A gente imagina as tropas absolutistas de Costa, comandadas por uma generala excitada e um pouco excessiva, trazendo à ilharga uma coronela de olhar esgazeado e algo perplexo, a montar cerco à mui nobre leal e invicta cidade do Porto, e conclui que a ignorância e a ausência de bom senso conseguem ser muito divertidas. Eu ia acrescentar «ainda que involuntariamente», mas não vale a pena, porque esse é, por definição, o resultado do atrevimento da ignorância, ou, para quem esteja com uma disposição mais clemente e piedosa, da «distracção».

Esta gentinha não merece qualquer respeito, como não o merece quem a elegeu duas vezes, aliás, como patologicamente elegeu duas vezes as patologias de Sócrates. Não respeitar essa gente não significa, porém, não compreendê-la. Eu compreendo os instalados das rendas e do assistencialismo socialista; compreendo o desejo de «um emprego no Estado», seguro, vitalício e não sujeito a avaliação de mérito ou produtividade; compreendo os sonhos de uma assessoria, de um lugarzinho junto aos segredos do poder, de uma secretária de estilo, proveitosa e resguardada, nalgum observatório, ou instituto, ou autoridade, ou fundação, ou gabinete de estudo, ou comissão; compreendo a ambição de importância e mando que, mediante indispensáveis servidão e zelo, talvez se consiga nalguma assessoria, nalguma agência noticiosa, nalgum jornal de reverência, nalguma televisão amiga. Não respeito, mas compreendo, embora me reserve o direito de opinião sobre que tipo de espinhas dorsais e valores são esses que os estruturam.

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Há, felizmente, dias regeneradores, dias que fazem o mundo parecer melhor. Há dias, a Tvi teve o bom gosto de retransmitir um concerto dado no Coliseu do Porto por Miguel Araújo e António Zambujo, dois músicos cujo talento me suscita um tal respeito que me trava até a veleidade de procurar advérbios e adjetivações. Araújo e Zambujo são aquilo a que se pode chamar «artesãos». Juntam ao amor da música e da língua uma contenção e um cuidado de pormenor com os quais, sendo discretos, se tornam enormes. Ali não há floreados tontos nem ginásticas de trineio, apenas a música e a palavra. Enquanto os ouvimos, dói recordar lamentosamente aqueles compositores e intérpretes que se esforçam em inglês pedestre, na ilusão ignorante da internacionalização, sem compreenderem que se pode ser universal sendo-se local, como saberiam se lessem Cervantes, ou Conrad, ou Goethe, ou Kafka, ou Pessoa, ou Lobo Antunes, ou Coetzee entre tantos outros.

Muito a propósito disto mesmo, enquanto ouvia Araújo e Azambujo ia pensando: «Deus queira que cantem o Porto Sentido». A interpretação de Rui Veloso, vogando entre fado e blues, e a letra de Carlos Tê, um hino de amor à cidade, e à língua e alma do país, fazem de Porto Sentido, para mim, a melhor canção portuguesa de sempre. E o Porto aparece-nos inexpugnável na sua dignidade, no seu jeito magoado, na sua luz bela e sombria. Sempre gostei mais de quem mói o sentimento, do que daqueles que atiram a primeira palermice que lhes passa pela cabeça. Sempre gostei mais das cidades graves e sérias como o Porto, ou Roma, ou até Washington, mais do que do aclamado esplendor de outras como Paris, ou Nova Iorque, ou mesmo Lisboa, que terão majestade e história, sem dúvida, mas me parecem (decerto injustamente) sempre em pose e em bicos dos pés, «oh pra mim, oh pra mim», enquanto Roma, por exemplo, apenas está. E está com timbres, matizes e sabores que exigem uns 2000 anos de apuramento. [Há evidentemente, a construção de horror e mármore que Mussolini decidiu erguer de costas para o Forum e sobranceira à Praça Veneza, mas os romanos deram-lhe a alcunha merecida: «bolo de noiva».]

Salazar comentou privadamente com Serrano Suñer, ministro de Franco e inimigo íntimo de Portugal, que «dev(ia) a Deus o dom de ser pobre». Eu julgo que o Porto deve a Deus o dom de ter sido pobre durante tempo suficiente para ser poupado a modas urbanísticas deslumbradas. Assim preservou as ruelas e calçadas, uma nobreza evidente, enquanto a Lisboa flausina destruía avenidas para se engalanar de caixotes, e abrir autoestradas no centro. É aquele ar do Porto, aquele seu timbre, aquele jeito que me parecem particularmente avessos e imunes a generalas e coronelas com seus caprichos tontos, e, aliás, a senhoritos que quisessem gerir cidades como se fossem quinta sua, e ensinar os habitantes onde e como e quando podem viver. Consta, por exemplo, que o Fernando Medina de Lisboa nasceu no Porto; eu julgo que, no Porto, Medina seria um corpo estranho. Como as coronelas e as generalas, ou os invasores absolutistas.

Julian Barnes, escritor britânico, prémio Booker, cultor da mais fina ironia britânica, escreveu e meditou sobre a vida e a morte no seu livro Nothing to be frightened of. E, embora confessadamente ateu, Barnes, que tem o fair play e a complacência dos homens muito inteligentes e cultos, escrevia com inultrapassável graça isto sobre a eternidade: «A fúria do ateu ressuscitado, isso sim, seria uma coisa digna de ser vista».

Eu imagino a trupe de generalas, coronelas e gente genericamente ávida a ressuscitar, não com fúria, mas apenas arrelampada, e, passado o primeiro momento, a pretender ensinar a Deus uma nova religião para as pessoas, uma nova redistribuição das venturas, uma outra distribuição de cargos… enquanto, sub-repticiamente, tentariam tomar assento, não à direita, mas no lugar do Pai.