1. Primeiro foi uma curiosidade, hoje é um embaraço. Já me acontece hesitar quando ouço o telemóvel cor de morango: respondo? Atendo num canto onde não me vejam? O caso é que o tal aparelho remonta, mais ano menos ano, à descoberta do Brasil. Ou é como se remontasse. É antigo, conflitua gritantemente com qualquer modelo, não faz habilidades, não fala comigo, não toca música, não tira fotografias ,não recebe “imagens”, não manda mails, não lê os que me mandam. O céu, em suma. “Então para que serve? “ouço continuamente. “Serve para o que eu quero que ele sirva, fazer chamadas e ouvir as que recebo”. É evidente que a preguiça, a não vontade de comprar um aparelho telefónico multiusos capaz de me ligar instantaneamente às “notícias” e num ápice a qualquer parte do mundo, ou o meu fastio face a um objecto enfeitado de factos&fotos e outras fantasias avulsas a que os seus felizes portadores chamam de “gadgets”, é em si um sinal de desfasamento com o ar do tempo. Uma dessintonia com a marca dos dias. Sucede que reconhecendo embora ( e como não? ) as inumeráveis vantagens do progresso tecnológico e o útil galope informático, acho que há mais vida além de estar conectado.

2. Quando entro no metro, seja manhã cedo, meio dia ou quatro da tarde, oito em cada dez pessoas estão numa relação íntima com o seu telemóvel. Íntima, ansiosa e dependente. As outras duas lêem (quase sempre um livro, raramente um jornal).

Toda a viagem, breve ou longa, se passa num misto de enlevo e exaltação (é conforme) com o que se passa dentro dos respectivos telemóveis. Estão conectadas, logo respiram. Há quem fale mil oitavas acima do seu tom normal, como se o gesto de atender um telefone catapultasse automaticamente a voz humana para descontrolados decibéis. Há quem sussurre, quem se enleve, quem se zangue, quem faça mímica sem se dar conta, quem tome a decisão da sua vida, quem comece um grande amor ou faça uma ruptura abrupta. Há quase tudo. Ou tudo, melhor dizendo. O que estranho — estranho mesmo – é a necessidade desta brutal exposição. Que irrompe como um mecânico impulso. Vemo-lo em acção (ao impulso) na rua, no autocarro, num jardim público, numa loja, no emprego, num restaurante, numa praia, na missa, na escola.

Omnipresente e convulsivo. A mera utilidade de um telefone — como um aspirador ou um frigorífico – virou um vício. Dá que pensar.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

3. Deixei de poder contar o que quer que fosse, a quem quer que fosse: “já sabiam”. Tinham visto no “youtube”. Eram “amigos” ou eram eles próprios os amigos dos “amigos” (nem sequer percebo bem o que eu própria estou a escrever, tão alheio me é este mundo). Os meus netos falam-me de youtubers, bloguers, instagramers ou influencers como eu poderia falar de alguém muito próximo que fizesse parte do meu mundo privado: falam-me com intimidade e indispensabilidade. Há dias, em Londres (onde vive essa prole), uma jovem celebridade desse novo mundo atravessou uma rua ao mesmo tempo que eles. O trânsito quase parou, a celebridade tinha para cima de uma multidão de “seguidores”. Se eu já entrevira que estava fora de jogo, fiquei com a certeza.

Não caibo nessa animadíssima, poderosíssima, perigosíssima sub-cave que parece reger o mundo. As emoções rege certamente, para não dizer as próprias vidas. Não gostaria que a minha fosse determinada, manipulada ou capturada pela sub cave. Não digo a expressão com desprezo, longe disso, ela apenas manifesta a tal estranheza face a um mundo que circula, muitas vezes anonimamente mas sempre com estarrecedora agilidade e igual avidez, por de baixo, ao lado, á roda, daquele onde me movo. E entre um — o conectado — que parece derreter de exuberante felicidade os demais seres humanos e o outro, desconectado, comedido e solitário, a distância leva-me a concluir que o erro é meu, embora eu preferisse dizer relutância. Ou seja: o “erro” chamemos-lhe assim, provém de minha (inultrapassável?) relutância em expor-me numa montra. Em ter lá lugar, ocupação,”amigos” e vida.

