Graças a um erro do Ministério da Administração Interna, é provável que exista um desvio intensificador de votos de protesto nas próximas eleições presidenciais. A abstenção já seria muito elevada, porque encontraremos em Janeiro de 2021 um cruzamento raro de circunstâncias que vão aumentar este fenómeno:

  1. Existe a percepção generalizada de que existe um vencedor antecipado: Marcelo;
  2. O maior partido do sistema eleitoral (PS) deu liberdade de voto aos seus militantes. Muitos militantes do PSD e do CDS não se reconhecem no mandato de Marcelo e no seu apoio sistemático aos governos da “geringonça”;
  3. Além do actual Presidente da República e de Ana Gomes (e menos de Marisa Matias) não existem mais figuras mediáticas de primeiro plano;
  4. A pandemia vai levar muitos eleitores a não participarem no acto eleitoral;
  5. As eleições tendem a não ser muito participadas quando não existe um sentimento generalizado de “urgência” na escolha do candidato vencedor.

Não me revejo totalmente em nenhuma das candidaturas que se apresentam às eleições:

Marcelo Rebelo de Sousa: Encontro neste candidato demasiados tiques monárquicos para que possa – como republicano – votar nele: desde a recusa em participar nos tempos de antena (equivalente à arrogância de quem acha que “já ganhou” e que não precisa de se esforçar, desprezando, no processo, o próprio processo democrático e eleitoral) até à sua omissão no caso do SEF, até uma gestão cuidadosamente mediática da “política dos afectos”, tudo me irrita em Marcelo. Recordo-me dele também como académico consumado, sem experiência do mundo do trabalho e das empresas e que, enquanto meu professor de Direito Constitucional, se limitava a dizer umas larachas e que lia e relia uma sebenta que vendia em fotocópias na associação de estudantes e que a papagueava – sem alterações – há décadas nas suas aulas de Direito Constitucional.

Tiago Mayan: concordo com algumas propostas da IL, mas discordo de ter transformado a campanha presidencial num veículo de propaganda para o programa do partido e de ter dedicado tão pouco tempo ao que faria se fosse eleito Presidente ou sobre aquilo que devia ser um Presidente. Sobretudo, discordo do radicalismo liberal do discurso (embora me identifique como “liberal de esquerda”).

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Ana Gomes: durante a campanha revelou-se incrivelmente insegura e fora de contexto. Pessoa corajosa e por vezes excessiva na forma como e até onde leva as suas causas, Ana Gomes é uma das pessoas que mais sigo na política nacional, mas não consigo afastar dela a sombra negra de Paulo Pedroso (sendo irrelevante se é culpado ou inocente: a sua imagem pública é tóxica e ambos, Pedroso e Ana Gomes, sabem ou deviam saber disso).

Vitorino: por muito estimável que seja (e é) não tem ainda (?) o nível de preparação dos outros candidatos. A sua insistência em campanhas presidenciais parece provir sobretudo da sua aspiração a conquistar um lugar de deputado no Parlamento.

Marisa: está estranha. Insegura e falando apenas para alvos eleitorais. Não gostei de praticamente toda a sua campanha, embora seja uma das figuras mais promissoras no Bloco de Esquerda e em quem coloco mais esperanças para um “desvio para a moderação” bloquista – porque é uma moderada (num partido radical) e pela sua experiência nas lides europeias.

João Ferreira: uma das personalidades políticas com mais futuro em Portugal. Não me revejo nos motes, mas admiro a consistência. Espero que seja o futuro reformador do PCP e que afaste, de vez, o partido da defesa de causas perdidas como o regime de Pequim, a ocupação do Tibete ou a repressão na Coreia do Norte e em Hong Kong.

André Ventura: cada vez identificado como o partido Chega, que é, na prática, um partido unipessoal e que usa esta campanha presidencial como plataforma para alavancar uma campanha legislativa onde espera conquistar um grupo parlamentar que, paradoxalmente, dada a desunião e inconsistência interna, será também, muito provavelmente, o princípio do fim do Chega e de Ventura. É um grande tribuno, talvez ao nível de Sócrates, mas, como ele, falta-lhe coerência e consistência até do etéreo mundo das palavras.

Falta o Eduardo Baptista…

O voto em Eduardo Baptista (o primeiro nos boletins, por coincidência) vai contar como nulo e não será contabilizado, mas há boas possibilidades que colha muitos dos votos de protesto que de outra forma iriam parar a Ventura ou a Tino de Rãs. O erro do boletim quase parece intencional no sentido de tentar esvaziar o voto de protesto – se tiver 1% pode fazer a diferença entre os três primeiros lugares ou abrir a hipótese de  segunda volta, mais provável agora do que antes da pandemia, já que  tudo indica que existirá uma grande abstenção, superior a 60%.

Por estas razões e por mais algumas que aqui não listei, o Voto Nulo será a minha opção eleitoral para as Presidenciais de 2021. Por isso:

Votarei Eduardo Baptista.