fugimos daquilo que é diferente. E que não somos.

Amor não é paixão. Não da forma como, tantas vezes, se fala dela. Como se fosse uma experiência com tanto de “incendiário” como de fulgurante, de frágil e de efémero. Ao contrário do que parece, a paixão não é a porta de entrada do amor. A paixão é o lugar mais longínquo a que se chega com o amor! Ou seja, a paixão é uma belíssima “vinheta” da experiência de comunhão que se conquista com ele. Que só parece fugaz porque, a seguir a sentirmo-nos surpreendidos por ela, logo esmorecemos (e preguiçamos) quando se trata de trabalhar, todos os dias, para o tornar melhor. Ao contrário do que parece, primeiro não nasce a paixão; e, só depois, o amor. Mas, melhor: sem amor não há paixão! Daí que, quando se diz que a paixão parece ter um “prazo de validade”, talvez se queira dizer que ao melhor a que se terá chegado, num amor adulto, terá sido a uma experiência fugaz, aparentemente acidental, incompreensível naquilo de que resulta, a ponto de nos remetermos a uma postura fechada em nós e de não trabalharmos mais para ela. Talvez por isso “o meu amor” nunca traduza o amor por alguém nem faça dessa pessoa a “corporização”’do amor a que se chegou consigo. Mas o sentimento de posse duma experiência “absoluta” que essa vertigem logo esvazia e acanha.

Amor não é desejo. Não da forma como a religião ou a própria psicanálise o foram imaginando. Como se ele fosse um “amor à primeira vista”. Reflexo. Impulsivo. Inconsciente. E “animal”. Atração não é “desejo”! Desejo é a curiosidade de conhecer mais fundo. Que persiste entre duas pessoas que — pela forma como, mutuamente, já se conhecem — se tornaram íntimas, uma para a outra.

Por tudo isto, a mim parece-me que — tragicamente, para muitas pessoas — o amor se descobre com os filhos. E que, depois deles, em vez de se trabalhar pelo amor, persiste a mágoa e o ressentimento. E uma ideia vaidosa sobre o amor que faz do “ama-te a ti próprio” um slogan próximo, todavia, da “publicidade enganosa”. “Ama-te a ti próprio” é um grito de triunfo sobre a solidão. Que não a resolve mas, antes, que a acentua. “Ama-te a ti próprio” é a melhor solução para a xenofobia. Porque faz da diferença com que se cresce uma ameaça de que se deve fugir. E, pior, “ama-te a ti próprio” transforma a fé, a que só se chega pelo amor, numa espécie de “eu posso!”, derivado da posse, que nunca se conquista.

Seja como for, parece que vivemos tempos em que transformam o amor numa espécie de “último tabu”. E talvez seja de perguntar se é o mundo, na forma como acentua desigualdades, obscurece o conhecimento e atenta contra a singularidade que comprometeu a nossa relação com o amor ou se, pelo contrário, é a forma como fugimos de o conversar — como se o amor não tivesse segredos, e o conhecêssemos e vivêssemos, todos os dias — que nos torna mais vaidosos, mais indiferentes, mais silenciosos, e mais sozinhos. Seja pelo que for, que não se adie o amor!

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