A Doença de Parkinson, por si só, não é um fator para se contrair Covid-19. No entanto, como a sua maior prevalência é na terceira idade, o risco ao contrair Covid-19 é acrescido pela idade, para além de outras doenças associadas que possam também estar presentes nestas faixas etárias, nomeadamente cardíacas, hipertensão arterial ou diabetes. Também a diminuição do reflexo de engasgamento, a menor ou mais lenta expansibilidade torácica e a postura fletida poderá dificultar a drenagem torácica e funcionar como fator negativo na evolução da doença.

Apesar da Covid-19 ser uma doença maioritariamente respiratória, todo o contexto de pandemia tem implicações importantes nos doentes com esta patologia neurológica.

O facto de as pessoas estarem em confinamento é uma das condições de agravamento para os doentes com Doença de Parkinson: não se mobilizam ou mexem-se muito pouco, correndo o risco de ficar com atrofias, limitação locomotora, ou perda maior de reflexos. Algumas patologias, que indiciam demência, agravam também essas manifestações, por perda de comunicação e estímulo, por isolamento e depressão.

E o medo da pandemia? E a depressão que os atinge e os envolve nesta ambivalência entre estar com a família e ficar doente ou perder a vida? Nada será pior do que estar isolado dia após dia, a metros de entes queridos sem um afeto ou uma brincadeira. Há um sentimento de que a vida está suspensa.

Para os nossos idosos e nomeadamente para os doentes parkinsónicos, o cenário que vivemos é uma penalização gigante. A depressão abate-se sobre eles. Não comem, não despem o pijama, não caminham, não convivem e, por isso, a capacidade de adaptação torna-se nula. A ansiedade agrava as manifestações motoras e a doença física torna-se mais exuberante.

Paralelamente, a vida também mudou fora de casa. O apoio domiciliário poderá ter diminuído, quer em termos de alimentação, tratamentos ou higiene, mercê das reorganizações associadas à pandemia. Os doentes, caso não tenham apoio familiar, alimentam-se mal e ficam mais desnutridos. Podem, também, não ter acesso à medicação porque não conseguem ir à farmácia.

As noites tornam-se difíceis. O sono fragmentado, o agravamento da insónia, a impossibilidade de se virarem na cama, a incapacidade de manter as pernas quietas durante a noite e os pesadelos que parecem realidade, são algumas das consequências deste contexto de ansiedade.

Então, o que devemos fazer para prevenir estas situações? Há que desenvolver planos, estratégias, para evitar ou mitigar o isolamento: manter horas de despertar e deitar, de tomar medicação, de vestir ou das refeições. É fundamental manter a atividade, pelo que, se tiver jardim ou quintal, motive o doente a agasalhar-se e a dar várias voltas nesse espaço. Se viver num apartamento, incentive-o a sair à rua cerca de 20 minutos e fazer uma caminhada com máscara, bem protegido do frio e com o devido distanciamento. Relativamente às tarefas domésticas, é importante conseguir uma rede de apoio que permita apoiar o doente na alimentação e na higiene.

O doente deve ser estimulado a realizar atividades como escrever, pintar ou ler, evitando, assim, que veja demasiada televisão, que lhe pode causar aumento da ansiedade. Na impossibilidade de ir à fisioterapia, recomenda-se que faça exercícios em casa, de acordo com as indicações do médico.

Ter um animal de estimação é sempre uma boa opção. Para além da companhia, que minimiza a sensação de isolamento, terá a responsabilidade diária de cuidar e alimentar outro ser.

Por fim, nunca é demais lembrar, aos doentes com Parkinson ou seus cuidadores, que esta doença é crónica e necessita de avaliações médicas sucessivas e continuadas, uma vez que o controlo da doença apenas é conseguido através de acompanhamento médico regular. Neste contexto de pandemia, o seu médico poderá aconselhá-lo a realizar consultas presenciais ou por teleconsulta, consoante o seu caso.

Em qualquer situação, não deve ser adiada a procura de resposta clínica. Nas unidades de saúde há protocolos e circuitos de segurança no sentido de proteger o doente, pelo que nunca se deve adiar ou evitar a ida a uma consulta especializada, ou para realizar um exame ou um tratamento. Não adie para mais tarde o que deve fazer hoje.