Fui cientista no Instituto Gulbenkian de Ciência, na Universidade de Cambridge e no Instituto de Biologia Molecular e Celular do Porto. Fiz um doutoramento em Virologia (na Universidade de Cambridge).

Um cientista alimenta-se da dúvida e dos problemas. A procura do desconhecido e a desconstrução do problema dão lugar à investigação que, por sua vez, normalmente, dão lugar a mais dúvidas, mais problemas e nuances. Um cientista não prova nem afirma. Um cientista pergunta, experimenta, observa, interpreta e discute. Um cientista que “sabe” é arrogante, um cientista que questiona e duvida é metódico e cauteloso. E assim deve ser, pois aprendemos rapidamente que mesmo “a verdade mais absoluta” pode ser questionada e incorreta. O cientista treina a sua comunicação com outros cientistas e muito raramente com o público geral. São coisas muito distintas.

A pandemia Covid-19 trouxe cientistas para a comunicação social com uma frequência e tempo de antena sem precedentes. A maior parte dos cientistas continua a falar com o público em geral como se falasse com os seus colegas. Isto cria um problema, pois os não cientistas não procuram alimentar as suas dúvidas, pois essa não é a sua profissão. Eles procuram obter respostas para acalmar a inquietação e ansiedade que este cenário de pandemia coloca.

Em conversa com amigos apercebo-me que têm dificuldade em entender alguns conceitos que tento passar e que são constantemente expostos a informação confusa ou contraditória, ou focam-se em pequenas nuances da comunicação social e tomam-na como prioritária. Faz falta uma comunicação clara e fundamentada.

O exemplo mais recente das notícias, que dão conta que o nível dos anticorpos anti-SARS-Cov-2 têm tendência a diminuir na circulação sanguínea dos indivíduos recuperados de Covid-19, demonstra, na minha opinião, o fosso que existe entre não-cientistas e cientistas – mesmo de um reputado jornal como o The Guardian. Neste caso específico, os cientistas e jornalistas colocam logo a possibilidade de que a vacina não funcione e que o risco de reinfeção é elevado. Na minha opinião, esse cenário é menos provável e pouco útil para a discussão geral e apenas serve para alimentar o medo de uma população já amedrontada. Devia ser reservado para a discussão entre cientistas.

O sistema imunológico humano é extremamente complexo e com inúmeros mecanismos desconhecidos. Por vezes, é também imprevisível e até contra-intuitivo. É normal que um cientista seja muito cauteloso nas afirmações que faz, relativamente à resposta imunológica duradora contra o SARS-Cov-2, mas podemos simplificar imenso “a história” para a população geral. A verdade é que com mais de 40 milhões de casos diagnosticados até hoje, não tem sido fácil encontrar casos de reinfeção. Para além disso, tanto a infeção como a vacina resultam numa resposta imunológica competente, resultando na produção de anticorpos específicos contra SARS-Cov-2 – e aqui está um bom exemplo de comunicação científica para o público.

Podemos dizer à população que, apesar de observarmos uma diminuição do nível de anticorpos em circulação, é provável que exista uma resposta imune duradora.

Essa resposta imune duradoura pode ser conseguida através de células de memória B e T que são extremamente difíceis de quantificar no ser humano, mas que podem ser recrutadas em caso de reinfeção, multiplicando-se e produzindo anticorpos de novo.

Observamos, no entanto, muitas questões postas por parte dos cientistas que o público em geral não é capaz de filtrar e gerir. Os media retiram também, habitualmente, alguma informação do contexto, procurando os “clickbaits“.

Aproveito para clarificar que o SARS-Cov2 tornar-se-á endémico pois, tal como o vírus da gripe, sofre mutações, permitindo circular entre a espécie humana indefinidamente. Não quer dizer que irá constituir um perigo constante, pois mesmo que a resposta imune contra novas variantes de SARS-Cov-2 seja sub-ótima, será, presumivelmente, suficiente para atenuar os sintomas. Ou seja, a ideia em vigor é que a infeção e a vacinação resultam na proteção contra a Covid-19.