O maior desafio imediato para Guterres, como Secretário Geral das Nações Unidas, será o controlo das expectativas. O poder do SG é limitado mas a sua principal função é muito ambiciosa, talvez demasiado: contribuir para manter a paz no mundo. Para um político a assimetria entre o poder e a função, sobretudo quando é desfavorável ao primeiro, constitui sempre um enorme desafio. Por isso mesmo, convém controlar e limitar as expectativas sobre o que Guterres poderá fazer. Por exemplo, pedir a Guterres que resolva a crise dos refugiados apenas aumenta as expectativas de um modo irrealista. Nenhum político o conseguirá fazer e nem sequer compete ao SG da ONU fazê-lo, como de resto Guterres bem sabe.

Nos primeiros tempos nas suas novas funções, o principal objectivo para Guterres será preservar a autoridade que conquistou durante o processo de candidatura. O antigo PM português mostrou que era claramente o melhor e o mais bem preparado entre todos os candidatos. Por isso, merecidamente, ganhou (gostaria de deixar igualmente uma nota de elogio à diplomacia portuguesa, sobretudo ao embaixador português na ONU, Mendonça e Moura). Apesar do desempenho de Guterres em todas as audições, assistimos ao lançamento de uma candidata à última da hora, a comissária Georgieva, para travar Guterres. Esta tentativa revelou divisões europeias interessantes.

Em primeiro lugar, a França e o Reino Unido juntaram-se para impedir o triunfo da ‘candidata alemã’, Georgieva. Londres e Paris colocaram Berlim no seu lugar. Pode mandar na União Europeia, mas na ONU são os britânicos e os franceses que representam a Europa. Neste sentido, Guterres terá beneficiado do apoio alemão a Georgieva. A Comissão Europeia também se comportou de um modo estranho, para não ir mais longe. Quis jogar num Campeonato que não é o seu, apresentado informalmente Georgieva como a ‘candidata da Comissão‘. Habituada ao poder da Alemanha, talvez tenha desvalorizado a influência da França e do Reino Unido. O que não se entende foi o facto da Comissão não ter apoiado o europeu que estava em melhores condições para ser eleito. Incompreeensível e condenável. Apesar do comportamento de Juncker e dos seus, Guterres construirá uma relação de cooperação exemplar com a União Europeia, nomeadamente com os seus interlocutores directos, Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, e com Frederica Mogherini, a Alta Representante para a Política Externa.

Foi igualmente notório que Guterres foi acima de tudo o candidato dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido. Mas no mês em que Guterres inicia as suas funções, toma igualmente posse o novo Presidente norte americano. O resultado das eleições americanas será de uma grande importância para o novo SG da ONU. Uma vitória de Trump levará os EUA a ignorarem a ONU e será uma má notícia para Guterres. A eleição de Hilary Clinton será positiva para Guterres. Seria a continuidade da linha diplomática norte americana que apoiou Guterres.

O maior desafio para Guterres será a relação com a Rússia. Moscovo só apoiou Guterres na fase final, e acima de tudo para derrotar a candidata alemã. As ambições expansionistas de Putin entrarão fatalmente em choque com a ONU. A aliança entre Putin e Assad impedirá qualquer solução de paz na Síria a curto prazo. Aliás, Guterres terá que ser muito prudente em relação à Síria. A história da ONU mostra que quando há um conflito com os membros permanentes em lados diferentes, o SG pouco ou nada poderá fazer. Aqui Guterres deverá resistir à pressão da imprensa e da opinião pública para se intrometer demasiado no conflito da Síria. Mas a Rússia também continuará a ser um problema na Ucrânia. O conflito não está resolvido e Moscovo não tenciona abandonar a parte leste da Ucrânia.

Se a Síria (e o Médio Oriente em geral) e a Ucrânia serão problemas demasiado complicados para o poder do SG, há outros conflitos onde Guterres poderá fazer a diferença e ser decisivo para um acordo de paz. O primeiro é claramente Moçambique. Guterres deveria desempenhar um papel activo na procura de uma solução pacífica para o confronto entre o governo moçambicano e a Renamo. Terá o apoio das potências externas, da China aos Estados Unidos, passando pelos países europeus, de outras organizações internacionais, como o FMI, e da Igreja Católica. A Colômbia é outro país onde um papel activo do novo SG poderá fazer a diferença. Apesar da vitória do Não ao referendo sobre o acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC, o processo ainda está vivo. O antigo Presidente colombiano e principal rosto da oposição ao acordo, Álvaro Uribe, já afirmou que pretende a paz, e a liderança das FARC também reafirmaram o seu compromisso com o acordo de paz. Ou seja, estamos perante uma situação onde uma voz avisada e pragmática de uma autoridade política externa, como o SG da ONU, pode fazer a diferença.

Haverá igualmente acontecimentos inesperados que se transformarão em desafios para Guterres. Haverá certamente novos conflitos no Médio Oriente, continuam a existir situação muito frágeis em África, as relações entre a Índia e o Paquistão já conheceram melhores dias, e há várias situações de tensão geopolíticas no sueste asiático. Mas o próximo problema para a ONU pode surgir na Venezuela, se o país entrar numa guerra civil, o que não é de excluir. Se isso acontecer, será um conflito violento. Os herdeiros de Chavez não deixarão o poder facilmente. A Venezuela poderá ser o primeiro novo problema para Guterres. A Colômbia e Moçambique poderá ser as boas oportunidades. Quanto à Síria e aos refugiados, será sobretudo necessário resistir à pressão mediática.