Dizem Agosto o mês “dos outros”. Ou por definição algo de invivível. Depende. O meu Agosto, resolvi virá-lo ao contrário. Cozi-lhe retalhos de silêncio no avesso, inventei-lhe amáveis distâncias entre mim e o ruído, por entre o frenesim de uma casa sempre cheia, das sobressaltadas obrigações estivais, das multidões suadas das praias. Com a vida fui aprendendo que nos competem distâncias e silêncios, mas com o passar do tempo sobre eles fui adivinhando que pode ser a voz de Deus que também os mobila.

Talvez me tenha voltado a acontecer isso, este Agosto.

1. Primeiro há o inconfundível silêncio do início do dia. Feito de grato emudecimento, na praia, quando a manhã ainda quase se confunde com a madrugada no areal liso á minha frente, imaculado de sinais e virgem de vida, qualquer que ela seja. A não ser o Atlântico, a essa hora ainda coberto de bruma, outras vezes já se despedaçando em espuma e vento. Quando o mar começa devagarinho a subir nas vazias dunas da “aberta”, construindo praias de areia que num mesmo dia são capazes de nascer e morrer, encenadas pela geografia das marés. Ou quando por vezes, sentada na areia, dou comigo olhando ao longe a silhueta do poeta – pescador de robalos, estampada na esquina da lagoa com o mar, e lembro-me da “Senhora das Tempestades” que um dia o poeta ali mesmo compôs (e haveria melhor inspiração e haveria outro cenário?)

O silêncio do princípio de tudo que partilho com a maresia que se desprende do ar salgado. E com as ondas que estão à minha espera, com a certeza antecipada que irei ter com elas.

2. O silêncio do júbilo. Acontece à tarde, no campo, em quase todo o Agosto costumo morar no campo. Há uma quentura espessa no ar, a terra possui o cheiro acre do calor, as folhas estalam sob o andar, conheço solitariamente cada árvore e cada curva do caminho, os canaviais, o fio ressequido do rio, os muros debruados a hortenses, os portões das casas, o rumor alto dos eucaliptos, o cheiro a malva rosa, o desenho das colinas ao longe, a ponte que já não é de madeira porque agora fizeram uma barragem e por cima dela nasceu uma ponte “verdadeira”.

Lembro-me do outro poeta que também gostava destas paragens e “esperava pelo Verão como por outra vida” como eu também sempre esperei. (e todos os anos por esta altura vou ter com ele e com este seu poema).

A exaltação dos sentidos no verão, a festa da vida no Verão, a seiva da “única estação”, como lhe chamava Ruy Belo. Nesse momento em que as horas e os dias escorrem na sua inteira e intacta plenitude, porque cada uma dessas horas e cada um desses dias tem a exacta duração do tempo de que são feitos. Não se afogam em pressas, não se retalham em rotinas, nada os rouba, nada atraiçoa a sua duração real. A natureza deixa-os fluir como são.

Por detrás deles volto outra vez a ouvir a voz de Deus que Ruy Belo também ouvia.

3. O ocaso do dia antecipa as despedidas. A luz esmorece no fim do horizonte, a lua é um longínquo ponto brilhante que subitamente cresce e ganha forma, uma harmonia doce envolve as searas e os corpos. Os passos tornam-se menos vigorosos e os gestos mais dolentes, há um vagar crepuscular que se estende sobre as coisas. Como se a vida preferisse esconder-se dentro do silêncio sussurrado que nos anunciou a chegada da noite e subitamente ambas, a vida e a noite se fundissem numa só.

4. O longo, misterioso hino que no Verão costuma ouvir-se no campo, à noite. Quando o seu véu cai sobre o jardim, onde as copas das árvores já se fecharam, cobertas pelo manto das estrelas. A noite “antiquíssima e idêntica” do terceiro poeta. Ao longe, ouve-se o riso das rãs, o rastejar das lagartixas na cal dos tanques, ainda enlouquecidas pelo calor, os grilos à roda da casa, o latido dos cães que se juntam ao relento porque é Verão. Depois, no escuro amaciado pelo brilho da lua, a noite organiza-se sobre os povoados já adormecidos e os habitantes desta paisagem nocturna começam então a dançar a sua valsa.

5. Um dia, quando doce ou dolorosa já era passada muita vida, percebi que a voz de Deus por de trás de cada um destes andamentos tornava porventura mais apetecida a “única estação” em cada uma das ilhas que construo em Agosto. No fogo das manhãs,no ocaso das tardes, na brisa quieta do anoitecer.

E, foi isso, lembrei-me da felicidade (seria isto?) e agradeci -LHE tudo: os dias e as noites, a claridade e o crepúsculo, o tamanho azul do oceano, o calor, os caminhos de terra, a cor das flores, os sons do campo. O verão. Uma partitura que se poderia chamar Agosto. Outro Agosto. O da “única estação”.