Não há jardim público em que quem esteja sentado não oiça pais a falar de filhos. Seria de esperar benefício para quem assiste. Acontece porém que quem assiste não colhe normalmente nenhum proveito. O que os pais dizem dos filhos não tem interesse para terceiros. Nos jardins os pais fazem normalmente propaganda dos seus filhos; mas o objectivo não parece ser o de os vender ou alugar. Porque nos falam então os pais dos seus filhos? A resposta é: porque os filhos estão por perto.

Diante dos filhos os pais falam das qualidades que aqueles têm. O seu motivo será a verdade; ou a esperança de que ao ouvir falar das suas qualidades, mesmo que com uma certa falsidade, os filhos se sintam dispostos a pô-las em prática; ou que ao ouvir falar delas tantas vezes se convençam de que as têm. Mas à medida que lhes são gabadas as qualidades os filhos ficam mais indiferentes a quem faz propaganda delas: se acreditam não precisam; e se não acreditam não prestam atenção. A terceiros espanta não só que os pais falem tanto dos filhos como sobretudo que os filhos ignorem quase sempre o que lhes está a ser dito pelos pais.

Como os pais em qualquer jardim, assim em Portugal se fala do país quando o país está por perto. Nenhum português se pronuncia sobre assuntos portugueses no estrangeiro, mas apenas porque no estrangeiro o país não está por perto. O interlocutor pode ser o próprio país, ou um turista que por acaso se sentou ao nosso lado: o objectivo é sempre que o país oiça. Falam assim os portugueses dos artigos portugueses, e em estilo elevado; da biologia portuguesa diante de quem a faz, do serviço hoteleiro diante de quem serve, e da língua portuguesa a quem a fala; e a todos se lembra como são incomparáveis.

Foram escritas dezenas de livros sobre o que é Portugal; e propostas até três ou quatro definições. Quase nenhuma parece certa, e nenhuma adianta. Mas independentemente do que de facto seja Portugal como país é pelo menos o assunto de conversa preferido dos seus pais; e o destinatário de toda a sua propaganda. Portugal é o filho único dos portugueses, de quem estes falam com um empenho que só os turistas num jardim não confundirão com amor. Mostram nesses discursos a esperança de que os grandes problemas portugueses, todos de natureza psicológica, possam ser resolvidos a golpes de lisonja. Quem sabe, supõem os pais da Pátria, se ao ouvir tanto falar dele, e tão bem, o país não evitará finalmente os seus maus modos e entrará por bons caminhos: reconstruirá as cidades e os campos, pagará as dívidas, e privatizará a Caixa Geral de Depósitos?