Deve ser isso estar fora de jogo. Deste jogo, cujos circuitos são aliás por vezes tóxicos.

4. Não faltam (taxativos) argumentos sobre as infinitas bondades e insubstituíveis vantagens da montra – para a profissão que se têm, para o negócio em mãos, para conhecer gente, fazer amigos, passar a cozinhar melhor ou aprender a dançar. Não duvido. Ainda bem. Por qualquer razão porém, nunca senti a falta da conexão non stop nem das vantagem que o estar na montra supostamente traz. Deveria interrogar-me, escrutinar-me, procurar um psicólogo? Estes desabafos serão, concedo, o cúmulo do reacionarismo. Paciência. As coisas são o que são. O meu fastio informático/tecnológico também é o que é.

5. E se cada vez mais tudo se passa vertiginosamente através dessa coisa glacial que é a superfície branca de um écran de computador ou do pequeno visor de um telemóvel, que resta do contar? Do conversar com alguém, face a face, lado a lado? Dessa coisa absolutamente formidável que é o comunicar físico, concreto? Que resta do gesto e do sorriso? Do verbo falado e não clicado? Dir-me-ão que a tecnologia não impede o “ao vivo” e eu direi que não impede porque já quase o substituiu. A vertigem de um aniquila a necessidade do outro.

Não se pode contar uma boa história, os ouvidos caíram em desuso; é quase esquisito perguntar por alguém, a resposta está no Facebook. Não se pode dar uma boa noticia — ou sequer uma noticia – contar uma história, avisar de um filme, recomendar um livro, relatar um episódio prosaico ou maravilhoso: já estão na montra. Até o prazer alegre de um reencontro com alguém que não víamos há muito é logo curto-circuitado: “não sabias? Mas pus no meu Facebook”.

6. E a “partilha”? Outro imperativo e também compulsivo. Não se chega a quase nenhum lugar hoje — seja ele de que natureza for, publico ou privado, institucional ou reservado — que não haja alguém a tirar selfies (outro tique) quase sempre com aparato e sempre com velocidade: é preciso tirá-las mas logo a seguir é imperiosamente preciso “partilhá-las”.

Uma colega espanhola que aprecio dava conta, em recente crónica, da estranheza que lhe provocara um almoço com uma jovem “millenial” (geração que nasceu com o século e acha que manda no mundo). Com desarmante franqueza a sua interlocutora garantia-lhe que de nada lhe interessava um belo pôr de sol, uma boa noticia, uma feliz viagem, uma descoberta, ou a bem dizer fosse o que fosse, se de imediato não pudesse tirar uma selfie, clicar e “partilhar” esse momento. A substância não era o momento vivido mas a sua instantânea partiha com uma plateia sem rosto e com “seguidores” sem nomes. Tudo menos guardar esse instante para si, saboreando interiormente a sua beleza ou singulariedade ou sequer comunicando-as com palavras e gestos a um qualquer alguém. Nada a fazer, esta aí uma cartilha universal feita de (estupidificantes) sinais ou abreviaturas que pulverizam qualquer escrita. Mas que importância desaprender de escrever (e de pensar) ao pé de um”click”, poderoso e instantâneo? Não estamos nós conectados?

Alguns lugares públicos, hotéis, restaurantes, lojas, escaparates, montras, ateliers são hoje cuidadosamente tratados como um cenários, antes do mais. Encenados para ficar bem nas selfies. Tendo-se a sua prática tornado compulsiva e a sua necessidade visceral, há que jogar na antecipação, bolar o melhor enquadramento, apostar no melhor efeito.

Tem sido um êxito, segundo me contam.

7. Resta-me a consolação de não estar fora de jogo da cabeça. (Mesmo que possa parecer).

PS: À hora a que escrevo, e embora anteveja o desfecho, ignoro o correr do debate parlamentar de hoje. Como cidadã junto porém a minha voz á do CDS, deixando aqui um aplauso, uma concordância e um estimulo pela iniciativa da moção de censura ao governo.