O estado de emergência, decretado em resposta à pandemia, trouxe, em defesa da saúde pública, restrições à vida social e económica e também à vida religiosa, na vertente comunitária e de relacionamento presencial. Este quadro foi, agora, prolongado pelo estado de calamidade.

As restrições à liberdade de culto foram dialogadas entre o Estado e os responsáveis das confissões religiosas, entre as quais a hierarquia da Igreja Católica. Foram também inteiramente assumidas por estas, o que nos conforta como cristãos católicos, pois só os nossos bispos – e, claro, o Papa – podem dar orientações e instruções válidas sobre o que quer que seja que respeite ao funcionamento e à acção da Igreja, dos seus servidores e do seu povo.

Antes ainda do estado de emergência, decretado a 18 de Março, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) emitiu o Comunicado de 13 de Março, em que publicou: “Em consonância com as indicações do Governo e das autoridades de saúde, a Conferência Episcopal Portuguesa determina que os sacerdotes suspendam a celebração comunitária da Santa Missa até ser superada a atual situação de emergência. Também devem seguir-se as indicações diocesanas referentes a outros sacramentos e atos de culto, bem como à suspensão de catequeses e reuniões. Estas medidas devem ser complementadas com as possíveis ofertas celebrativas na televisão, rádio e internet. Permaneçamos em oração pessoal e familiar, biblicamente alimentada, confiados na graça divina e na boa vontade de todos.” Foram-se seguindo outros comunicados e declarações, informando os católicos das regras e orientações para esta difícil travessia. O último acto foi o Comunicado da CEP de 2 de Maio, que nos transmitiu directrizes a seguir, no entretanto e no futuro, e que “a retomada gradual das celebrações comunitárias da Eucaristia, já anunciada pelo Governo, deverá iniciar-se, em princípio, a 30 maio, véspera da Solenidade do Pentecostes”, dependendo ainda a certeza desta data da “avaliação que o Governo se propõe fazer da situação, nesta primeira etapa do desconfinamento”.

Pela nobreza e prontidão da decisão inicial, tenho muito orgulho na Igreja a que pertenço e enorme gratidão a Deus pelos meus bispos. Fui-a reforçando pela forma como a Igreja orientou e tem conduzido os católicos portugueses nesta difícil e problemática travessia. Muitas vezes, nas lutas civis do nosso tempo, discutimos a coragem dos nossos bispos e a assertividade carismática dos pastores. É normal que, em transe tão difícil e tão potencialmente divisivo quanto este, em razão das relações com o poder do Estado, a questão se colocasse no espírito de muitos e na palavra discordante de alguns. Nunca seria doutro modo.

Não tenho a mais pequena dúvida. Os nossos bispos, os bispos da Igreja Católica, deram uma extraordinária demonstração de coragem e sabedoria, ao tomarem a decisão mais difícil e mais necessária que tinham de tomar, face à gravidade da situação sanitária e aos seus perigos: suspender a celebração comunitária da Santa Missa até que a situação de crise passe ou, ao menos, se alivie o suficiente. É um gesto raríssimo de coragem pastoral. Não o fizeram para obedecer ao Estado, mas unicamente por amor a Deus e ao Seu povo, como é a responsabilidade e o serviço dos pastores.

Reforcei, ainda mais, a seguir ao 1º de Maio, a minha admiração pela coragem exemplar do episcopado português nesta crise. Foi muito lamentável que decisões infelizes de políticos tivessem aberto, ainda dentro da vigência mais apertada do estado de emergência, um quadro de privilégio para a celebração parlamentar do 25 de Abril e a comemoração sindical, na rua, do 1.º de Maio. Tive ocasião de o criticar na altura, chamando a atenção para os sentimentos que isso iria provocar, quebrando a paz da emergência. A crítica nada tinha a ver com as datas – podiam ser outras quaisquer. Tinha a ver com o período muito exigente que vivíamos e os deveres públicos imperativos da igualdade e do exemplo. Em tempos excepcionais, não há excepções. Aquelas decisões políticas evidenciaram, aos olhos da população, discriminação e desigualdade flagrantes. Isto não facilitou a dirigentes responsáveis em diversas áreas as tarefas de condução de comportamentos sociais. Criou, para mais na proximidade da peregrinação do 13 de Maio, um clima de indignação e contestação entre católicos, clamando “também queremos”. O Comunicado de 2 de Maio, sereno e objectivo, confirmou a coragem e sabedoria da orientação pastoral e foi um grande bem para todos.

