Apanhados de surpresa como nunca antes na nossa geração, Portugal reagiu com serenidade e aceitou um modo de vida marcado por isolamento e confinamento social. Tranquilidade mas também receio. Profissionais de saúde passaram a priorizar não serem colhidos por esta nova doença. Primazia para as condições de segurança. Proteger as nossas famílias e cuidar de ascendentes/descentes vulneráveis. Muitos houve que por trabalhar na linha da frente, deixaram as suas famílias e passaram a viver em quartos (hotéis, ALs) ou apartamentos cedidos por solidariedade. Servir, enfrentando o risco e medo de ser infectado, mas servir o próximo. Nada de estranho nesta nossa profissão que escolhemos …

Os Hospitais também mudaram. Serviços hospitalares completos foram transformados e re investidos no tratamento e reforço do combate à pandemia. Recursos humanos desviados para outras áreas ou em paragem forçada. Para evitar o colapso o SNS fechou para tudo não essencial. Serviços mínimos para todo não Covid e não emergente. Tinha que ser feito. A bem da proteção de todos.

Mas também doentes não Covid acordaram para este novo inimigo. Um novo padrão de preocupação emergiu. A pandemia passou a ser prioridade única nos contactos entre médico/doente ao ponto de serem estes últimos os primeiros a manifestar a sua recusa no acesso aos cuidados. Antes mesmo que as consultas fossem desmarcadas, procedimentos adiados ou inícios de terapêutica suspensos, os doentes procuraram conselho e modo de evitar idas aos Hospitais. Basta recordar nas primeiras semanas de confinamento, Hospitais Centrais em Lisboa – São José ou Santa Maria- viram o recurso ao Serviço de Urgência baixar para ~33%. Ou seja 2/3 dos doentes adiaram observações urgentes (alguma verdadeiramente não urgente) ou procuraram auxílio de outra forma. A actividade do serviço S24 passou a padrão inestimável nessa triagem antes do recurso ao Hospital. E é agora a par com o INEM, a 1º linha de acesso à saúde Covid e em menor medida não Covid.

Não há outra oportunidade de vencer este inimigo. Mas … com Covid, em Covid e apesar do Covid, não podemos descurar as outras “saúdes”. Nomeadamente outra pandemia com a qual já aprendemos a viver. A do cancro …

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A nível mundial o cancro atinge os 18 milhões de novos casos/ano dos quais resultam 9.6 milhões de óbitos (IARC). Em Portugal afecta anualmente um número acima perto dos 60.000 novos casos/ano (58.000 em 2018, IARC). Representa igualmente a 2º causa de morte no nosso país com 29.000 óbitos a lamentar (2018, IARC).  Esta área da saúde afecta sem diferença doentes por diagnosticar como doentes em tratamento. O desconhecimento das particularidades clínicas deste novo vírus, mandatou profissionais de saúde a optar por primum non nocere (primeiro não fazer mal), parte do juramento de ser médico. Dessa forma, procedimentos diagnósticos, rastreio, avaliação ou início de novas terapêuticas foram alvo de recomendações por parte de instituições nacionais (DGR, colégios de Especialidade da OM) e internacionais (OMS, associações oncológicas) no sentido de ser adiados ou mesmo evitados. Fez sentido e foi protetor. Permitiu por exemplo em hospitais onde a oncologia não é exclusiva, canalizar recursos humanos e de equipamentos para o combate à Covid. Aos outros manter actividade, ainda que reduzida, mas evitar propagação da infecção num grupo da população particularmente vulnerável.

No outro lado da moeda receia-se aumentar o número de óbitos prematuros por quebra de cuidados oncológicos inadiáveis. A doença não entra em confinamento. Não pára. Com efeito uma avaliação publicada no Sistema Nacional de Saúde Inglês (HNS), estima que se o confinamento (lockdown) durar 6 meses, onde cirurgias não sejam efectuadas, tratamentos de quimioterapia ou radioterapia não sejam completados, possa levar à morte precoce de até 60.000 pessoas. Extrapolação direta para Portugal permite calcular esse número em cerca de 11.000 pessoas. Dez vezes mais que o número de óbitos por Covid até à data – 1089 (6/5/2020) e potencialmente mais 33% que o número projetado para 2020.

Hoje, felizmente, a realidade mudou. Já é possível perspetivar uma vida com o vírus. Apesar do vírus.

Hoje, hospitais como o meu (dedicado exclusivamente à Oncologia) oferecem condições de segurança sanitária que não existiam no início da pandemia. Foram criados e existem garantias para proporcionar tranquilidade e segurança clínica no recurso à saúde. Se não vejamos alguns exemplos de adequação sanitária à nova realidade:

  • Doentes:
    • Sinais vitais fornecidos voluntariamente à admissão (100% de adesão) para triagem e referenciação clínica;
    • Testes de despiste Covid para detecção da doença clínica e subclínica pré-procedimentos ou terapêuticas clínicas;
    • Disponibilização de equipamento de proteção individual (EPI) específico;
    • Protocolos caso-a-caso para não interrupção dos tratamentos;
    • Consultas não essenciais por telemedicina;
    • Regras para acompanhantes;
  • Profissionais de Saúde:
    • Formação e utilização de EPIs;
    • Criação de redundância operacional nas equipas: rotações, médicos espelho;
    • Revisão de manuais e normas terapêuticas;
    • Calendário de Testes, incluindo monitorização da aquisição de imunidade;
  • Instituições:
    • Áreas de acolhimento a casos suspeitos;
    • Circuitos Covid e não Covid;
    • Internamentos em áreas separadas Covid e não Covid;
    • Procedimentos diagnósticos e terapêuticos criados para lidar com doentes oncológicos infectados, suspeitos e não infetados;
    • Cirurgia segura.

Hoje, as condições sanitárias mas também clínicas para adequar à nova realidade em que vivemos oferecem todas as garantias possíveis. Enquanto esperamos por uma vacina que pode demorar ou pela aquisição da tal imunidade de grupo, importa não descurar e controlar as outras doenças. Não perder tempo a diagnosticar e em iniciar terapêutica. Sem alarmismos mas usando o tempo a nosso favor.

Existe segurança nos actos médicos para não temer o recurso aos hospitais. Não podemos hipotecar mais as outras doenças não Covid.  A Oncologia não pode esperar …