Rui Rio é um político em duas partes. É necessário ouvir ambas. Rio usa o termo “esquerda” para designar os seus adversários políticos, mas não diz, como seria lógico para quem se demarca da esquerda, que está à direita. Rui Rio ataca a “ideologia comunista e socialista” do governo, mas não reconhece, como poderíamos esperar de quem tem um ponto de vista contrário ao comunismo e ao socialismo, que é “liberal”. Rui Rio pretende fazer as “reformas estruturais” que o governo socialista não faz e rejeita, mas propõe-se fazê-las com os socialistas, sem explicar como é que tenciona convertê-los.

Isto talvez pareça confuso para quem tenha acabado de chegar à política portuguesa armado apenas com as definições e os contrastes de um manual de ciência política. Os restantes, porém, não terão dificuldade em reconhecer aqui a tradicional estratégia das direitas deste regime. Desde 1974, que os partidos de esquerda vivem do medo da “direita”. Antigamente, a direita era o fascismo e a PIDE. Agora, é isso, mais Trump e Bolsonaro. Ora, para quê perder tempo a explicar que a direita não é necessariamente “populista”, e ainda menos “fascista”? Não será melhor contornar a barreira, evitar dar os nomes às coisas, e assim privar as esquerdas de trunfos de propaganda e de motivos de mobilização?

Que dizer então, senão que as vantagens da estratégia de Rio são óbvias? Imaginem-no, no congresso do PSD, a proclamar que ia liderar uma maioria de “direita” para “liberalizar” o país. A democracia estaria em perigo, o SNS iria ser destruído, etc. Em vez disso, Rio pôde desfolhar o programa de uma direita liberal sem que em Santarém os chaimites começassem a aquecer os motores para marcharem sobre Lisboa. E como à direita do PSD tudo é pequenino, há poucos riscos de um rival usar a marca “direita” ou “liberal” para ameaçar a posição do PSD.

Mas há desvantagens. A estratégia de Rui Rio é boa para inserir o PSD no sistema socialista, e deixar o PSD, como disse Miguel Poiares Maduro, jogar “o jogo de António Costa”. Mas quem ganha quando se faz o jogo do adversário? Na votação do Orçamento, o PSD conseguiu apenas tornar-se parte de uma daquelas confusas trocas de votos, típicas de Assembleia Municipal, e feitas de propósito para levar o paisano, de longe, a concluir que “eles são todos a mesma coisa”. Mesmo dentro do partido, nada disto convence demasiado. Rio já era o presidente do PSD eleito com menos votos. No congresso, tornou-se também o presidente cujas listas piores resultados tiveram na eleição dos órgãos partidários. Entre os eleitores do partido, que em 2019 teve o menor número de votos numas legislativas desde 1976, o entusiasmo também não é grande.

Talvez porque como muita gente já terá percebido, o problema não seja apenas substituir o PS no governo. Isso já fizeram o PSD e o CDS em 2002 e em 2011, quando o dinheiro acabou. Basta que a política do Banco Central Europeu mude, para que aconteça outra vez. O grande problema é que, tal como em 2002 e em 2011, o PSD e os seus aliados até podem substituir o PS no governo, mas não substituir o sistema socialista, porque já se viu que as emergências do Euro não permitem muito mais do que cortes temporários e reformas reversíveis. Só os aumentos de impostos são permanentes. Ora, ao fim de vinte e cinco anos de domínio do PS e de relativa estagnação, disfarçada pelo turismo e pelo BCE, convinha ao país que, quando mudasse o governo, mudasse mais do que o governo. Para isso, é necessária outra coisa: um mandato reformista suficientemente claro e forte para que, como aquando das revisões constitucionais de 1982 e de 1989, o PS se sinta constrangido a aceitar mudanças. Será possível, sem dar os nomes às coisas e jogando apenas o “jogo de António Costa”?