Compreende-se a indignação de muitos e a vontade de ter de volta, aquilo de que cristãos se sentem injustamente privados.  O vírus é realmente injusto e não olha a quem – chega até a matar. O facto de criticarmos a discriminação que foi feita para agradar a uns não justifica que reclamemos, para nós, o direito de repetir o mesmo mal. O risco que fizeram correr fica unicamente com eles; e a desigualdade em que se investiram, também. A Igreja Católica tinha de manter – e manteve – a linha definida para defesa do seu povo e bem de toda a comunidade. Graças a Deus.

Há, entre católicos, alguns Tarzans. Há-os em todo o lado; por que não haveria nos católicos? São Tarzans, aqueles que acham que o mal só acontece aos outros, que fervilham em cultura constante de desafio, que, saindo da religião e escorregando na superstição, asseguram que nada nos acontece e Deus de todos os riscos protege. A voz dos Tarzans, populista, por vezes seduz. É imprudente; e, quando empurra os outros para o risco estúpido, é irresponsável. Sorte da Igreja cujos pastores a afastam.

Sobre a Covid-19 e sua floresta de números, cruzam-se as diversas opiniões. Mas há sempre os factos. No dia 3 de Março, o dia em que tivemos o nosso primeiro caso, havia no mundo inteiro 93.077 infectados – destes, 80.380 eram na China, onde a pandemia se iniciara dois meses antes. Hoje, outros dois meses volvidos e apesar de todas as medidas aplicadas para contenção e protecção, o mundo conta com 4.178.154 infectados, de que 82.901 são na China (dados de 10 de Maio). Passámos de 93 mil a mais de quatro milhões e a crise deixou de ser um acontecimento chinês para crescer como pandemia global. Imaginemos o que seria sem as medidas. No mesmo 3 de Março, havia no mundo 3.202 mortes pela Covid, de que 2.983 foram na China. A 10 de Maio, os mortos por este mal já eram 283.734 no mundo, sendo 4.633 na China – ou seja, 3.000 mortes nos primeiros dois meses, 280.000 mortes nos dois seguintes. Como seria sem as medidas? A facilidade e a rapidez de contágio deste novo vírus e a significativa letalidade que provoca, muito concentrada no tempo e concentrada também nos mais idosos, não deixa dúvidas a quem tenha boa fé, boa ciência e bom senso.

O que diríamos nós de nós próprios se celebrações comunitárias da Santa Missa fossem ambiente de contágio e os casos aí acontecessem e se repetissem? O que diríamos nós dos nossos pastores se pessoas falecessem, como consequência desses contágios? O que diríamos se as vítimas fossem os nossos idosos, que tivéssemos acedido a acompanhar a circunstâncias de risco ou tivéssemos sido nós a arrastá-los para isso? Como reagiríamos se igrejas nossas se tornassem pólos de cadeias de transmissão e, nalguma ou nalgumas, tivessem de entrar as brigadas de desinfecção? O que diria o resto da comunidade do comportamento e das responsabilidades dos católicos, quer pelo mal que a si próprios fizessem, quer pelo mal que transmitissem a outros? O vírus não escolhe fé, crença ou cor. Em que situação estaríamos hoje? E onde estariam, nessa altura, os Tarzans?

Enorme seria a nossa responsabilidade, se, apesar de bem informada pelos médicos e pela experiência internacional, a hierarquia decidisse mal e não cuidasse do bem do seu povo e da comunidade portuguesa em geral. Neste 13 de Maio, cabe lembrar que os Santos pastorinhos Jacinta e Francisco, morreram, ainda crianças, depois de, passado um ano sobre as aparições que testemunharam, adoecerem com a “gripe espanhola” que grassou pelo mundo e atingiu também Portugal – foi a Covid desse tempo, muito mais letal.

