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Há pessoas, que por mais que tenham, aparentemente, motivos para se sentirem bem com a vida, sentem-se sempre insatisfeitas. Falta-lhes sempre qualquer coisa. Queixam-se de tudo e raramente sentem que algo está bem.  Dão maior ênfase aquilo que não têm.

Pessoas que olham para o dito copo meio vazio. À sua volta, há quem lhes dê palavras de incentivo e se esforce para mostrar a boa vida que vivem mas o desagrado mantém-se preponderante. Comparam-se com outros, aos seus olhos, possuidores de melhores vidas. Frustram-se continuamente com os resultados obtidos focando-se somente que poderiam ser melhores. É-lhes muito difícil aceitar fracassos e o erro. Procuram a aprovação dos outros como meio de se sentirem (quase e ilusoriamente) perfeitos. Em paralelo, criticam muito os que estão em seu redor porque não cumprem as suas expectativas e não colmatam as suas inteiras necessidades.

Uma espécie de pessimismo tolda a contemplação do bright side of life. Incorpora-se um estado Calimero, com ar desolador e jorro de constantes lamúrias. O eterno insatisfeito vive mais triste do que feliz. Invadido por um cinzentismo que lhe encurta as vistas da paleta de cores da vida, o andar é lento e sem esperança.

Se a insatisfação ocasional pode ser impulsionadora da vontade para superar os obstáculos da vida e combater o conformismo, prolongar o estado de descontentamento, aumenta o risco de poder instalar-se um estado depressivo. A capacidade em aproveitar as pequenas coisas da vida pode ficar comprometida.

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Muitas vezes o que está subjacente ao sentimento de constante insatisfação liga-se a uma forte carência afectiva, originada por episódios traumáticos, perda de alguém querido, por um toque de bovarismo, tal personagem de Flaubert, a Madame Bovary, que vivia tão desfasada da realidade e envolta nos seus devaneios, para fugir ao tédio do seu quotidiano sentido como insípido.

Porventura existem formas de lutar contra a eterna insatisfação se for tomada a consciência que não é possível estar bem (sempre) nas diferentes dimensões da vida, íntima, familiar, amorosa, social, profissional, financeira. É saudável ter essa noção e ser flexível para aceitar as flutuações dos altos e baixos da vida. Recorrer à criatividade para fazer face às falhas e conquistar um sentimento de realização daquilo de bom que se alcançou, construiu,  se sustenta como pilares estruturantes. Ter o hábito de agradecer e orgulho do caminho percorrido até onde se chegou pode dar luzes de alento e  maior ânimo, maior satisfação.

anaeduardoribeiro@sapo.pt