Cultura

Os portugueses não vão em conversas

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Os círculos sociais em Portugal não se misturam. Pior: nem sequer é possível levar as pessoas a falarem umas com as outras sem antes terem sido devidamente apresentadas.

Sou muitas vezes bombardeada pela asserção de que a Grã-Bretanha continua prisioneira de um rígido sistema de classes sociais, enquanto Portugal, pelo contrário, é quase tão livre de classes como, digamos, a Dinamarca.

Para quem me diz isso, o Reino Unido é uma versão gigante de Downton Abbey, com tipos super-finos a mandar em tudo. Depois, há os tipos da classe média mais ou menos desajeitada, que  pensam que sabem utilizar os talheres na ordem certa, mas que desconhecem os códigos secretos da aristocracia, e acabam sempre  expostos como plebeus. E finalmente, há a gente baixa, uma mistura de saloios industriosos, e escumalha assassina.

Portugal, dizem-me, não é nada assim: aqui, o sistema de classes sociais é uma coisa do passado, e qualquer um pode ser ou conseguir o que quiser, toda a gente se dá bem com toda a gente, e ninguém é deixado para trás.

Pois…

Não, não vou negar que o sistema britânico é um monstro feio que devia ter morrido na última guerra mundial. É uma força que infiltra tudo, que separa as pessoas, esconde oportunidades, e enche o governo com um gangue de tolos que frequentaram as mesmas escolas e nunca saíram da sua zona de conforto. Ainda assim, é mais flexível do que o sistema de classes sociais em Portugal.

Em Portugal, toda a gentinha das classes altas é prima uma da outra, e casar-se “fora” é anátema. Falam das classes baixas exactamente como os tipos das classes altas em outros países falam das suas classes baixas: “ah, sim, há uns tipos muito bons…”, mas sem jamais pensarem em convidar esses tipos muito bons para jantar, nem sequer nas suas fantasias mais radicais.

As classes médias estão cheias de costumes e de regras inventadas para comprovarem uns aos outros que são finos, e as classes trabalhadores praticam um esnobismo-invertido igual ao das classes trabalhadoras noutras nações.

classe

Aqui, pode-se contar com poucos dedos de uma mão as pessoas que têm infiltrado as fileiras mais acima. E pode-se contar com ainda menos dedos os que têm descido para fileiras mais abaixo. É impensável, em Portugal, encontrar uma advogada de sucesso casada com um mecânico de automóveis. É impensável encontrar uma divorciada de classe alta a trabalhar no supermercado depois de ter perdido tudo (e sim, isso é pensável em outros sítios). As classes não se mexem.

Mas não é porque o sistema de classe seja rígido e imóvel… é pior do que isso. Em Portugal, cada pessoa vive no seu círculo de relações, e esses círculos de relações não se misturam. Pior ainda: nem sequer é possível levar as pessoas a falarem umas com as outras sem antes terem sido devidamente apresentadas, e por isso, o sistema de classes sociais nunca se dissipará facilmente.

Experimente dizer bom dia a uma senhora na escada do prédio com quem ainda não se tenha cruzado quarenta vezes. Ou dizer uma piadola a um desconhecido na fila da caixa do supermercado. Todos o olharão com um olhar de terror, como se estivessem a ser abordados por um lunático fugido do hospício. E experimente, numa festa, tentar misturar pessoas que ainda não se conhecem.

Foram inumeráveis as festas e os eventos ao longo dos anos em que, porque ainda ninguém sabia ao certo quem eu era ou o que eu era, também ninguém sabia como lidar comigo. Em Portugal, não há “small talk”, ninguém é capaz de perguntar “o que faz?”, porque isso seria mal-educado (mas deixar pendurada uma pessoa no canto da sala não é mal-educado… ). No outro dia, estive na festa de uma amiga portuguesa que vive no Reino Unido há tanto tempo como eu vivo em Portugal. Convidou muitos amigos de círculos de relações diferentes, quase todos portugueses. Pois toda a noite, cada pessoa permaneceu no seu círculo respectivo, mesmo quando era um círculo constituído por apenas duas pessoas. “Ai, meu deus, esqueci-me que os portugueses não se misturam”, disse-me ela a certa altura.

No Reino Unido, sejamos nós quem formos, haverá sempre alguém que virá praticar um pouco de “small talk” connosco, embora corramos o risco de sermos menosprezados. Em Portugal, ninguém falará connosco antes de uma apresentação formal.

Quando é que Portugal vai aprender a falar consigo próprio?

The Portuguese don’t do small talk.

I am often bombarded with the assertion that the British class system is still in full force, and that Portugal is almost as classless as, say, Denmark.

Of course, it’s true. Britain is just like an enormous version of Downton Abbey, with the super-posh guys running it. Then there are the awkward middle classes who come to tea. They think they know that they’re using their cutlery in the right order, but the poshos always have a little secret code up their sleeves to flush them out. Then there are the lower orders, a mixture of hard working simple folk and murderous scoundrels.

Portugal, I am just as often told, is nothing like that, that the class system is long buried, that in Portugal, anyone can be or attain anything, that everyone gets along and no one is left out.

Yeah, right. 

No, I’m not denying that Britain’s class system is a vile outdated monster that should have died in the last world war. It is an all-pervading force that separates people, denies opportunity to people and fills the cabinet with a gang of twits who went to the same schools, and never went outside their social comfort zone. However, it’s a whole lot more fluid and workable than the Portuguese class system.

Portugal, where everyone in the “upper classes” is related to each other and marrying “out” is anathema. They speak of the other classes just as their counterparts speak in Britain, of “oh, yes, very good chaps…” without inviting those chaps to dinner, not in their wildest dreams.

The middle classes are filled with social mores and rules to try to prove to each other how classy they are and the working class are just as into inverted-snobbery as the working classes anywhere else.

Here, you can count on very few fingers the people who have snuck up through the ranks. You can count on even fewer fingers the people who have descended through the ranks. Unimaginable here to find a lawyer married to a car mechanic. Unimaginable to find a high class divorcée working in a supermarket because she lost out in the divorce settlement (and yes, it is entirely imaginable in other places). The classes just don’t move.

But it’s not because the class system here is a rigid unmovable beast… it’s worse that that. Portuguese circles just do not mix. Hell, you can’t even get people to talk to each other if they haven’t been formally introduced, so a class system is never going to dissipate easily.

Try saying good morning to a lady on the stairs of your building who you haven’t seen forty times already. Or making a joke to someone next to you in the queue at the supermarket. There is visible terror in their eyes as if a lunatic has been loosed from the asylum. Try getting people to mingle at a party.

I can’t tell you the number of events and parties I have been to over the years where, because no one knows what or who I am, no one knows what to do with me, and so they just don’t try. There is no small talk, there is no “so what do you do?” because that is seen as rude (as opposed to the entirely not-rude leaving people ostracised in a corner). The other day, I was at the party of a Portuguese friend who has lived in Britain for as long as I have lived here. She had invited a bunch of different friends from different circles, almost all were Portuguese. For the whole evening, everyone stood in their respective circles, even if a circle only had two people in it. “Oh god, I forgot…!” she said “the Portuguese don’t DO mingling”.

In Britain, whoever you are, you will be small-talked at, although looked down at. In Portugal, you will just be ignored, until someone has formally introduced you.

When is Portugal going to just get over it, and finally talk to itself?

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