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As nossas raízes são Celtas, Lusitanas, Judaicas, Fenícias, Cartaginesas, Gregas, Romanas, Suevas, Visigóticas, Muçulmanas. Da soma destes povos emergiu um povo celtibérico, latino, católico, com laivos mouros, judaicos e germânicos.

De todos os povos pré-Portugal, apropriámo-nos acima de tudo dos Lusitanos, embevecidos com a contenda de Viriato contra o Império Romano. Dessa lenda viva e de outros feitos, em que, apesar de pequenos nos fizemos grandes, brotou este nosso complexo de um misto de inferioridade e de superioridade.

Volvidos mais de mil anos, uma outra personagem deu fulgor a esta narrativa, quando D. Afonso Henriques se autointitulou Rei dos Portugueses e fundou uma das mais antigas nações do mundo, com um território e uma língua quase milenares.

Nos primeiros tempos da nossa História unimo-nos para expulsar os Mouros e para sedimentar o nosso território. Depois, em plena crise, colocámos as nossas ambições ao vento e esse sopro divino levou-nos para África, para a Índia e para o Brasil. Assim, passámos a ser também Africanos, Indianos e Brasileiros. Desses territórios, transformados em colónias, provieram as riquezas que mascararam a nossa pobreza e deixaram vestígios de grandiosidade espalhados por esse País fora.

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Por causa das nossas origens e das nossas viagens, apesar de nos situarmos no canto da Europa, não temos uma identidade periférica. Somos uma grande mistura, mas uma mistura unida pela nossa língua e pelos feitos gloriosos do nosso passado, dos nossos navegadores, tão bem descritos pelos nossos poetas mortos.

Sabemos que somos Portugueses porque somos Camões. Somos Pessoa. Somos saudade. Somos caravelas ao vento, eternamente rumo a um destino por descobrir. Somos o homem do leme e a padeira de Aljubarrota. Somos chico-espertos, mas com honra, plenos da sabedoria dos nossos provérbios populares e dos escritos dos nossos antigos pensadores como Fernão Lopes, Sena, Herculano, Gil Vicente, Teófilo, Antero, Garrett, Oliveira Martins, Eça, Aquilino, António Vieira, António Sérgio, Torga, Camilo, Régio, Sophia, Augustina, e tantos outros.

As nossas grandes influências externas provêm dos Franceses e dos Ingleses. Lisboa mais Francesa e o Porto mais Inglês. Dos Espanhóis guardamos um misto de amor-ódio, fruto de uma familiaridade e rivalidade conflituantes.

Apesar de carregarmos na alma a melancolia de um passado nobre e grandioso, somos um povo amistoso, de sorriso fácil. Haja saúde e esperança, porque quem espera sempre alcança, dizemos nós. Como se estivéssemos sempre à espera de um milagre, de um Euromilhões, demasiado apostados na sorte. Parte dessa característica derivará do nosso catolicismo por oposição a um protestantismo mais devoto do trabalho e da acumulação de riqueza.

Adoramos a nossa História e temos orgulho nas nossas origens. Sabemos receber como ninguém e estamos sempre prontos para mostrar as nossas mil e uma maravilhas. O fado, o futebol e as praias, recebendo quem vem de fora nas nossas mesas carregadas de pão, azeite, queijo, azeitonas, vinho e outras tantas iguarias.

Quando vamos para fora não deixamos de manter as nossas tradições e a nossa portugalidade. Gostamos de vender o nosso País, mas não temos conseguido criar marcas fortes, como os Holandeses, os Italianos, os Franceses e até mesmo os Espanhóis.

Apesar de não sermos ricos, sentimo-nos ricos por ter nascido aqui. De certa forma, se fôssemos muito ricos, deixávamos de ser Portugueses. Não precisamos de muito e por isso não exigimos muito de ninguém. Somos exigentes quanto baste. Não somos preguiçosos, mas também não somos obcecados. Gostamos dos nossos almoços prolongados.

A inveja, a última palavra dos Lusíadas, por vezes corrói o nosso espírito e impede-nos de reconhecer, promover, premiar e louvar plenamente o mérito alheio. Somos demasiado humildes, mas ao mesmo tempo demasiado orgulhosos.

Mas somos especialistas a resolver problemas. Ao que parece, de tempos a tempos mergulhamos em crises que nos obrigam a usar uma das grandes artes Portuguesas, o desenrascanço. Mas, sem vontade de prosseguir uma rotina nórdica, tornamo-nos inconstantes, indisciplinados e temperamentais.

Vivemos em Monarquia de 1143 a 1910 e os 16 anos da instável I República foram seguidos de 48 anos de Ditadura. Hoje, finalmente, estamos em Democracia há quase tanto tempo como estivemos em Ditadura.

