Ditadura

Obiang, mais um dos nossos ditadores de estimação /premium

Autor
  • Miguel Pinheiro

Os políticos portugueses não vivem grandes dilemas morais quando se dão com os seus ditadores de estimação. Mas para tudo há limites. Já é tempo de Portugal e a CPLP colocarem Obiang na rua.

Teodoro Obiang Nguema subiu ao poder na Guiné Equatorial em 1979 e tomou como primeira medida, altamente profilática, mandar fuzilar o seu antecessor. O desgraçado ex-Presidente, de resto, teve o infortúnio de acumular o cargo com uma característica genealógica que diz muito à classe política portuguesa — era tio de Obiang.

Podemos dizer que, de alguma forma, Teodoro Obiang Nguema tinha prática naquele tipo de atividade violenta. Afinal, antes de se dedicar à política e à causa pública, Obiang ocupou os seus dias como diretor da mais conhecida prisão do país — conhecida, entenda-se, pela desagradável tendência para aplicar a tortura nos detidos.

Uma vez chegado ao poder, Obiang deu outro significado à palavra tortura. Há alguns anos, o líder da Guiné Equatorial foi acusado de “devorar” os seus opositores políticos, especialmente certas e determinadas partes do seu corpo que não serão especificadas numa coluna como esta, que como se sabe é lida em família. Além de praticar a tortura e o canibalismo, o regime é visto como tendo o desagradável hábito de executar os seus opositores.

Obiang faz tudo isto porque, naturalmente, nenhum juiz do país irá bater-lhe à porta com um mandado de detenção. Mas não só. A justiça divina também não o preocupa. Em 2003, a BBC explicou porquê. Um programa da rádio estatal proclamou que Obiang estava “em contacto permanente com o Todo-Poderoso” — e não se estava a referir a Ricardo Salgado. De acordo com a rádio, Obiang é “como Deus no Céu” e tem “todo o poder sobre os homens e as coisas”. Como consequência lógica deste poder ilimitado, argumentou o seu assessor responsável pelo programa radiofónico, o líder do país podia “matar quem quisesse”, sem castigo ou consequências.

Em 2014, os países que integram a CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa sabiam de tudo isto e, mesmo assim, abriram os seus generosos braços ao regime de Obiang. Em troca de um cartão de sócio, fizeram apenas duas exigências. A primeira era uma fantasia: a Guiné Equatorial teria que adoptar o português como língua oficial. A outra era uma fantasia ainda maior: o regime teria de se comportar bem, parar de torturar pessoas e acabar com a pena de morte.

Mas, ao fim de 40 anos, numa altura em que Obiang já é o ditador há mais tempo no poder em África, compreende-se que seja difícil deixar para trás estes velhos hábitos. Há dias, o líder da oposição Andrés Esono Ondo foi detido no Chade e teme-se que lhe possam acontecer coisas pouco agradáveis.

Perante isto, a CPLP declarou-se chocada. E António Costa, muito espantado, disse que, “com toda a franqueza, temos de insistir junto da Guiné Equatorial” para se tornar um país normal. Com toda a franqueza, não é esse o ponto. De Angola à China, os políticos portugueses, da esquerda à direita e com pouquíssimas excepções, não vivem grandes dilemas morais quando se dão com os seus ditadores de estimação. Mas para tudo há limites. Já é tempo de Portugal e os seus parceiros colocarem, sem cerimónias ou preocupações, Teodoro Obiang Nguema fora da CPLP. Onde, de resto, nunca devia ter entrado.

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