Envelhecimento

O verbo enviuvar

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Olho à minha volta e vejo que os que não se isolam nem se fecham para o mundo, os que se deixam ajudar e visitar, são aqueles que acolhem com realismo os altos e baixos que todos os lutos comportam.

Há verbos difíceis de conjugar e enviuvar é um deles. Ficar viúva ou viúvo implica sempre uma mudança radical e, fatalmente, uma solidão difícil de acolher. Mesmo quando a morte é anunciada e houve tempo para despedidas, reconciliações ou re-uniões em família (há mulheres e homens que esperam pela chegada de filhos e parentes para partirem em paz, e é sempre muito impressionante assistir a essas derradeiras re-uniões da família), dizia que mesmo quando existe este compasso de espera, a perda implica sempre um enorme vazio, uma profunda tristeza e alguma desordem interior.

Vejo isso com muita nitidez, em casa. O meu pai morreu há um ano, exactamente neste dia 6 de Março. Saiu de casa para dar as suas voltas e ir à biblioteca, como fazia todos os dias, mas caiu fulminado no passeio antes de chegar à esquina da nossa rua. Foi-nos dito que teve a morte de um bem-aventurado por não ter sofrido absolutamente nada, e agradecemos penhoradamente a bondade de palavras tão consoladoras, mas na verdade nenhum de nós estava preparado para esta morte. Quando é inesperada o choque é tão violento que ficamos atordoados, ainda que possamos também ficar incrivelmente performativos.

Fazemos tudo o que é preciso fazer, damos passos, falamos com todos os amigos e conhecidos, damos e recebemos incontáveis abraços, contratamos desconhecidos para tratarem de todas as formalidades e até percorremos labirintos burocráticos sem queixas nem quebras. Chegamos a parecer fortes e a dar uma ilusão de que está tudo em ordem, mas não está. O caos é total. O mundo desaba por dentro, mesmo quando por fora parece intacto.

Todos os que já passamos pela morte de maridos e mulheres ou de pais, filhos e irmãos sabemos que a perda é uma brutalidade e o luto pode ser uma barbaridade. Um tempo espesso, demorado, em que as noites tomam conta dos dias. Nos primeiros tempos anoitece e parece que nunca mais amanhece. Mesmo quando a luz volta e o dia se cumpre, parece ter sido vivido numa penumbra, sem horas definidas.

As viúvas e os viúvos inauguram esta sua nova condição sem saberem exactamente o que vão encontrar. Nunca viveram sem o outro, tentavam não pensar demasiado na morte e mesmo se a encararam de frente, com coragem e certezas de fé, ela não era ainda verdade. Só no dia em que acontece é que tudo se precipita e se torna real.

Enviuvar é um processo lento, uma tomada de consciência a espaços, um sono intermitente povoado de sustos e pavores. Apetece acordar do pesadelo. Dá vontade de andar para trás no tempo. Fazer de conta que não aconteceu. O desejo de voltar a ver a pessoa amada e conversar com ela, tem picos tão arrebatadores como desoladores. Irreprimível desejo este, que nunca poderá ser satisfeito.

Há certamente muita e muito boa literatura sobre a viuvez, mas parece-me que a observação directa desta condição também daria um razoavel ensaio. Não falo apenas da viuvez de uma mãe que amo, acolho e acompanho, mas de tantas outras viuvezes de homens e mulheres que andam próximos ou se cruzaram no caminho ao longo da vida.

A viuvez não pesa apenas pela ausência de quem se ama, também se agrava por se perderem círculos sociais, relacionais, que antes funcionavam por serem próprios para casais. Muitas pequenas e grandes viagens deixam de ser possíveis por não haver companhia nem ajudas; muitas visitas e deslocações ficam por fazer por se perder independência e autonomia; muitas coisas se transformam irreversivelmente justamente por decorrerem de uma situação não reversível.

Por observação directa e proximidade com diversas pessoas, de diferentes condições e idades, que ficaram viúvas, sei que o tempo é um factor determinante. Seja para pacificar interiormente, seja para cair na conta de que a morte realmente aconteceu, pois para certas pessoas é extraordinariamente difícil integrar a perda irremediável dos que amam e elas próprias se sentem morrer ou começam a desistir de viver. Este é o luto mais dramático: a desistência em vida. A procura incessante e obsessiva do outro onde ele já não está, num mundo que já não habita.

Para quem renuncia a ter uma vida própria e passa a existir em função de um outro que morreu, o quotidiano pode ser um verdadeiro massacre. Para si mesmo e para os que estão à sua volta, sejam os próprios filhos e netos, sejam os pares e os amigos. Muitos homens e mulheres optam por uma via purgativa abdicando de tudo o que lhes possa soar agradável ou recordar que permanecem vivos e activos, em vez de os manter afundados na tristeza e numa nostalgia que chega a ser mórbida.

Ninguém no seu estado normal se casa com o desejo de enviuvar e, também por isso, a viuvez é uma provação não-desejada. Pode inclusivamente ser muito temida ao longo da vida em casal, se um dos dois se centra demasiado na possibilidade de vir a ficar só. Consciente ou inconscientemente todos temos medo de perder os que mais amamos, nisso somos todos muito parecidos. Só nos distingue a atitude com que depois lidamos com a perda. E é aí que o verbo enviuvar se pode conjugar de maneiras menos dolorosas e porventuras mais construtivas. Ou, pelo menos, resgatadoras.

A atitude oposta à desistência é a persistência. E a paciência. Quem não desiste e aceita a sua nova condição tem mais probabilidades de recuperar a paz interior, o sentido e até o gosto pela vida. Vejo isso nos que se descentram da sua dor e se voltam para os outros. Nos que reforçam os laços com os filhos, os amigos e a família. Nos que apostam em aprender ou reciclar conhecimentos, nos que se inscrevem em cursos e formações, nos que não se importam de ir sozinhos onde outrora iam acompanhados. Podem ser concertos ou palestras, workshops ou passeios, actividades profissionais ou de voluntariado, programas desportivos, cívicos ou espirituais, não importa a natureza do estímulo que os faz querer sair de casa e largar o canto onde facilmente se deixariam afundar, o que interessa é que ao sairem de casa também saem de si mesmos e da sua dor.

Vivemos cada vez mais anos e também isso nos obriga a encontrar estratégias que nos permitam atravessar todas as condições e idades, desde que somos muito novos até ficarmos muito velhos.  Olho à minha volta e vejo que os que não se isolam nem se fecham para o mundo; os que se deixam ajudar e visitar; os que se empenham em buscar novas actividades, desenvolver novos interesses e cultivar novas amizades, são aqueles que acolhem com realismo os altos e baixos que todos os lutos comportam sabendo que só descentrando-se de si mesmos e de uma dor que (infelizmente para eles)o tempo não cura nem apaga, é possível descobrir formas menos erosivas de conjugar o verbo enviuvar.

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