‘Para que são essas orelhas tão grandes?’, perguntaram ao Lobo, que não teve dificuldade em responder: ‘São para te ouvir melhor, minha netinha.’ O Lobo estava a mentir. As nossas orelhas servem para ouvir mas também para, como dizem as pessoas instruídas, escutar. Quem escuta está a ouvir, mas quem está a ouvir nem sempre está a escutar; aliás fosse a Neta dada à analogia poderia comparar a situação com ‘olhar’ e ‘ver’; mas não, desconcertantemente, com ‘cheirar.’ A avaliar pelos verbos parece haver em português várias maneiras de usar as orelhas e os olhos, mas só uma de usar o nariz.

A diferença entre ‘ouvir’ e ‘escutar’ parece-se com a diferença entre fazer uma coisa sem prestar atenção e fazer uma coisa com atenção. No entanto as minhas orelhas tão grandes deveriam funcionar bem, independentemente da minha atenção; e, embora não haja palavras diferentes, há com certeza uma diferença entre cheirar com atenção e cheirar sem atenção. Ouvir não parece ser uma coisa que se faça de propósito; é uma coisa que acontece a quem tem em bom estado de funcionamento orelhas e as várias outras coisas atreladas às orelhas. Há contudo casos em que alguém nos conta que foi de propósito ao Ribatejo para ouvir cantar o fado; e ninguém estranha. Estranho seria essa pessoa dizer que foi ao Ribatejo ouvir, embora seja verdade.

Como se estas dificuldades não bastassem sente-se ainda a falta de uma outra distinção a propósito do verbo ‘ouvir’: um verbo que descrevesse o facto de se ouvir uma coisa por acaso, ou mal, ou uma coisa que não nos é dirigida. Não se trata de espiar; os espiões ouvem o que não lhes é dirigido; mas como querem fazer isso de propósito, o que estão realmente a fazer é a escutar. Dava por isso jeito um verbo para ouvir sem querer, tal como já há um verbo para ouvir com atenção (‘escutar’) e um verbo para todos os casos de ouvir (‘ouvir’).

As razões por que um tal verbo seria útil são de natureza prática. Uma parte importante, e possivelmente muito importante, das nossas vidas depende daquilo que ouvimos por acaso, ou sem querer. Depende de inúmeras informações que podem vir a ser úteis; de palavras novas e maneiras de falar; de opiniões que ainda não temos, e que vamos depois repetir e fazer nossas; de conversas que não nos dizem respeito, entre pessoas que não conhecemos, sobre vidas de pessoas que podem nem existir. Tudo isto é susceptível de acontecer em qualquer lado: no hospital, numa pastelaria, ou num livro. Ver um filme ou ler um romance tem semelhanças com entrar numa loja, ou andar de comboio; são actividades que nos fazem ouvir coisas sem querer; são parecidas entre si, mas não existe em português um verbo para essa parecença.