Uma escola de Barcelona retirou 30% dos livros da sua biblioteca porque os considera tóxicos e sexistas. Por isso mesmo, as histórias d’A Bela Adormecida e d’o Capuchinho Vermelho foram proscritas. E o mais grave é que esta onda populista não parece parar. Sendo assim, se ela for para levar por diante, proponho que se elimine, também, o Asterix, porque se a mãe do Obelix não fosse (perigosamente!) distraída ela não teria caído na poção. E O Pequeno Polegar. Porque é um exemplo inquietante de negligência dos pais. E A Cinderela, porque não há fadas-madrinha a transformar abóboras em coches. E A Branca de Neve porque fala da morte como se fosse um sono profundo. E João e Maria, que parecem ser quase um incentivo ao abuso.

E todas as histórias em que as madrastas são más porque, na verdade, enviesam as crianças para as considerarem da família das bruxas e nunca como “segundas mães”. E aquelas em que o pai é omisso, ausente ou negligente, porque isso não faz justiça à função de pai. E aquelas em que as crianças têm amigos adultos, com quem fazem viagens sem o conhecimento dos pais, como, por exemplo, o Tintim. E todas as outras em que os conteúdos originais são violentos como, por exemplo, muitas das histórias dos Irmãos Grimm. E outras onde jovens incautas se encantam por animais que falam (como A Bela e o Monstro). E as outras que parecem estigmatizar algumas deficiências físicas e acentuar alguns “amores impossíveis”, como O Corcunda de Notre Dame. E A Flauta Mágica que é, como se sabe, um incentivo perigoso à omnipotência da música. E algumas histórias mais que “entranham”, nas cabeças das crianças, pataranhas quando lhes falam de entidades sobrenaturais como fadas e fantasmas.

E, não se esqueçam, há, também, a sugestão para que se eliminem as histórias em que os animais vejam o seu “bom nome” posto em questão. E eliminem as histórias de príncipes e de princesas porque as monarquias, ao que consta, já tiveram os seus dias. E, já agora, acabem, também, com o Pai Natal que, como se sabe, não compra os brinquedos às crianças até porque não consta que haja qualquer revisão em alta do Fundo Monetário Internacional a propósito do crescimento económico do “País do Natal”. E esta ideia de Deus que, teimosamente, persiste em todos os povos, e que, tirando a fé de quem acredita, não tem uma identidade jurídica que comprove a sua existência. E todas as outras personagens que, duma forma ou doutra, influenciem as crianças nos seus juízos e no seu crescimento. E eliminem-nas enquanto, ao mesmo tempo, clamam contra a censura!

E, depois de se eliminarem todas as histórias (que, pelos vistos, não terão sido tão tóxicas como se diz a ponto de o mundo ter vindo a crescer para se tornar mais justo e, também, melhor) fiquemo-nos pelos factos. Fora de qualquer influência do que há de simbólico na “natureza humana”. Mas, por favor, antes, vejam o autor que escreveu Factfulness, Hans Rosling. Que, a propósito da perplexidade de, por mais que as coisas estejam melhores do que pensamos, as pessoas as acharem sempre piores, avança: “Percebi que o problema não poderia ser apenas as pessoas não terem conhecimento, porque isso resultaria em respostas aleatoriamente incorrectas — respostas de chimpanzé — em vez do que pior do que aleatórias, pior do que as dos chimpanzés, [as respostas das pessoas] pareciam ser sistematicamente erradas. Apenas um ‘conhecimento’ activamente errado poderá levar-nos a errar tanto”.

E escolham, por favor. Se quiserem ser populistas, sejam! Mas não o façam em nome dos direitos das crianças. Porque me parece que se estão a esquecer do seu pensamento crítico. E da forma como são os exemplos dos pais que as tornam mais capazes de serem quem são. E porque já não há paciência para um mundo que, em nome dos direitos que elas têm, as usa para atentar contra as histórias (que é o mesmo que dizer que deixa a infância para trás)!

Mas antes de eliminarem tudo o que for presumivelmente tóxico para as crianças, parem. Por um minuto. E não se esqueçam: os chimpanzés não contam histórias!