Barrigas de Aluguer

Os pénis de aluguer e os testículos de substituição

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O que não consigo mesmo aceitar é que alguém leve o seu desejo de se poder dizer mãe ao ponto de achar que a gravidez doutra mulher não conta nada quer para essa mulher, quer para a criança.

Fomos conhecer o nosso pénis de aluguer. O pénis de aluguer está feliz porque assim poderá criar as suas outras crianças e proporcionar-lhes tudo aquilo a que elas têm direito. Levámo-la a conhecer o país e a cultura dos seus testículos de substituição.

Seja na modalidade capitalista do aluguer ou na versão socialisto-solidária da substituição esta conversa nunca existiu. Com pénis, claro. Ou com testículos. Já com as barrigas das mulheres esta conversa acontece todos os dias. Como se sabe o corpo dos homens é uma unidade. Já o das mulheres é uma espécie de estrutura biónica que nas secções de moda e vida social dos jornais e revistas passa a vida a ser composto e recomposto com silicone e bisturi para corresponder à idade e à perfeição que lhe são mediaticamente exigidas. E é nessas secções, que se substituíram à revista “Vida Soviética” na propaganda do homem novo, que vamos percebendo como as barrigas de aluguer são o nosso próximo avanço civilizacional nessa espécie de marcha pré-determinada para o que tem de ser.

Realmente só pessoas que não são grandes seres humanos, como costuma dizer-se nessas colunas (o que será uma pessoa que não é um ser humano?), consegue não ficar rendida ao guarda-roupa das filhas de Sarah Jessica Parker, na verdade nascidas de uma anónima barriga de aluguer, à revelação de que Sofia Vergara encomendou um bebé a uma amiga porque a sua carreira não lhe permite ficar grávida – a invocação da atarefada vida social para não ficar gravida é fantástica quando proferida por alguém que se propõe ser mãe: ou não sabe o que a espera ou vai ser mãe por correspondência – ou ainda à novela em torno da chegada do novo filho de Elton John em cujo certificado de nascimento surge no lugar da mãe o homem com quem Elton John casou.

Da “barriga” donde vieram essas crianças nem sombra. E contudo nós vivemos numa sociedade que cultiva à exaustão e frequentemente com histeria as maravilhas da gravidez. O que se sente na gravidez. A ligação única entre a mãe e o feto. O primeiro olhar, o pegar no bebé. A voz. Fazem-se álbuns com ecografias. Uma mulher grávida não é hoje uma mulher grávida mas um repositório de circunstâncias únicas, irrepetíveis, aulas de yoga e alimentação especial. À excepção das mulheres-barrigas naturalmente.

A “barriga” não só não tem rosto como também não tem sentimentos, provavelmente porque os sentimentos se alojam no coração que fica muito acima da barriga, quase ao nível dos lábios sorridentes dos pais e mães que encomendaram estas crianças e que, aqui deste lado, do lado mediático, endinheirado e solar da história, falam de corpo inteiro sobre a vivência única que é ter um filho nos braços.

O homem novo de antigamente vivia nos países socialistas, era robusto, gostava da natureza e acreditava no socialismo científico. O de agora trocou o ateísmo pelas espiritualidades, move-se à força de likes não pela sociedade sem classes mas sim pelas focas, contra a pobreza (sobretudo se o combate à pobreza passar por dizer muito mal de alguém) e pela sociedade sem sexos e com género. Inalterável é a convicção de que aqueles que discordam dessa rota são pessoas atrasadas, insensíveis e reacionárias.

Inalterável é também a tentação do legislador enquanto revolucionário de papel que procura satisfazer grupos de representatividade mínima e estridência máxima. Nessa linha o PS e o PSD estão agora a ultimar, segundo os jornais, “o projeto de lei que vai permitir a gestação de substituição em Portugal (…) Foram aprovadas as situações em que este tipo de gestação será permitido – a ausência de útero, de lesão ou de doença deste órgão”. Ou seja os dois principais partidos que não foram capazes de se entender para fazer uma revisão constitucional, cuja falta de acordo transformou o Tribunal Constitucional num parlamento não eleito e que se arriscam nas próximas eleições a perder a maioria que lhes permitiria fazer essas mudanças, resolveram unir-se para acudir ao problema das mulheres que por ausência de útero, lesão ou doença desse órgão não podem ser biologicamente mães. E que continuarão sem sê-lo porque a gravidez ainda não é um processo jurídico mas sim biológico.

Ao contrário do que sucede com a adopção, que procura resolver os problemas das crianças, as barrigas de aluguer procuram resolver o problema de quem se quer dizer mãe mesmo que isso implique criar enormes problemas às crianças e faça tábua rasa da dignidade de outras mulheres.

Já sei que nesta fase do texto estou condenada às profundezas da indignação pela turma dos sensíveis para quem desde que se invoque as expressões igualdade e amor tudo tem de ser possível porque é impossível não defender a igualdade e o amor. E instituiu-se que a igualdade e o amor passam também pela legalização das barrigas de aluguer ou de substituição que no caso vai dar ao mesmo. Aliás o nome das coisas é importante e não é por acaso que procuramos iludi-lo neste assunto. Na verdade sabemos que não existem barrigas de aluguer nem maternidade de substituição. Existem mulheres que ficam grávidas por encomenda – com óvulos seus ou de outras mulheres – e que no fim da gravidez entregam a criança a quem a contratou. Que o façam por dinheiro choca-me, mas que me pretendem convencer que uma mulher fica nove meses grávida para no fim entregar o filho que acabou de ter a outra mulher simplesmente por que sim não só me choca igualmente, como me deixa as mais inquietantes dúvidas. Mas se é certo que tenho uma enorme dificuldade em entender que uma mulher aceite viver uma gravidez sob um contrato dessa natureza, envolva ele dinheiro ou não, o que não consigo mesmo aceitar e me gera forte indignação é que alguém leve o seu desejo de se poder dizer mãe ao ponto de achar que a gravidez doutra mulher não conta nada quer para essa mulher, quer para a criança.

Quer isto dizer que defendo que algumas mulheres nunca poderão ter filhos apesar de o desejarem profundamente? Sim. Os filhos não são um direito e já agora não fazem a realização de quem antes de os ter não se sentia realizado. Antes pelo contrário! Em resumo: nem todas mulheres podem ter filhos tal como nem todas as mulheres querem ter filhos. E tal como a sociedade não pode obrigar uma mulher a ter filhos, também as mulheres não podem obrigar a sociedade a aceitar o inaceitável simplesmente para que numa certidão de nascimento o seu nome conste no lugar da mãe e para que a criança tenha património genético seu e, nos casais heterossexuais, também do seu marido.

A existência de barrigas de aluguer pressupõe problemas éticos que me parecem intransponíveis. Para a mulher-sorriso, para a mulher-barriga e para os seus filhos. E para todos nós.

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