Chegados aqui, para onde vamos carregar aos ombros os Lusíadas e a Mensagem? Que outros feitos nos esperam? Estaremos condenados a continuar a cair para a cauda da Europa? Como pretendemos festejar os 50 anos do 25 de abril? Como queremos chegar, como nação, aos 900 anos da nossa História?

Sentados neste canto da Europa com vista para o Oceano Atlântico, não deixámos de ser eternamente Europeus. Se o nosso império derivou do mar, o nosso desenvolvimento mais recente proveio da Europa. De ambos ficámos, no entanto, reféns e dependentes. Habituados e regalados com os esporos do exterior fomos dominados por uma preguiça que nos impossibilitou de desenvolvermos a nossa indústria e a nossa independência económica.

Nos últimos anos trocámos os proveitos das colónias pelos fundos Europeus, mas algum dia vamos mesmo ter de encontrar a prosperidade somente do nosso esforço. Assim, acredito que o nosso desígnio para as próximas duas décadas, até celebrarmos os nossos 900 anos de História, deverá ser o reforço da nossa independência económica, sustentada na indústria, na energia, na agricultura, no mar e no conhecimento.

Precisamos de um desígnio patriótico, mas nunca nacionalista ou protecionista. Um desígnio que mobilize o povo Português a evitar que Portugal se torne num País de pobres que servem Países mais ricos e organizados do que nós, num Pais dependente da Europa e do turismo para sobreviver.

A sustentação desse desígnio dependerá de diversos fatores, tais como a qualidade da nossa democracia, a competitividade da nossa economia, e um Estado Social garante de uma plena igualdade de oportunidades. Mas dependerá também das nossas tonalidades culturais, presentes e futuras, porque sem uma mudança cultural será difícil mudarmos politicamente e por fim economicamente.

Precisamos de uma renovada cultura democrática desvinculada da atual cultura arcaico-estatizante. Precisamos de deixar cair o paternalismo, o protecionismo, o facilitismo, o machismo, a ignorância, a inveja, a demagogia, a propaganda, a aldrabice, a fuga aos impostos, o compadrio, a cunha e o nepotismo e erguer bem alto a exigência, a excelência, o conhecimento, o respeito pela lei, a seriedade, a flexibilidade, a liberdade, a abertura, a inovação, a honra, o mérito, a consciência cívica, e o interesse nacional.

Se os livros são a ponta do icebergue da nossa cultura e os Lusíadas são o topo dessa montanha de gelo, o grosso da nossa personalidade coletiva é passada de geração em geração, entre Avós, Pais e Filhos, e é nessa corrente sanguínea que as maiores mudanças de mentalidades vão paulatinamente acontecendo.

Tal como disse Joaquim de Carvalho, “as nações com a responsabilidade histórica da gente portuguesa, não podem imobilizar-se estaticamente, nem devem iludir-se infantilmente; têm que desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições e aspirações um ideal coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina o seu estar mutável em concordância com o seu ser permanente”.

Se não mudarmos, estamos condenados. Este Portugal, endividado, envelhecido, improdutivo e pouco competitivo, tem mesmo de mudar para que os próximos 20 anos não registem a taxa de crescimento média dos últimos 20, uns envergonhados 0,35% ao ano. Se não mudarmos corremos o risco de perder outra vez o comboio das revoluções que estão a acontecer no mundo, em particular a digital, a tecnológica e a energética. Se não mudarmos vamos continuar a onerar as gerações futuras.

Na altura em que atingimos o pico do nosso endividamento coletivo chegou o tempo de mudarmos. Não será uma bazuca ou um plano de resiliência que nos salvará no longo prazo. Só através de reformas estruturais poderemos aspirar a completar a revolução dos cravos e deixar de ser um País de cravas para passar a ser uma nação auto-sustentável com perspetivas de prosperidade para os nossos filhos e netos.

Isto não significa renegar a todas as nossas características, muito menos às positivas, que são a maioria. Se o futuro é a aurora do passado, o nosso passado demonstra que somos dos melhores do mundo a responder a crises. Se fomos capazes de conquistar o nosso território aos Mouros, de marcar a História mundial com a nossa epopeia dos Descobrimento e de nos desfazermos de um Portugal colonialista, analfabeto, pobre, rude e ditatorial podemos aspirar chegar aos 900 anos da nossa História orgulhosos por termos reconquistando a nossa independência.

Parafraseando Eduardo Lourenço, “chegou o tempo de nos vermos tais como somos, o tempo de uma nacional redescoberta das nossas verdadeiras riquezas, potencialidades, carências, condição indispensável para que algum dia possamos conviver connosco mesmos com o mínimo de naturalidade. Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá fora ou lá longe a solução que, como no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal”.

Uns dirão que será impossível, outros dirão que será difícil, eu direi, tal como um dia disse Pessoa que “quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”, e só nós, Portugueses, podemos transformar esta catástrofe pandémica no nosso doloroso elixir regenerador, no nosso novo Bojador.

20 de fevereiro de 2021