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Vai ser a Intifada. O círculo de fogo. Os dias da ira. A fúria da rua árabe. Como? A intifada ainda não começou? Estão certamente à espera das pedras. Não começou mas vai começar. É o “Trump, pá”.

O Trump, não o presidente dos EUA, mas sim o “Trump, pá” é a figura mais útil da política doméstica.

Todos os dias temos a presença do “Trump, pá” nos nossos noticiários. O “Trump, pá” cumpre o utilíssimo papel de ser o bombo e o bobo da festa pois, como se sabe, connosco tudo corre bem. Ou quando não corre assim tão tão bem convenhamos que não vale a pena repisar o assunto pois já se esgotou o tempo das más notícias com o “Trump, pá”.

Por exemplo, foi afastado do cargo João Marôco, até há pouco coordenador em Portugal do estudo que avalia em vários países a compreensão da leitura entre os alunos que estão no 4.º ano. O afastamento de João Marôco aconteceu ao mesmo tempo que se ficou a saber que o estudo revelava que os alunos portugueses tinham piorado o seu desempenho face a estudos anteriores. Na verdade nem foram os alunos portugueses foram sim as alunas portuguesas, já que as raparigas que têm habitualmente melhor desempenho na leitura passaram em Portugal a apresentar resultados idênticos aos dos rapazes. Por outras palavras tornaram-se igualmente más na leitura. Podia perguntar-se: o que levou a isto? Como foi possível? Avaliou-se mal?…

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O ministro que foi nomeado para a Educação, franchisou o ministério à CGTP e tanto quanto se sabe a sua grande preocupação de momento é o futebol que pretende disciplinar. Mas quem vai importunar o senhor ministro da Educação com um assunto tão mesquinho, tão quantitativo, tão normativo como é a avaliação do desempenho na leitura dos alunos portugueses quando temos o “Trump, pá” logo ali à mão?

O “Trump, pá” que declarou Jerusalém capital de Israel (como é óbvio não declarou nada, limitou-se a passar à prática uma decisão das anteriores administrações). o “Trump, pá” que vai fazer um muro para os emigrantes não puderem entrar, sendo certo que o muro já existe…

O boneco do “Trump, pá” que só faz mal e faz tudo mal tem nos nossos noticiários o seu reverso no “Marcelo dos afectos”. O “Marcelo dos afectos” ao contrário do “Trump, pá” faz tudo bem. Por exemplo, a 8 de Dezembro “Marcelo barbeou-se e alertou para excessos de turismo no Intendente”. No mesmo dia também pediu “que próximo orçamento não seja contaminado pelas eleições”. Na véspera o pedido fora ligeiramente diferente: Marcelo pedia “estabilidade política, social e laboral”.

Não há praticamente um dia em que Marcelo não faça um aviso, um pedido, um considerando. A 28 de Novembro; “Marcelo avisa Governo para não entrar em aventuras que vão além da legislatura”; 27 de Novembro: “Marcelo avisa que vai analisar OE2018 com toda a atenção”; 26 de Novembro: “Marcelo avisa esquerda de que não quer “crises políticas“; 22 de Novembro: “Marcelo pede sensatez para “não deitar fora” o caminho do equilíbrio financeiro”; 17 de Novembro: “Marcelo pede “fórmula intermédia” para convivência de público e privados na saúde”…

Resumindo, o “Marcelo dos afectos” e o “Trump, pá” dominam a nossa vida político-mediática que a bem dizer são uma e a mesma coisa: ambos parecem ter uma tremenda dificuldade em estar calados e quietos. No que dizem e fazem é difícil encontrar uma coerência. A grande diferença é que o primeiro, estando cá e tendo sido aqui eleito, não é responsável por nada a não ser por fazer selfies e o segundo não sendo nosso presidente é responsável por tudo.

PS. Enquanto as redacções portuguesas (e não só) não ficam desertas por os jornalistas terem partido para a faixa de Gaza com o objectivo de aí fazerem acontecer a intifada que para sua consternação os palestinianos ainda não desencadearam, deve sobrar tempo para o esclarecimento de alguns dos mistérios do ano. Um deles prende-se com o mistério dos refugiados fugitivos. Quase metade dos 1500 refugiados acolhidos em Portugal através do programa de recolocação da União Europeia deixaram clandestinamente o nosso país. Coisa estranha quando nas notícias sobre estes refugiados não há migração económica; apenas fuga às guerras e famílias felizes por estarem em Portugal.

As explicações para estas fugas são várias: os refugiados ora fogem porque são homens isolados. Ora porque são famílias completas. Ora porque não têm filhos. Ora porque as mulheres estão grávidas. Ora porque as casas postas à sua disposição estão no interior. Ora porque estão no litoral. Ora porque não têm aqui uma comunidade… E assim acabamos 2017 sem perceber o estranho caso dos refugiados que fogem dos seus países-protectores e que para mais bizarria são obrigados a regressar a eles: dos refugiados que deixaram clandestinamente Portugal, 179 foram localizados e algumas dezenas transferidos de novo para Portugal.

Desculpem mas nada disto faz sentido!