Nas vésperas da Cimeira do G20, que decorreu este fim-de-semana em Osaka, Vladimir Putin anunciou, no Financial Times, que a “ideia liberal” está obsoleta. O presidente russo conseguiu o que queria: deixar toda a gente num alvoroço a perguntar-se se tem ou não razão.

Putin referia-se à ordem internacional: a teia de instituições internacionais, acordos e regimes transnacionais para regulação de assuntos que dizem respeito a todos, como o comércio internacional ou o clima, e as normas escritas ou subentendidas que regulam as relações entre os estados. Essa ordem foi criada pelos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Não sejamos ingénuos: as “ordens” (houve umas quantas anteriormente) servem os interesses das potências que as criam. Mas também têm que ser suficientemente legítimas e aceitáveis para que um conjunto significativo de estados esteja disposto a subscrevê-las.

Durante a Guerra Fria, a ordem liberal, limitou-se à geografia Ocidental – no sentido lato do termo – mas depois do colapso da União Soviética tentou expandir-se a todos os cantos do mundo. Como se sabe, a democracia, o liberalismo, as liberdades individuais e sociais, a ideia de que os direitos humanos são universais e os mercados livres são os princípios fundamentais que sustentam essa ordem. E Putin até pode ter razão quando à dificuldade de suster agendas transformativas ambiciosas. Mas não pode determinar os valores que cada sociedade subscreve e as associações que os estados fazem entre si.

Vamos por partes. A ordem liberal internacional tem três desafios inéditos à sua frente: (1) as consequências internacionais da sobre expansão; (2) a emergência de estados autoritários que desafiam essa ordem; (3) as profundas mudanças sociais no interior dos estados democráticos que a suportam.

Em primeiro lugar, o fim da Guerra Fria, há três décadas atrás, levou a que a ordem estendesse os seus tentáculos. Sem adversário à vista, os Estados Unidos e os seus aliados (a Europa na linha da frente) transformaram as instituições internacionais em agentes de um liberalismo musculado e expansionista. A tentativa de transformar o mundo à imagem das democracias subscritoras da economia de mercado teve várias consequências, entre elas, a mais polémica, o condicionamento a soberania ao respeito pelos direitos humanos. Trocado por miúdos, estados que não protegessem as suas populações estavam sujeitos a todo o tipo de represálias, entre elas, a possibilidade de intervenção militar alheia.

O princípio é louvável: a restituição dos direitos humanos a quem os perdeu é uma ideia que só pode ser aplaudida. Mas do princípio à prática vai uma grande distância. Não só a Responsabilidade de Proteger não funcionou – é muito difícil impor a paz de fora para dentro, quanto mais regimes políticos alheios às histórias locais – como deixou profundamente desagradados um conjunto alargado de estados, não necessariamente autoritários, que vêm a violação da soberania (o direito que cada estado tem a fazer o que bem entender dentro do seu território) como uma ameaça ao seu próprio interesse nacional. Estados como a Índia ou o Brasil mostraram-se sempre muito relutantes em aceitar esta regra. Já a China e a Rússia expressaram sempre o seu desagrado ruidosamente. Não convinha (nem convém) aos seus regimes políticos e aos dos seus parceiros internacionais, cada vez mais numerosos. E as opiniões públicas ocidentais cansaram-se de tanta guerra para impor a paz, que produziu tantos refugiados que entraram pelas suas fronteiras dentro. E, sejamos francos, estas crises demonstraram que é mais fácil apoiar o direitos humanos dos outros se for lá do outro lado do mundo, do que se estes mesmos direitos forem reclamados nas nossas próprias portas.

O que nos leva ao segundo ponto: além das diversas questões migratórias que deixaram o Ocidente em crises de identidade, outro elemento, celebrado nos anos 1990 como parte integrante da ordem liberal – a globalização – mostrou a sua face mais negra durante a crise económico-financeira que teve início nos EUA em 2008. Ficámos todos a saber que aquele princípio de que o mercado global enriqueceria todos os estados do mundo, e por maioria de razão, todos os habitantes de cada estado, era, afinal um princípio falso. Os mercados deslocalizaram empresas e indústria para os países em vias de desenvolvimento, que lhes traziam maior lucro e, ajudados pelas novas tecnologias e pela automação, esvaziaram de empregos e meios de subsistência uma parte significativa da população dos países desenvolvidos.

Resultado: as sociedades Ocidentais fraturaram-se – de um lado os “esquecidos” e os que temem tornar-se “esquecidos”, de outro os que ganharam com este tipo de regime – sendo que os primeiros passaram preferir votar em partidos e projetos políticos de pendor nacionalista, que lhes devolvessem as fontes de rendimento e os pusessem em primeiro lugar na lista de prioridades políticas. É neste contexto que Donald Trump é eleito. E esta escolha popular marca uma profunda mudança de paradigma nos regimes ocidentais, onde partidos extremistas começam a ganhar um novo peso, e com ele a transformar as políticas dos seus países. Uns suprimindo paulatinamente o liberalismo na vida interna das sociedades, outros transformando a sua política externa, excluindo valores associados à ordem liberal internacional – como o apreço pelo multilateralismo ou o dever de hospitalidade.

Finalmente, a distribuição de poder no mundo está em fase de transformação. Se há cerca de uma década os Estados Unidos eram a única grande potência do sistema internacional, hoje é notória a emergência da China e a crescente importância da Rússia. Ora se são as potências que determinam a ordem internacional e há, pelo menos, dois estados proeminentes que não subscrevem a ordem liberal nos moldes pós 1990, é de esperar que se perfilem revisões das regras do relacionamento entre estados. Pequim e Moscovo preferem (ironicamente como muitos dos novos líderes do Ocidente, com Donald Trump à cabeça) um ordem internacional que reflita os seus valores nacionalistas. Querem que o mundo se norteie pelo princípio da soberania, o equivalente internacional do nacionalismo.

Quer isto dizer que a “ideia liberal” está obsoleta? Não me parece. Apesar das várias crises, muitos dos valores que a suportam são válidos. E é possível a coexistência de mais de um conjunto de valores no sistema internacional – ainda que isso torne o mundo mais instável. Mas para sobreviver, a “ideia liberal” terá que se adaptar aos tempos, o que significa, pelo menos, duas coisas: reaprender a conviver com o nacionalismo (o que não era problemático no passado) e ser mais contida e mais defensiva (o pecado original do liberalismo foi a sua hubris expansionista a partir dos anos 1990). O liberalismo político sempre conviveu harmoniosamente com a soberania quando não a tentou transformar. E este tem de ser o princípio orientador das nossas políticas internacionais.