Algumas declarações do Dr. Gentil Martins, numa entrevista dada ao Expresso, deram origem a uma enorme polémica, tendo inclusive motivado um processo disciplinar na Ordem dos Médicos. Conheço pessoalmente o Dr. Gentil Martins, deu-me a honra de apresentar um dos meus livros (O Inimputável) há alguns anos atrás. Não irei repetir elogios ao seu carácter, pois já houve recentemente quem o fizesse publicamente. A questão essencial que sobressai desta polémica é a seguinte: será que os médicos devem ter restrições à liberdade de expressão? Do meu ponto de vista, os médicos não devem ter limitações à liberdade de expressão, desde que as suas convicções não os levem a discriminar os doentes, designadamente desde que cumpram os preceitos, como qualquer cidadão, que estão devidamente consignados na nossa Constituição.

Independentemente de se poder discordar das opiniões do Dr. Gentil Martins, isso não legitima que lhe seja dada ordem de silêncio. Se assim fosse, por que razão não se haveria também de mandar calar os médicos que defendem a eutanásia? É espantoso como se queima, num ápice, na fornalha inquisitória, um brilhante percurso profissional. Subitamente, tudo perde valor: as vidas salvas, o sacrifício das noites perdidas nas urgências, os dias roubados à família para cuidar dos outros; enfim, toda uma vida de dedicação à medicina e aos doentes deixa de ter relevância.

Já há vários anos que os “donos ideológicos disto tudo” têm conseguido catequizar o povo. Ao longo do tempo, através de um sistema de rega gota-a-gota, conseguiram doutrinar as massas, e os seus clichés ideológicos foram aceites como dogmas de fé. Infiltraram-se no Estado, mais precisamente nos capilares do Ministério da Educação e da Saúde, com a sua cartilha fraturante, criando muitas vezes um clima de pensamento único.

Os donos ideológicos disto tudo monitorizam permanentemente a sociedade, como se fossem um sistema imunitário, vigilantes, à espera que surja algum infiel que ouse expressar uma opinião contrária à verdade por eles estabelecida. Cada vez que alguém se atreve a proferir uma heresia, a estratégia é sempre a mesma: procura-se de imediato desqualificar, intimidar e ridicularizar a pessoa, faz-se um ataque cerrado e recorre-se, num automatismo perverso, à inevitável queixa na respetiva Ordem profissional. Dito numa linguagem médica, aquele que se atreve a sair dos clichés ideológicos estabelecidos, é identificado como um corpo estranho, os macrófagos são ativados e procede-se à sua fagocitose.

Mas, a Ordem dos Médicos não serve para isto; não serve para policiar ou para restringir o livre pensamentos dos médicos. Portanto, faço daqui um apelo ao Sr. Bastonário para não ter medo. Não se deixe intimidar, e não transforme a Ordem dos Médicos numa secretaria pidesca que vai abrindo, a pedido, processos disciplinares, que não visam outro objetivo do que restringir a liberdade de expressão dos médicos, privando-os deste direito constitucional.

Estas pessoas (são quase sempre as mesmas) montaram uma máquina de censura e mantêm-na oleada, através do ódio, do rancor, e da agressividade. Os sentimentos que alimentam esta atitude são tão negativos — uma espécie de napalm de intolerância que é lançado sobre as nossas inteligências — que nos fazem interrogar sobre quais as verdadeiras causas que estarão na origem desta aparente desordem interior.

Tal como o Dr. Gentil Martins, embora não me compare com ele na categoria e prestígio, sempre escrevi o que pensei, e posso partilhar que também já sofri as consequências de não renunciar a esta liberdade. Por esse motivo não posso deixar de lhe expressar a minha solidariedade, perante o autêntico linchamento público de que tem sido alvo. Acredito firmemente que esta solidariedade, em defesa da liberdade de expressão, é partilhada por muitos portugueses.

Gostaria de advertir os atuais donos ideológicos disto tudo que na sociedade não há o desejo de regredir, novamente, para uma ditadura. Os portugueses já se acostumaram à liberdade, e esta é uma vocação inabalável do Homem.

Médico Psiquiatra