caderno de apontamentos

Os professores: as generalizações são perigosas

Autor
  • Anabela Grácio
898

Muitos professores merecem o nosso reconhecimento e valorização e é por eles e com eles que o sistema educativo tem vindo a melhorar a sua performance. Façamos-lhes justiça.

A qualidade de um sistema educativo é determinada pela qualidade dos seus professores (i.e. educadores/as de infância e professoras/es dos diversos ciclos de ensino). Esta afirmação tem sido proferida em vários contextos e por diferentes organizações políticas, profissionais, educativas e de investigação com abrangência e responsabilidades nacionais, transnacionais e internacionais e que visa clarificar que os professores são os profissionais fundamentais de qualquer sistema escolar.

Creio que La Palice não diria melhor: esta é uma afirmação óbvia. Devemos, então, interrogar-nos por que razão organizações como a UNESCO, OCDE ou a Comissão Europeia, para além de associações profissionais e a investigação, sentiram, e sentem, a necessidade de a declarar de forma tão clara, veemente e continuada. A resposta a esta questão parece-me clara: as dúvidas relativas à importância e qualidade dos professores surgem porque são, por razões várias, deliberada e frequentemente, semeadas nos diversos contextos – político, académico, social – que (se) refletem (n)a opinião pública, com efeitos nefastos na (auto)perceção da qualidade docente.

Tenho para mim que dois enormes equívocos estão subjacentes a estas dúvidas. O primeiro equívoco reside no facto de se questionar a importância dos professores nos sistemas educativos, havendo até algumas tendências que procuram substituir a importância dos professores pela importância do ensino – em inglês soa melhor porque a raiz da palavra é a mesma: teacher e teaching –, como se estes conceitos não fossem parte do mesmo todo. Este é um equívoco que é fácil de clarificar: sem professores não haveria ensino, escolas ou sistemas educativos.

O segundo equívoco consiste no facto de se questionar a qualidade dos professores, visando alguns mas colocando o estigma da dúvida sobre todos os professores. É justamente sobre os danos desta generalização que me interessa focar.

Da minha experiência enquanto professora mas sobretudo como diretora de agrupamento de escolas pude constatar que o ferrete da dúvida não traz grandes males aos professores desinteressados e incompetentes – a maioria destes professores é intrinsecamente imune a estas afrontas e escuda-se nelas para justificar o seu desinteresse e má conduta profissional. Mas atinge de forma contundente os professores que constroem positivamente a qualidade dos sistemas educativos: os que se interessam pelos seus alunos e pela sua escola, os que assumem a inteira dimensão da sua responsabilidade profissional, orientam a sua ação em função dos processos de aprendizagem dos seus alunos, agem em conformidade com os princípios éticos e deontológicos da sua profissão e reconhecem o impacto decisivo que a sua ação tem na vida e desempenhos dos seus alunos.

Da mesma forma, fazer generalizações em relação à qualidade dos professores, assumindo a sua qualidade total ou geral, traz riscos associados, nomeadamente não serem levadas a sério – porque imprecisas – ou serem desvalorizadas – porque redutoras. E, mais uma vez, com prejuízo para os professores cujo desempenho merece ser valorizado e reconhecido.

É urgente aferir a linguagem e medir o impacto das palavras e os perigos das generalizações especialmente quando são proferidas por responsáveis políticos, investigadores, “fazedores de opinião”, jornalistas, sindicalistas.

É preciso ter a coragem para destrinçar, valorizar e assumir de forma diferente os distintos tipos de professores. E há tantos que fazem tão bem o seu trabalho, que marcam positiva e indelevelmente a vida dos seus alunos e das suas escolas e que o fazem de tantas formas diversas: há os que fazem projetos inovadores e, por natureza, mais visíveis, mas há também aqueles que no dia-a-dia das suas aulas, todos os dias, de forma continuada, consistente, anónima e menos visível aguçam a curiosidade dos seus alunos, acolhem a diversidade, entusiasmam para o saber e transformam vidas. E alguns tocam a vida de centenas de alunos por ano, com as suas idiossincrasias, com os seus estilos de aprendizagem, com as suas expetativas e capacidades tão diversificadas. São estes professores que importa reconhecer e acarinhar e não deixar que a mácula da dúvida os toque.

Os professores portugueses têm em média 20 anos de serviço e cerca de 75% tem mais de 40 anos de idade. Por eles passaram muitas reformas e contrarreformas que têm obrigado a constantes reconfigurações do seu trabalho. E não me refiro concretamente às condições de trabalho. Falo especificamente das alterações que se referem à matéria do seu trabalho: alterações de currículos, de paradigmas de abordagem ao currículo, de programas curriculares, de formas, condições e tipos de avaliação, de alargamento da diversidade de crianças e jovens que estão e ficam nas escolas, da miríade crescente de mandatos – impossíveis de cumprir – que são acometidos às escolas e aos professores. Entre os professores há os entusiasmados que dão corpo às mudanças, há os resistentes à mudança que insistem em fazer como entendem adequado e esperam pela nova mudança para justificar a permanência, há os que usam as possibilidades do sistema para melhor se servirem dele. É essencial não confundir o todo com a parte nem o oposto.

De acordo com os testes internacionais PISA 2015 e TIMSS 2015, o sistema educativo português tem vindo, de forma constante, a melhorar na maioria dos indicadores. Estes testes demonstram, ainda, que alunos, pais e diretores escolares portugueses são os que exprimem uma opinião mais positiva dos professores em comparação com os seus pares europeus em termos de competência e disponibilidade.

Creio que poderemos concluir que muitos professores merecem o nosso reconhecimento e valorização e é por eles e com eles que o sistema educativo tem vindo a melhorar a sua performance. Façamos-lhes justiça: quando quiser atingir alguns (professores), afine a mira e atire em cheio. Se não souber fazer, não atire. As generalizações podem matar o entusiasmo dos professores que (ainda) o têm. Sem eles o sistema educativo definha.

Professora, foi Diretora do Agrupamento de Escolas de Constância durante 19 anos e atualmente exerce as funções de Perita Nacional Destacada na Comissão Europeia. É, desde 2014, membro cooptado do Conselho Nacional de Educação.
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

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