O aparecimento de um partido político com um deputado eleito e 66.442 votos conseguiu o feito notável de pôr a opinião do país em sentido. É caso para dizer: nunca tantos obedeceram a tão poucos. Uma obediência, porém, que se manifesta de forma arrevesada, vem acompanhada por um número de adjectivos pouco comum; o número, pela quantidade, os adjectivos, pela expressão do rigor moral, da severidade na condenação e, por vezes, da sensação quase fisiológica de repugnância. Se emitidos de viva voz, é de supor que não estariam ausentes os elementos supra-segmentais adequados. Não deixa de suscitar alguma perplexidade que se mobilizem tantos qualificativos para desqualificar um adversário político tão fraco, dado que, a fazer fé nos seus detractores, o deputado único nada vale. À primeira vista, tudo levaria a crer que há nisso uma contradição. Puro engano, trata-se do corriqueiro processo da cobardia: quando fareja fraqueza, sente-se forte. Por sua vez, outro ponto de vista há, que assevera em clave profética a periculosidade do deputado único. Trata-se de um fascista. De acordo, a bem do argumento, mas repita-se hoje a pergunta do camarada Estaline: quantas divisões tem André Ventura? Entre o poder real e o poder que lhe é atribuído parece verificar-se igualmente uma contradição. Uma vez mais, pura aparência. Não é forte? Façamo-lo forte. Bate-se o tantã histórico para invocar fantasmas passados que permitam agigantar um inimigo e, por essa via, agigantar o ego e insuflar o pathos da denúncia, que agracia o mundo com os sons da trombeta moral que toca no seu peito. Tudo, claro está, temperado com imensa dignidade, como na rábula de Herman José se condimentava tudo com imensa paprica. Mas causa ainda mais perplexidade o argumento que decidiria em última instância: à esquerda e, mais recentemente, à direita decreta-se que a cerca sanitária ao Chega! é uma questão de princípio.

No juízo ético-moral, a expressão uma questão de princípio é dotada de uma certa transparência. O sujeito moral julga por si e é responsável apenas perante a sua consciência; é soberano em causa própria. Nessa medida, a pluralidade de princípios inerente a toda a vida humana deixa-se hierarquizar com base num princípio seleccionado para desempenhar a função de meta-princípio. Claro que essa pacificação teórica do sujeito não é transponível sem atrito para a prática. Fazendo-se anunciar tanto em expressões dolorosas que podem marcar, ou destruir, para sempre uma vida, como em expressões mais ou menos triviais de que não fica um vestígio na memória, o desacordo entre o sujeito e as suas acções mostram-no bem. Os sentimentos de aviso que assinalam a incongruência dos dois planos (culpa, ressentimento, desprezo de si, autoindulgência, autocomiseração etc.) e os actos que podem motivar (pedidos de desculpa, perdão, compensação, etc.) ficam sob a alçada exclusiva do sujeito e as consequências situam-se ao nível interpessoal.

Na acção política e social, as coisas passam-se de forma diferente. A pluralidade de princípios a aplicar na prática decorre, necessariamente, da pluralidade de sujeitos colectivos e institucionais e, assim sendo, a formação da vontade política não pode deixar de ter a sua origem no conflito e em alianças, na competição e na cooperação entre os diversos sujeitos, cada qual com os seus interesses, valores e princípios. Neste sentido, o pluralismo democrático e a institucionalização da oposição implicam, necessariamente, que o poder político, isto é, a instância que aplica os princípios e a sua hierarquização, depende sempre de uma vitória e da correspondente derrota eleitoral e, em igual medida, do carácter permanentemente provisório de tais vitórias e derrotas. Por outras palavras, no contiuum social e temporal, o poder é sempre relacional e não há inimigos absolutos. Trata-se de uma consequência inevitável da conjugação da imprevisibilidade histórica com o princípio do pior: o inimigo absoluto de ontem torna-se imediatamente um potencial aliado se surgir um mal que lhe seja superior. Se o combate deve ter um sentido especificamente político, terá de nortear-se pelos princípios – e respectiva hierarquização – que defende e representa, nos quais estará necessariamente incluído como conditio sine qua non o imperativo funcional de conquistar o poder. Reside aqui, aliás, o specificum da política como tal e, em especial, o que a distingue da moral.

Por isso, a leitura das condições da acção política obedece sempre a critérios polémicos: as alianças e a cooperação definem-se em função do adversário, entendendo cada qual por adversário os princípios e interesses que lhe são axiologicamente mais opostos. E dessas condições, convém lembrar, também fazem parte as decisões tomadas pelos adversários, e a modificação da realidade que assim foi levada a cabo – no caso vertente, a queda dos muros entre a esquerda e a extrema-esquerda totalitária. Assim sendo, cabe à prudência política ponderar os factores, ou seja, determinar qual o grau de ameaça política que constituiu a impossibilidade de exercer o poder, e renunciar por isso à concretização de princípios, valores e interesses, a troco de negociações e compromissos que não atentem contra o que é essencial nos princípios, valores e interesses. Uma tal tarefa decorre num horizonte de falibilidade, mas sem ignorar que se trata, quando muito, de somar mais um voto.

Sobeja o problema da normalização. Na ausência de poder – um único deputado, hoje é disso que se trata, disso e de nada mais –, acusação de normalização reconduz-se a pouco mais do que ao estilo do protagonista, regularmente provocatório para regularmente renovar os seus 15 minutos de fama, acusação essa que redunda num exercício ritualístico politicamente estéril, que não passa de um xibolete para consumo interno.

Nesta medida, a aplicação de critérios morais à política acaba por negar a própria moral, uma vez que, fundada apenas num critério pessoal e intransmissível, a renúncia ao exercício do poder constitui um desinteresse do destino alheio e um egocentrismo amputado do mundo social. Em política, o malogro prático não se dá a conhecer por sentimentos de aviso, mas sim através da responsabilidade irrecusável por outrem.  Cortadas tais amarras, é a moral que se torna narcisicamente ensimesmada e desprovida de objeto. Corruptio optimi pessima.