Texto originalmente publicado pelo portal dos Jesuítas em Portugal, Ponto SJ.

Estas eram as palavras que, todas as manhãs, repetíamos na minha escola. Com a mão sobre o coração, de olhos postos na bandeira nacional, concluíamos o juramento de lealdade como se fosse uma oração: One nation, under God, indivisible, with freedom and justice for all. (“Uma nação, sob Deus e indivisível, com liberdade e justiça para todos”). Hoje, na sequência de mais um período eleitoral extremamente polarizado, pergunto-me: será que deixámos de ser uma nação indivisível? Será que nos tornámos simplesmente em duas fações políticas irreconciliáveis?

Antes deste último período eleitoral, pensava que era impossível que saíssemos ainda mais divididos. Na verdade, não sei se agora estamos mais divididos ou apenas mais conscientes das nossas diferenças; de qualquer modo, as profundas clivagens ideológicas alcançaram um nível ainda mais acentuado em novembro deste ano. À superfície, podemos vê-lo nos números: por exemplo, o voto dos católicos repartiu-se equitativamente entre o Presidente Trump e o Presidente-eleito Biden.

No entanto, se formos para além do que é visível à superfície, percebemos que as pessoas acabaram por render-se a duas narrativas completamente divergentes que atribuem ora o papel de herói a um dos candidatos, ora o papel de vilão ao outro. A parte vilão de ambas as narrativas é frequentemente a mais barulhenta e exagerada; mas, no fim de contas, parece que um dos lados apoia Hitler-incarnado, enquanto o outro lado concorre ao lado de Pol Pot. Por seu lado, os meios de comunicação social – tanto os generalistas como os radicais – são cúmplices em alimentar estas narrativas.

O problema, porém, é que estas narrativas não encaixam muito bem na realidade. Neste momento, os media esforçam-se por explicar como é que é possível que, por exemplo, um terço dos muçulmanos nos Estados Unidos tenha votado num presidente que é, presumivelmente, o mais islamofóbico de que há memória recente. Além disso, cada lado da barricada está sempre disposto a reclamar “falta!” sempre que o seu adversário parece não respeitar as “regras do jogo”. No entanto, o que está realmente em causa é que a linha entre o aceitável e o inaceitável em política está continuamente a mudar, independentemente do lado que sai beneficiado com a mudança.

Como jesuíta norte-americano, temo que esta reconciliação seja impossível. Quando, hoje em dia, uma das fações ganha uma eleição neste país, há a necessidade de se lidar com um lamento, um luto genuíno e autêntico dentro da parte derrotada. Eles estão a sentir o que nós sentimos quando nós perdemos a eleição anterior. No entanto, para muitos, as narrativas polarizadas do herói e do vilão tornaram esse tipo de sensibilidade impossível. Como não nos podemos reconciliar com o diabo, e portanto, se se considera que o outro lado está a votar no diabo, simplesmente a reconciliação mostra-se de todo impossível.

Tenho procurado lidar com a frustração causada por esta polarização, agarrando-me a sinais de esperança. Esta eleição teve a maior percentagem de afluência às urnas desde o ano de 1900. Embora, como faço sempre, tenha votado por correio, fiquei bastante edificado pelo facto de amigos e familiares me terem enviado fotografias suas em longas filas (por causa do distanciamento social), resistindo ao frio e à chuva, de modo a garantir que podiam votar em segurança. Marcou-me igualmente a maior consciência de que a participação é algo mais abrangente do que simplesmente votar: implica o cuidado suficiente para se informar sobre as questões em causa, requer a coragem de discernir entre as diversas opções, e implica gastar tempo e recursos pessoais para sustentar a sua própria posição. Isso representa os Estados Unidos no seu melhor. As pessoas parecem estar a acordar para o facto de que a verdadeira participação política requer muito mais do que um post superficial no Facebook.

Apesar de todos estes sinais de esperança aos quais teimo em agarrar-me, continuo profundamente apreensivo com a possibilidade de reconciliação. Não podemos cair no paradigma de Jacob e Esaú, em que, lutando do ventre ao túmulo, Esaú acaba por ser banido, e reunindo-se com Jacob apenas por “tolerância” superficial no funeral do pai.

Comprometer-me com “uma nação, sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos” é um ideal elevado. Na Encíclica Fratelli Tutti (FT), o Papa Francisco oferece uma advertência séria sobre aquilo a que chama “grandes palavras” como aquelas: “Uma maneira eficaz de dissolver a consciência histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os processos de integração é esvaziar de sentido ou manipular as grandes palavras”, de tal forma que se dobram em “títulos vazios de conteúdo que podem ser usadas para justificar qualquer ação” (FT 14). Unidade, liberdade e justiça são essas “grandes palavras”; aliás, são as grandes palavras americanas. No entanto, Francisco lembra-nos que essas grandes palavras podem ser manipuladas através do uso excessivo de uma retórica exagerada, desanimadora e geradora de desconfiança, que nega ao “outro lado” o direito a ter uma opinião ou até a existir, muitas vezes sob o pretexto da defesa de certos valores (FT 15).

Talvez este possa ser o lugar onde a Igreja Católica nos EUA possa, na sua humildade, ser profética. Se politicamente estamos divididos ao meio, então podemos tornar-nos a comunidade perfeita para praticar o respeito mútuo e o diálogo. Pessoalmente, é-me difícil admitir que posso estar errado, apesar de acreditar que estou certo. Só pela graça de Deus conseguirei chegar a esse ponto. O meu desejo é que alcancemos um ponto de entendimento no qual todos possamos rezar juntos as palavras de Jesus, em João 17, 21: para que todos sejam um. E que ao proferi-las, elas possam significar autenticamente aquilo que rezamos. 

Se preferir ler este artigo na sua versão original, em inglês, clique aqui. (english version)