Guardo gratidão a Deus por todo o clero e, em particular, o Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente e o Cardeal D. António Marto, este com relação às celebrações de Fátima, aquele como Presidente da CEP. Considero admirável a acção em geral de todo o episcopado e de todo o clero, na resposta às várias contingências postas por esta travessia inesperada, pela dedicação às suas responsabilidades eclesiais e sociais, pelo acompanhamento dos fiéis, pela imaginação e rapidez tecnológica com que multiplicaram por todo o país a transmissão da Santa Missa, todos os dias, aos horários mais diferenciados, pelo Facebook, YouTube, ou outras plataformas electrónicas, a partir de incontáveis igrejas paroquiais ou de outros centros religiosos, fazendo explodir e chegar a todo o lado a riqueza e a variedade da Palavra. A crise lega-nos, pela necessidade, um assombroso salto tecnológico de décadas, pondo ao serviço pastoral novos instrumentos de evangelização e de relacionamento comunitário, a acrescer a todos os meios presenciais que irão voltar em pleno. A quantos mais iremos poder chegar? E eles a nós?

Nós, católicos, em vez de resvalarmos para a lamúria, devemos acompanhar os nossos sacerdotes e ajudar a socorrer os que estão em maiores dificuldades. Os centros paroquiais, pela quebra de movimento humano, têm enfrentado apertos muito difíceis. Algumas linhas de apoio social colapsaram, porque, asseguradas em boa parte por reformados em voluntariado, viram-se sem recursos humanos. Tem havido também que responder a isto, acrescendo aos muitos casos de quebra abrupta do rendimento de famílias e indivíduos que aumentou, por exemplo, a pressão sobre o Banco Alimentar, a um ponto que nunca acontecera. A nossa solicitude individual e o nosso sentido de compromisso social são indispensáveis. Estamos a ser chamados todos os dias, como pessoas e como católicos. Essa é outra forma, nesta travessia dura e exigente, de celebrarmos de forma comunitária a Santa Missa, em ofertório e em comunhão.

Claro que nada substitui a missa na igreja, Foi decisão dorida, a dos bispos: “Comungamos do sofrimento de tantos cristãos privados da participação efetiva na celebração sacramental da Eucaristia, cume e centro da vida cristã, na esperança de um mais rápido reinício das celebrações comunitárias da Eucaristia, fonte da nossa alegria pascal” – lê-se no Comunicado de 2 de Maio. Mas a Esperança é uma das três virtudes teologais. E precisamos de mobilizar também as virtudes cristãs da paciência e da perseverança, como escreveu S. Paulo: “Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração.” (Romanos 12:12)

É sempre tempo de olharmos para a frente. Se a pandemia não provocar novos tropeços, iremos viver uma formidável coincidência única: o Domingo de Pentecostes (e seu sábado vespertino) é como se fosse também Domingo de Páscoa, que nos foi absorvido no deserto desta travessia, sem a alegria comunitária que é própria. Temos tido uma Quaresma mais prolongada, que ainda não acabou. Reencontraremos pessoalmente Cristo ressuscitado, no mesmo dia da descida do Espírito Santo. Temos em perspectiva, no horizonte, uma celebração trinitária singular, como sempre fazemos, mas, neste fantástico e único fim de Maio, com um intensíssimo sabor pascal, no reencontro festivo das nossas comunidades.

