São os enfermeiros que poucos conhecem. São os que usam fatos de Bloco Operatório pouco personalizados, largos e grandes. Escondem-se por detrás de máscaras, barretes, toucas e batas. Reconhecidos na maior parte das vezes apenas pelos olhos, pelo olhar que caracteriza cada um.

As 8 ou 12 horas/dia de cumprimento de funções são passadas num ambiente frio, numa sala sem luz natural, fechada para o exterior. Não há dia, não há noite, porque tudo decorre sem ver a claridade do sol ou da lua.

O ruído é pouco, é solene, mas o ambiente é stressante. A responsabilidade é pesada e é sentida muitas e muitas vezes no acumular de situações de urgência/emergência que recebem todos os dias, a qualquer hora.

O som do telefone ou BIP estabiliza a equipa, num olhar entre cada um. Esse som remete-nos para mais uma cirurgia. Um recém-nascido? Um prematuro? Uma grávida? Uma cesariana emergente? Uma criança? Um politraumatizado?

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Uma incerteza diária, mas subjacente e a qual não podemos evitar.

Não acolhemos situações “simples”. Elas não existem. Cada prestação de cuidados é individualizada, complexa e direcionada para a Pessoa que fica deitada e exposta a uma “agressão cirúrgica e anestésica previamente autorizada”. A sua anestesia pode ter complicações, a técnica cirúrgica pode ter complicações, o pós-operatório pode ter complicações e, são estes enfermeiros que poucos conhecem, que tudo fazem para que a fragilidade da situação possa decorrer sem consequências e com a maior naturalidade possível, durante horas seguidas, sem interrupções ou pausas.

A segurança e confiança que muitas vezes tentam transmitir a quem entra no bloco operatório, à família que fica ansiosa a aguardar no exterior ou aos pais, a quem é pedido que confiem em nós, que deixem o seu filho assustado, com medo ou dor nos nossos “colos”, muitas vezes, é pouco sentida, mas tem de ser expressa…

Situações emergentes e de grande stress para estes Enfermeiros acontecem. Interrompem o almoço, o jantar, a refeição fica em cima da mesa… Saem a correr em situações emergentes, as suas necessidades ficam para depois.

Uma criança de 5 anos em estado crítico, politraumatizada, em choque hipovolémico, vítima de acidente de viação. Ou uma grávida com descolamento de placenta, que entra de forma emergente às 3, 4 ou 5 horas da manhã quando a noite parecia trazer-nos alguma tranquilidade.

A imprevisibilidade surge. Recebemos “rostos” em choque, em pânico, e pouco tempo temos para tranquilizá-los: “vamos estar consigo, o tempo todo, vamos fazer o melhor que conseguirmos”. É das poucas frases que conseguimos ainda transmitir nos segundos que temos até induzirmos o seu sono e a adaptarmos de forma dependente a um ventilador.

Algumas situações são graves e angustiantes para todos. É necessária uma incrível e exigente coordenação, em silêncio, visível apenas a quem trabalha no BO.

Os materiais, os instrumentos cirúrgicos, os equipamentos, os enfermeiros, os cirurgiões: “tudo” tem de estar disponível e operacional em apenas segundos.

A comunicação é feita através do olhar numa simbiose intuitiva entre equipa. Reconhecemos rostos de preocupação, rostos de angústia, rostos de desalento, rostos de alegria e, infelizmente, por vezes, rostos de tristeza e frustração, mesmo por detrás de máscaras e barretes.

As lágrimas são difíceis de controlar e por vezes caem. E caem durante um ato cirúrgico, em que não conseguimos contornar a complexidade da situação, caem durante uma anestesia que não conseguiu reverter a instabilidade hemodinâmica da pessoa e caem num pós-operatório quando as complicações superaram os benefícios.

Estes enfermeiros que poucos conhecem, e que se escondem por detrás de máscaras e barretes também sentem. E sentem intensamente cada situação.

Também partilham alegrias e vitórias, de pessoas com esperanças reduzidas em que a dúvida e a insegurança era a sua grande certeza.

É neste ambiente que os Enfermeiros de Perioperatório vivenciam as suas experiências profissionais. Num ambiente de simbiose natural e dinâmica entre equipa, um ambiente desconhecido, mítico e com portas encerradas para o exterior.

É este o Palco, que estes atores que são os enfermeiros de Perioperatório escolheram para atuar.

Enfermeira Bloco Operatório da ULSB
Texto publicado originalmente no Facebook