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“O pior cego é aquele que não quer ver”
(Provérbio popular)

Faz dois anos que percorri a costa sudoeste, a mais selvagem da Europa, diz-nos a propaganda turística. E entre estufas, trabalhadores estrangeiros, contentores habitacionais, etc, têm razão: reina a selvajaria!

Tudo isto é mais antigo, já com meia dúzia de anos. Nessa altura iam limpar matas, hoje estão enclausurados em contentores, obrigados a permanecer, por razões sanitárias, fechados precisamente nas suas “situações de insalubridade habitacional inadmissível”, e cuja Resolução do Conselho de Ministros n° 178/2019, até prolonga por 10 anos. Milhares de pessoas fechadas em centenas de contentores? Sim, no país que se indigna com as propostas de André Ventura.

Tudo isto vem à baila, em resultado da caça às bruxas da testagem massiva, somada a critérios de geografia pandémica absurdos, e numa altura em que não só não morre ninguém de Covid-19 naquele concelho há 2 meses, como a mortalidade geral em Portugal até está abaixo da média.

Onde estiveram artigos de jornal sobre isto nos últimos anos (aqui me culpo que também eu só agora escrevo a respeito)? Manifestações? Petições? Grandes reportagens? Ninguém (ou quase) quis ver, logo também não admira que, de autarcas a governo, passando por CCDR, ICN ou DGS, também não quisessem.

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Foi preciso uma pandemia para conhecermos estas vidas miseráveis. De repente, sabemos que a Câmara Municipal, ao fim destes anos, está “a perceber a dimensão deste problema”. Que a ACT pede regulamentação para poder agir. Multiplicam-se denúncias de escravatura, tráfico de pessoas, etc.

E é, efetivamente, escravatura. A escravatura do mercado, comum a muita da nossa paisagem rural. Esse mercado que somos todos nós, enquanto consumidores. Também eu, prefiro comprar mais barato do que mais caro, e até ando atento a promoções. Se pagamos pouco, aos trabalhadores das estufas, tal como a outros agricultores, pastores, proprietários florestais, etc., só chegam migalhas. Somos nós, que compramos azeite barato, que nos admiramos com olivais intensivos? Somos nós, que compramos carne barata, que estranhamos explorações intensivas? Somos nós, que compramos móveis de metal, que não percebemos porque os pinhais estão abandonados? Somos assim tão cegos?

Bem, do êxodo rural, certamente a maioria já ouviu falar, nem que algures na escola ou por um familiar. De facto, em meio século passámos de uma sociedade maioritariamente rural, para nos apinharmos quase todos nas grandes cidades litorais. Todavia, continuamos a comer, só que sem querer pensar de onde a comida vem, e que se a vida dedicada a produzi-la fosse uma vida boa, as pessoas não a teriam abandonado.

Não é.

E não apenas porque enquanto consumidores não o pagamos, mas igualmente porque todos nós, neste caso enquanto cidadãos e contribuintes, não só permitimos como ainda aplaudimos que os poucos recursos para fazer frente a estas desigualdades (milhares de pessoas significaram quantos mais serviços criados? quantos mais policias? quantas fiscalizações? etc.?) se esfumem em inutilidades.

Longe da vista, logo, longe do coração, não queremos ver que se o dinheiro se gasta na TAP ou no Metro, no Novo Banco ou em subsídios a Energias Renováveis, em Passadiços ou em Obeliscos, as estradas e pontes longe da grande cidade continuarão a cair, as pessoas a viver na miséria, os campos abandonados ou dando emprego precário a quem qualquer coisa é melhor que o inferno de que fugia, as paisagens tragicamente a arder…

São terras selvagens. Mas os selvagens somos nós, que, fechando os olhos, deixamos alguns viverem sob as leis da selva.