E, neste 13 de Maio, iremos ter talvez imagens que replicarão, no Santuário de Fátima, visão semelhante à que tivemos quando o Papa Francisco, naquela noite de 27 de Março, rezou sozinho pela Humanidade, na Praça de S. Pedro totalmente vazia de gente. No EXPRESSO, na sua crónica de 4 de Abril, Miguel Sousa Tavares escreveu: “Sozinho na Praça de São Pedro deserta, o Papa percorre a imensa superfície apenas acompanhado por dois acólitos até um cadeirão montado sobre um palco, virado para a invisível multidão de fiéis. Então, começa a falar-lhes, como se eles estivessem ali a escutá-lo. De todas as impressionantes imagens que tenho visto nestes dias, esta foi a que mais me marcou e que, estou certo, guardarei para sempre, sobrevivendo à memória destes tempos de pesadelo. “Pai, Pai, porque nos abandonaste?”, pareceu-me ouvir Francisco gritar no silêncio daquela praça, que nenhum Papa e nenhum outro homem escutara antes dele. Os deuses abandonaram os seus crentes. Só a ciência — os médicos, os enfermeiros, os cientistas, os investigadores — pode salvar a Humanidade, não a fé. Até disso se fez prova agora.”

Não estou nada de acordo. A não ser com que guardarei também para sempre essas imagens, pela sua força espiritual, pela força ímpar da sua interpelação, pela sua intensa beleza. Nunca um escritor, nunca um cineasta se lembrou de uma cena assim. Nem lembraria. Foi preciso Francisco fazê-lo, no contexto duríssimo desta pandemia.

O Papa não esteve ali a perguntar a Deus por que nos abandonara, porque justamente Ele estava ali. Naquele vazio enorme, era Deus que estava e foi com Ele que o Papa falou e rezou. Uma vez, no meio dos intensos debates europeus sobre o preâmbulo da Constituição Europeia, o João César das Neves, em conversa, acalmou a minha indignação por quererem apagar as raízes cristãs da Europa. Lembrou-me que o silêncio fala e o vazio grita. Quando eu lhe referia que o preâmbulo saltava, directo, do Império Romano para o Iluminismo, voando por cima de séculos de riquíssima História europeia e cristã, lembrou que era como o sepulcro de Cristo: os discípulos souberam que tinha ressuscitado, porque estava vazio. Era bom pôr no preâmbulo o que faltava; mas o apagamento já tinha feito mais por que se soubesse do que se lá estivesse tudo escrito. É verdade. O João César das Neves tinha razão. Foi mesmo assim que aconteceu. O vazio fala. E chega a gritar. Até os cegos vêem e os surdos ouvem.

Todos sabemos que Deus nunca nos abandona – nós é que O podemos abandonar. Sabêmo-lo, os que sabemos que Deus existe e como existe. Sabem-no também os que não acreditam, porque ninguém pode ser abandonado por quem não acredita. Deus também está nos médicos, enfermeiros, cientistas, investigadores, cuidadores. Deus esteve bem presente ali, na Praça de S. Pedro, inspirando Francisco, iluminando-nos por seu intermédio, mostrando-se ao nosso lado, salvando-nos com o Seu caminho. Foi um dos momentos mais notáveis deste pontificado e, pela sua absoluta singularidade, um dos momentos mais luminosos da História da Igreja. O vazio fala-nos. O vazio também é a casa de Deus. É isso, afinal, o que todos sentimos quando entramos numa igreja vazia ou quase vazia, para rezarmos, meditarmos e, na solidão do nosso coração, falarmos em silêncio. Quem está lá? Deus. Sempre à nossa espera. Nunca nos abandona.

Em Fátima, será assim, nestes 12 e 13 de Maio de hoje e amanhã. Deus está sempre lá. Nossa Senhora também. Os nossos olhos sabem-no sempre, quando se ouvem os cânticos que nos chamam. Temos o direito, o gosto e a necessidade espiritual de lá voltar. Iremos fazê-lo. Devemos pôr o espírito e o olhar no primeiro dia 13 em que estas restrições já não forem necessárias e não mais se impuserem. Faremos da primeira peregrinação sem restrições desse dia 13 por vir uma outra Páscoa, além da próxima de Pentecostes. Esse reencontro dos peregrinos em Fátima, sendo uma celebração mariana, terá um renovado sabor pascal. É aquilo de que todos precisaremos quando esta crise acabar e tivermos de vencer muitas dificuldades: espírito pascal, confiança e alegria de recomeço, para nos animarmos e a nossas famílias e todos ajudarmos Portugal, a Europa e o mundo.