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Um vírus que se propaga com uma voracidade incomparável e que mata ou incapacita como nunca antes visto. O cenário é dramático, mas há solução reconfortante: um esforço colectivo para salvar vidas. Basta que cada um fique em casa, mantenha distância e se feche tudo o que não é essencial. Sem esquecer a máscara, de uso obrigatório, até para parturientes ou pacientes em recobro (diferente seria, se estivessem a jogar à bola nas competições profissionais ou a fazer comentário televisivo). Como complemento, há que acabar com as visitas nos hospitais, aplicar álcool-gel nas mãos de crianças nas creches e vedar o acesso a parques infantis. Tudo isto é recompensado com o sentimento de dever cívico e moral cumprido.

Se a solução resultar, é graças ao sucesso do esforço colectivo. Se não, é por culpa dos que insistem em não cumprir. Ainda assim, convém aqui perguntar o lugar-comum: os fins justificam os meios? Quantos meios não serão, eles próprios, fins? Sob a finalidade de salvar vidas é de admitir que sejam adiadas mais de “um milhão de consultas médicas e mais de “cem mil cirurgias? Que seja usada a força pública para deter quem se recuse a “usar máscara e a ir para casa? Que as autoridades policiais possam entrar residências adentro “sem autorização do morador ou mandato, caso tenham indícios da propagação do novo coronavírus?

Vale a pena abdicar de tanto, ainda que por tão boas intenções? Acredito que não. Se morrer e pagar impostos são as únicas duas certezas na vida, exija-se mais delas do que entretenimento televisivo e ajudas estatais. Estar vivo é mais do que não estar morto. Implica viver livre, podendo escolher os riscos que se aceita suportar. Implica ter o direito de respirar sem obstáculos. Implica poder ir, sem justificação ou declaração da entidade empregadora. Implica aceitar o risco de morrer.

A liberdade, na sua vertente negativa, qualificar-se-á, segundo Isaiah Berlin, enquanto a ausência de interferência de terceiros na actuação de cada um. Naturalmente que a liberdade de cada um termina onde começa a do próximo. Porém, é preciso especial cuidado quando o próximo exige cada vez mais barreiras ao exercício da liberdade de cada um. Sem resistência, chegará o dia em que o próximo entenderá que a sua liberdade principia ainda antes de a de cada um começar.

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O dia chegou. Passou a entender-se não ser aceitável que do exercício da liberdade resultem quaisquer riscos para a saúde dos demais, por mais ínfimos que sejam. Quem questionar a razoabilidade, eficácia ou o mérito das medidas de combate à Covid-19 será qualificado, num dia bom, de negacionista e irresponsável, mesmo por comentadores televisivos que não usam máscara em estúdio e criticam quem não a usa ao ar livre.

Não é compatível viver em comunidade sem que daí decorram riscos, que sempre existiram, existem e existirão, com ou sem máscara, dentro ou fora de casa. O risco de contaminar será decorrência da interacção entre indivíduos, que não se afigura condição descartável ou acessória da existência humana.

Até recentemente, tolerar que os outros respirassem, circulassem e se juntassem, sem máscaras, não era encarado como um perigo, mas como uma inevitável consequência de viver enquanto ser humano livre (assumo a qualidade de leigo, mas acredito que a Covid-19 não tenha sido a primeira doença respiratória contagiosa a cá chegar). Não é proporcional nem adequado decretar a suspensão indefinida da essência humana e das suas inerentes liberdades. Na dúvida, privilegie-se a protecção da liberdade negativa, deixando que cada um tome as medidas que melhor entender para se sentir protegido e que cada qual assuma os riscos que queira assumir.

Até aqui, escreveu-se no pressuposto de que tudo o que foi feito para salvar vidas resulta, é eficaz e está empiricamente demonstrado. O autor não tem formação nestes assuntos e, sem prejuízo de reconhecer a sua ignorância, sempre se arroga no direito de perguntar. Quantas mortes foram evitadas com confinamentos, máscaras, escolas, restaurantes, ginásios, parques e praias fechadas? Países de sucesso como Nova Zelândia, Coreia do Sul, Dinamarca ou Finlândia tomaram medidas assim tão diferentes de República Checa, Hungria, Bélgica ou Reino Unido, que ocupam lugares cimeiros no número de mortos por milhão de habitantes? Por que é que a malfadada Suécia tem menos mortos por milhão de habitantes que Portugal e uma mortalidade que subiu menos que na UEmas há quem prefira limitar-se a compará-la com os seus vizinhos nórdicos? Hungria e Sérvia, que confinam e obrigam ao uso de máscara, também partilham fronteira e resultados diferentes: a primeira tem 2119 mortes por milhão de habitantes, a segunda 605.

Admite-se acriticamente que, até ao final de Março de 2020, a ciência não visse particular benefício na utilização de máscaras e que, meses depois, se aceite o contrário como verdade insofismável?

Em pouco mais de um ano, num mundo com cerca de 8 mil milhões de pessoas, morreram menos de 3 milhões de pessoas com Covid-19, sendo que a Organização Mundial de Saúde estima que morram anualmente 7 milhões de pessoas em resultado da poluição do ar. 8 milhões morrerão anualmente devido ao tabaco. Por cá, entre Março e Dezembro de 2020, “as mortes associadas à doença Covid-19” só explicarão 52% do excesso de mortalidade verificado em Portugal. Quão devastador será concluir que se pode ter abdicado de tantos meios sem que se tenham alcançado os fins propostos?

Considerou Albert Camus, que ao absurdo da existência humana devia reagir-se com revolta. Tendo em conta os níveis do absurdo actual, sugere-se que a revolta passe por exigir o regresso da liberdade de viver a vida sem tantas interferências. Que este último ano tenha servido para mostrar que não se troca liberdade por segurança. O mais certo é ficar sem nenhuma das duas, já dizia Benjamin Franklin.