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Crónica

Os “influencers” ou o Portugal dos Pequeninos

Autor
  • António de Souza-Cardoso
414

Cristina Ferreira a Mulher mais influente do nação? Pedi, com incontida revolta, explicações. Que me foram dadas, julgo que com a paciente condescendência que se devota às pessoas achacadas pela idade

Este Domingo de Reis a refeição começou bem. Falamos dos costumes, da forma como a natividade e as celebrações genuínas de Família são encaradas no Mundo e do estimulante sentido ecuménico e de verdadeira intercultura e multirracialidade que sobressai do exemplo inspirador dos Reis Magos.

Desculpem a presunção salomónica mas acho que a conversa, quando coloquial ou familiar, é um pouco como a aletria – se não a prendemos, nem resistimos à tentação da liberdade dos ovos e de um ponto mais solto do açúcar, … escorregam. E esta, que corria tão bem, … escorregou!

E escorregou para a afirmação de que Cristina Ferreira era, reconhecidamente, a Mulher mais influente de Portugal. Indignei-me! Não conheço bem os méritos da Senhora, mas sei que é competente na função de entertainer que representa. Mas influência? Falei das Mulheres influentes do Mundo Contemporâneo e de Portuguesas, vivas hoje e com vida para além do tempo, como Maria João Pires e Paula Rego. Quis que esse fosse o sentido de influência que a vida tem. Fui generoso: alarguei o espectro à política com Leonor Beleza, ou Maria João Rodrigues, à Ciência argumentando acalorado que 45% dos melhores investigadores portugueses são mulheres… Pobremente, não consegui mais do que um abanar de cabeça e muitos sorrisos complacentes perante a minha comprovada ingenuidade.

Pedi, com incontida revolta, explicações. Que me foram dadas, julgo que com a paciente condescendência que se devota às pessoas achacadas pela idade.

Influência, mesmo, era a dos “influencers”, como a palavra parece indicar. Para ser curto quer dizer, quem influencia comportamentos. Quem com um único gesto ou descaído trejeito faz com que se compre ou deixe de comprar um jornal desportivo ou uma marca de sapatos.

No final da bravata, percebi que fora do futebol e do espectáculo não havia influência e que, por exemplo, os actuais e futuros Primeiro Ministros ou Presidentes da República teriam que passar previamente pelo tirocínio dos media – os fornecedores oficiais de influência no mundo, travestidos de canal televisivo e de uma simples conta no tweeter.

Pensei em Costa e em Marcelo e fiquei verdadeiramente estarrecido. Os meus filhos que perceberam a mensagem ecuménica dos Reis Magos, indicavam-me o caminho. Não interessa se fazes bem ou mal, quais as qualificações que tens ou que consequência pode ter, verdadeiramente, o teu trabalho, ou a tua obra, na vida das pessoas ou da comunidade. O que realmente interessa é o que é percepcionado e se queremos ter sucesso, concretizado na verdadeira influência, teremos sempre que escolher entre o futebol e o espectáculo. Os sub-produtos que sobram são sujeitos ao mesmo escrutínio da relevância que despoletam nos media do ontem ou de hoje.

Se alguém não conseguir condicionar o reconhecimento, com aplauso ou assobio, de 90% das pessoas, não existe. E como não existe, não tem influência.

Esta retumbante afirmação convictamente partilhada por dois jovens adultos tinha que ser considerada.

Pensei nos populismos, nos coletes amarelos, nos serviços noticiosos, no prime time televisivo “que importa”, e comecei a achar que eles tinham razão.

Arrumei o meu Portugal dos Pequeninos e pus-me, neste Domingo de Reis, a ler o que me resta de Agustina Bessa Luis e a pensar em tantas valorosas Mulheres que verdadeiramente influenciaram a minha Vida.

Presidente da Causa Real

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